Vinho tinto ou branco? Laranja!

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Apesar de ainda não ser tão popular, vinho laranja tem chamado a atenção em todo o mundo

Tinto ou branco? Essa é a pergunta-chave quando alguém irá escolher um vinho, certo? Na verdade, não! Afinal, já existem outros tipos da famosa bebida, que, de acordo com a Cuponation, apresenta o maior consumo per capita com uma média de 58 garrafas por ano por pessoa em Portugal. Em seguida, aparece a China. Já quando o assunto é o consumo online de vinho, a empresa de consultoria Wine Intelligence constatou que o Brasil está em 3° lugar no consumo online da bebida, ficando atrás apenas da China e do Reino Unido.
Nesse cenário de amplo consumo em todo o mundo, o vinho laranja tem chamado bastante atenção. Mas o que é o vinho laranja? De acordo com Gil Karlos Ferri, professor universitário na Faculdade CENSUPEG, localizada em Joinville, Santa Catarina, e pesquisador do projeto “Da terra à mesa: uma história ambiental da vitivinicultura nas Américas” – (UFSC/CNPq), “os vinhos de coloração alaranjada são provenientes de um processo de maceração das uvas brancas com o mosto, tal como se produzem os vinhos tintos a partir de uvas tintas. A denominação ‘vinhos laranja’ é de fácil entendimento. Porém, os produtores possuem ressalvas, preferindo se referir aos mesmos como vinhos âmbar ao invés de vinhos laranjas (os italianos, por exemplo, preferem o termo ‘vino ambro’). Esses cuidados na denominação são relevantes, pois, em línguas saxônicas, muitos podem se equivocar e pensar que tais vinhos são produzidos a base de frutas cítricas”, explica.

“Existe também uma procura por vinhos mais humanos”, afirma Luís Henrique Zanini, vinhateiro na Vinícola Vallontano

Guilherme Corrêa, sommelier e diretor de vinhos da Wines by Heart, garrafeira e wine-bar de Lisboa, Portugal, complementa que “os vinhos laranjas são uma releitura dos vinhos produzidos nas origens da viticultura, que se deu, provavelmente, na República da Geórgia, no Cáucaso”.
Já Luís Henrique Zanini, vinhateiro na Vinícola Vallontano e responsável, junto com a sua esposa, pelo projeto de vinhos naturais batizado de Era dos Ventos, em que todos os vinhos recebem poesias de própria autoria em seus rótulos, resume que “a definição de vinho laranja, a grosso modo, é uma vinificação de uvas brancas como se fossem vinificadas para vinho tinto. Isto é, as uvas são mantidas com as cascas por longo tempo, mesmo após o término da fermentação alcoólica”, esclarece.

Principais características

A cor alaranjada não é o único fator que diferencia o vinho laranja do tinto ou do branco. Pelo contrário! Conforme os especialistas consultados pela nossa reportagem, o vinho laranja apresenta várias características únicas, como “o princípio de serem vinhos de castas brancas tratadas como se fossem vinificadas para tintos. O suco das uvas é mantido por longo tempo em contato com as cascas, adquirindo, desse modo, elementos não habituais em vinhos brancos, como polifenóis, alguma cor e textura rugosa, tânica. O tempo de maceração de suco e cascas supera o que se faz nos tintos na maioria dos casos. Como são ‘brancos feitos com técnica de tintos’, podemos assinalar que tendem a possuir muito dos dois mundos, aliando, sobretudo, frescor e notas de frutas cítricas aliados a texturas incomuns aos brancos convencionais. Os vinhos laranjas podem ser consumidos em ocasiões diversas, quase sempre acompanhados de pratos fortes, molhos marcantes e bastante condimentados. Harmonizam bem com frutos do mar, peixes, vegetais grelhados, massas, paella e carnes (como cordeiro)”, afirma o professor e pesquisador Ferri.

“Os vinhos laranjas possuem uma complexidade ímpar”, diz Guilherme Corrêa, sommelier e diretor de vinhos da Wines by Heart

Corrêa, da Wines by Heart, detalha que “os vinhos laranjas possuem uma complexidade ímpar, revelando desde notas florais, de cítricos confitados, de prunóideas e frutas secas, até notas ‘savoury’ de cogumelos, de bosque de Outono, além de fortes acentos minerais. Sua estrutura é firme, fenólica, tal como um tinto, mas com a frescura e a mineralidade de um grande branco. Em comparação aos brancos modernos, nos quais a fermentação dá-se após a prensagem e separação das cascas e dos sólidos das uvas, os vinhos laranjas são fermentados em contato com as cascas, normalmente, a temperaturas mais altas, com leveduras indígenas, e em ambientes mais oxidativos, como em ânforas revestidas com cera de abelha ou pez ou em recipientes de madeira. Na mesa, os vinhos laranjas fazem o papel de um grande branco acompanhando peixes e crustáceos em preparações bem saborosas, mas também fazem as vezes de um tinto escoltando com perfeição até carnes intensas como a de cordeiro. O melhor de dois mundos em um vinho somente”, ressalta.
Zanini, do Era dos Ventos, por sua vez, pondera que as principais características dos vinhos laranjas “dependem do local onde são feitos, do recipiente utilizado para a elaboração, do tempo de maceração e da variedade de uva utilizada. Nem toda a variedade de uva branca adapta-se ao processo. Então, dependendo da variedade usada, teremos vinhos mais florais, frutados ou minerais, mais ou menos intensos. Já na boca, percebemos mais a presença dos taninos. A cor do vinho não precisa ser necessariamente laranja, mas é comum os tons acobreados”, salienta.

Fabricação

Quando o assunto é fabricação, os vinhos laranjas também apresentam certas peculiaridades. Ainda de acordo com o professor e pesquisador Ferri, “a fabricação do vinho laranja é feita utilizando uvas brancas. Porém, com um método que se assemelha mais ao preparo dos vinhos tintos. Diversos tipos de uvas podem ser usados para fabricar o vinho laranja, mas as mais utilizadas são a Trebbiano e a Ribolla Gialla. O que difere os vinhos laranjas dos vinhos brancos é o processo de deixar o sumo das uvas prensados junto com as suas cascas durante a maceração, como acontece na fabricação de vinhos tintos. Essa técnica é responsável por liberar o tanino das cascas dando a cor alaranjada ao líquido, que pode ir dos tons de ouro a cobre, dependendo do tempo que as uvas permanecem em contato com a casca. O estilo de fabricação busca ser orgânico. Ou seja, em sua maior parte, a produção dos vinhos laranjas segue regras mais naturais, que dispensam o uso excessivo de químicos nos vinhedos ou na fermentação. Apenas em alguns casos, o enxofre é utilizado para inibir a proliferação de leveduras selvagens, que estão presentes nas cascas das uvas. Algumas produções também dispensam a etapa de filtrar o vinho, resultando um aspecto turvo ao líquido”.
Já Zanini, do Era dos Ventos, partilha que “os vinhos laranjas, ao contrário da fermentação de um vinho branco convencional, quando tiramos a casca do processo, no vinho com maceração, deixamos as cascas com o mosto por semanas, meses. Em relação ao preço, ele é mais caro que a grande maioria dos vinhos por ser elaborado em pequena quantidade e de maneira artesanal”, destaca.

Sucesso justificado

“Considerando que a humanidade busca reconfigurar valores, como a sustentabilidade, a busca pelo simples pode ser observada como um insight de novas relações com a produção de vinhos”, diz o professor e pesquisador Gil Karlos Ferri

Quais são os principais fatores que fazem o vinho laranja conquistar tantos paladares?
Para o professor e pesquisador Ferri, a fama do vinho laranja é decorrente da “sua originalidade, que consiste na dinâmica natural de sua produção. Considerando que a humanidade busca reconfigurar valores, como a sustentabilidade, a busca pelo simples pode ser observada como um insight de novas relações com a produção de vinhos. Como bem apontou o colunista André Logaldi, dentro de sua filosofia introspectiva, os vinhos naturais talvez busquem devolver uma fatia dessa inocência perdida, ainda que desordenadamente e também com conflitos éticos por produtores que fazem marketing enganoso (descobriram que se pode vender vinhos defeituosos sob o epíteto de ‘vinho de terroir’). O vinho não é apenas uma ferramenta de expressão política, mas pode ser o reflexo exato dos anseios culturais de pequenos grupos sociais que, num mundo fortemente conectado, atrai seguidores”, contextualiza.
Conforme Corrêa, da Wines by Heart, o vinho laranja é um verdadeiro sucesso porque “é um vinho disruptivo, uma volta às origens, um vinho associado à negação dos preceitos da indústria moderna do vinho, que trouxe grandes desenvolvimentos para vitivinicultura nos últimos 50 anos, mas também uma grande homogeneização do produto”.
Já Zanini, do Era dos Ventos, pontua que acredita que “há um interesse pela técnica antiga de vinificação. Também acredito que há uma tendência mundial na procura de vinhos com menos intervenções nos vinhedos e nas vinícolas. Métodos menos intervencionistas preservam melhor as características locais de produção. O não uso de aditivos enológicos faz com que o vinho seja mais verdadeiro. Existe também uma procura por vinhos mais humanos. As pessoas estão se cansando de vinhos massificados, padronizados. Estão questionando os vinhos de alta performance industrial e sem alma. O vinho de maceração (laranja) é uma resposta ao vinho altamente tecnológico e as pessoas estão, cada vez mais, sedentas por vinhos artesanais de vinhateiros e não vinhos de marca”, conclui.
Vinho de Altitude

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