Trabalho em casa e a alimentação fora do lar

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Pesquisas indicam que home office será adotado por muitas empresas mesmo no pós-pandemia. Nesse cenário, poderá haver queda do movimento dos restaurantes?

A pandemia da Covid-19 foi responsável por mudanças de hábitos em todo o mundo. Várias medidas de segurança foram e estão sendo tomadas para evitar a propagação da doença. Entre elas, está o distanciamento social.

Diante da necessidade de evitar um contato mais próximo fisicamente entre as pessoas, várias empresas adotaram o regime de home office. Em alguns locais, a experiência tem sido tão satisfatória que muitas organizações já estudam adotar esse tipo de regime mesmo no pós-pandemia.

Um estudo da Fundação Instituto de Administração (FIA) intitulado Pesquisa Gestão de Pessoas na Crise Covid-19 mostrou, por exemplo, que quase 30% das empresas pretendem manter no mínimo 50% do quadro de colaboradores trabalhando em casa mesmo quando a pandemia tiver fim.

Nesse cenário, surgem algumas indagações, como: com as pessoas cada vez mais em casa, como ficará a área de alimentação fora do lar?

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Trabalho em casa e a alimentação fora do lar
Francis Dias é sócio do Restaurante Quina. De acordo com ele, “tem que se tomar muito cuidado ao se avaliar essa questão, estando em um momento de total exceção, como a pandemia. As avaliações mudam o tempo todo muito rápido”

Francis Dias é sócio do Restaurante Quina. De acordo com ele, “tem que se tomar muito cuidado ao se avaliar essa questão, estando em um momento de total exceção, como a pandemia. As avaliações mudam o tempo todo muito rápido. Há pouco tempo, se falava por aí que self-services deixariam de existir, previsão que na primeira flexibilização que vivemos se mostrou furada. Existe, sim, uma tendência de mudança comportamental importante de ser observada, mas o mercado de alimentação fora do lar certamente terá sua demanda normalizada e essa irá perdurar. É importante reagir e prever as situações. O delivery, por exemplo, é um caminho sem volta. A busca por diferenciais que tornem a experiência presencial única é cada vez mais importante, mas é necessário cuidado ao se avaliar essa questão para não gerar uma falsa expectativa de caos. A alimentação fora do lar tem vida longa e próspera a longo prazo”, diz ele.

Dias destaca que acredita em uma mudança no que diz respeito ao padrão de consumo, mas não em uma queda sensível de movimento, pensando em um cenário pós-pandemia. “As pessoas buscam por entretenimento e assim continuarão fazendo, seja para um happy hour, ou um encontro virtual. É importante se manter presente na vida do seu consumidor, e a forma de se fazer isso hoje vai muito além do presencial. Estar ativo em redes sociais, ter canais de venda diversificados, ir de encontro ao consumidor, vai ser cada vez mais importante, mas novamente, não creio em uma mudança comportamental extrema que justifique uma preocupação extrema nesse sentido, a partir do momento em que a população tiver segurança novamente para sair de casa”, avalia.

Dias destaca que vê ótimas perspectivas para o segmento de alimentação fora do lar no pós-pandemia. “Vejo ótimas perspectivas. Haja visto que ao primeiro sinal de flexibilização, mesmo com a pandemia ainda em nível alarmante, as pessoas saíram de forma desenfreada, a ponto de se tornar um problema, com aglomeração e superlotação de diversas casas que resolveram não seguir os protocolos. Existe uma expectativa de mudança de comportamento em massa pós-pandemia, que para mim já se mostrou totalmente irreal. Tanto o sentimento romântico de ‘novo mundo’ quanto um possível caos devido a essa suposta mudança drástica de comportamento, para mim são falácias. O mercado de entretenimento e alimentação fora do lar vai seguir forte, tão logo a pandemia passar”, diz ele.

No que diz respeito aos impactos da pandemia da Covid-19 nos negócios, Dias afirma que foi algo gigantesco. “Nossos negócios sempre foram muito pautados na entrega da experiência presencial e, sendo assim, a necessidade de adaptação e reação foi extrema. Foram necessárias medidas extremas, com redução de equipes, mudança de turnos de funcionamento, implantação de delivery, tudo em tempo recorde. Foi o ano mais desafiador da minha vida profissional e continua sendo, afinal a pandemia não acabou. Mas acredito em boas perspectivas a médio prazo, que irão recompensar o empenho e esforço de todos nessa fase complicada”, afirma ele.

Mercado

Apesar de todos os momentos de incertezas vividos pela área de alimentação fora do lar, também existem os benefícios de investir no segmento.

Trabalho em casa e a alimentação fora do lar
“Já atuei em vários mercados e posso afirmar que restaurante é um dos que exigem mais variadas competências”, afirma Francis Dias, sócio do Restaurante Quina

Dias destaca que “o mercado de alimentação carrega um charme. Já ouvi médicos, advogados, engenheiros, dizendo ter vontade de ter um restaurante. A gastronomia principalmente nos últimos anos foi muito romantizada, e de fato é uma arte, faz muito bem para a alma. É um mercado encantador. O contato direto com o público (para quem tem esse interesse) é algo que me aproximou muito desse setor, a atuação profissional focada no momento de lazer das outras pessoas. São poucas as barreiras de entrada, por isso se vê tanta gente de tão variados perfis empreendendo na área”, afirma.

Entretanto, os desafios são vários, afirma ele. “Já atuei em vários mercados e posso afirmar que restaurante é um dos que exigem mais variadas competências. A linha de produção de um restaurante é mais complexa que a de várias indústrias. Lidar com produção, compras e estocagem de produtos altamente perecíveis, é um desafio por si só. O treinamento e qualificação de equipe, a escassez de mão de obra especializada, posicionamento de marca, marketing… Enfim, gerir com qualidade um restaurante vai muito além de fazer comida boa. É importante entender isso ao pensar em empreender na área”, avalia.

Para se destacar no setor, afirma Dias, é preciso buscar algo bastante sólido. “Para se destacar em um setor com tão poucas barreiras de entrada é necessário buscar algo bastante sólido. As possibilidades são variadas. Para um negócio de alimentação rápida, por exemplo, um ponto de fluxo intenso é essencial. Já para uma casa de alta gastronomia, a comunicação e a qualidade da entrega são pontos-chave, mesmo que em um ponto comercial não tão atrativo. O importante é ter um propósito claro e segui-lo, saber o porquê está fazendo e onde quer chegar”, afirma ele, que também fala sobre os planos relacionados ao estabelecimento. “O plano de médio prazo é manter os pés no chão, se manter atento ao comportamento do mundo, que hoje é a variável mais determinante para direcionar os negócios. Manter a conexão com nossos clientes, reforçar nossos valores, se manter relevante, mesmo que em um momento de demanda efetiva baixa, devido às circunstâncias”, diz.

Retorno

O chef Marco Soares é sócio-proprietário do Magna Restaurante. Ele acredita que não haverá queda do movimento nos estabelecimentos da área de alimentação fora do lar no pós-pandemia.

“Não haverá queda do movimento, muito pelo contrário, acredito eu. Caso tudo volte com a chegada da vacina, as pessoas estão com muita saudade de socializar, abraçar uns aos outros, reunir com amigos e família fora de casa. É o que esperamos para 2021”, diz ele, que destaca: “Acredito que as pessoas que estão se resguardando por conta da pandemia, com a chegada da vacina, voltarão às ruas e a frequentar locais públicos novamente como restaurantes, feiras, shows, cinemas”, diz.

Restaurante Quina
www.instagram.com/quinabh
Magna Restaurante
www.magnarestaurante.com.br

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