Tecnologia: Fim das curtidas no Instagram! O que isso significa?

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Especialistas discutem como a mudança pode impactar os negócios

Você sabia que, atualmente, o Instagram é considerado a mídia social mais prejudicial à mente dos jovens? Essa é a conclusão de uma pesquisa realizada pela Royal Society for Public Health, organização sem fins lucrativos do Reino Unido que se dedica ao estudo de melhorias na saúde pública há mais de 140 anos. Segundo o conteúdo, feito em parceria com o Movimento de Saúde Jovem, o compartilhamento de fotos pelo Instagram impacta negativamente o sono, a autoimagem e ainda aumenta o medo da juventude de ficar por fora dos acontecimentos e tendências, o chamado FoMO (Fear of Missing Out), expressão em inglês que significa medo de estar por fora.

O levantamento contou com consulta de 1.479 pessoas entre 14 e 24 anos, que tiveram que ranquear o quanto as principais mídias sociais (Instagram, Twitter, YouTube e Snapchat) influenciam nos seus sentimentos de comunidade, bem-estar, ansiedade e solidão. Os resultados mostraram que 90% das pessoas entrevistadas usam essas redes sociais mais do que qualquer outro grupo etário. Sendo válido ressaltar que, nos últimos 25 anos, as taxas de ansiedade e depressão nessa parcela da população aumentaram 70%. Assim como, os pesquisadores avaliaram que os jovens consultados estão deprimidos, ansiosos, sem sono e com a autoestima baixa.

Ainda conforme a pesquisa da Royal Society for Public Health, o problema é mais evidente entre as mulheres, uma vez que 9 entre 10 afirmaram insatisfação com o corpo. Além disso, em comparação com os homens consultados, o efeito negativo é alarmante, já que entre os analisados, 27% já se sentiram excluídos na Internet, contra 48% das mulheres. No quesito depressão e ansiedade, a diferença é ainda maior. Entre 2012 e 2015, por exemplo, os sintomas cresceram 21% entre eles e 50% entre elas.

Talvez em decorrência desse e de outros recentes estudos relacionados ao uso constante das mídias sociais hoje em dia em todo o mundo por pessoas e marcas,
a concentração no conteúdo e não nos famosos likes, as tão populares e valiosas curtidas, é a nova premissa do Instagram, plataforma desenvolvida pelo americano Kevin Systrom e pelo brasileiro Mike Krieger e lançada oficialmente em 2010. Mas, devido ao seu rápido sucesso, o aplicativo acabou sendo comprado pelo Facebook em 2012 por meio de negócio estimado em US$ 1 bilhão.

No dia 30 de abril deste ano, Adam Mosseri, atual líder do Instagram, anunciou três grandes novidades na mídia social, sendo a inclusão de adesivo de doação no Stories, uma atualização na aparência de sua câmera e a remoção da contagem de curtidas em fotos e vídeos do feed. A divulgação ocorreu durante o evento F8, que é uma conferência anual para desenvolvedores do Facebook realizada nos Estados Unidos e transmitida pela própria rede social.

O fim da exibição das curtidas em fotos e vídeos no feed no Instagram, desde o seu anúncio, vem tendo bastante repercussão em todo o mundo. Afinal, os likes são fonte de renda e métrica de investimento para muitas pessoas físicas e jurídicas. Porém, o que essa mudança representa e pode impactar no diário uso do Instagram por usuários comuns e marcas de diferentes mercados, incluindo o food service?

Por meio de nota, a assessoria de imprensa do Instagram informou à nossa reportagem que “o recurso está sendo testado para que os seguidores se concentrem nas fotos e nos vídeos que são compartilhados e não em quantas curtidas recebem”.

 

Para Orkut Buyukkokten, criador do extinto orkut.com e, hoje, CEO da Hello Network, mídia social disponível em 12 países, o fim da exibição das curtidas em fotos e vídeos no feed do Instagram tem seu lado positivo e negativo. “As estatísticas como o número de curtidas dão uma boa indicação de quão popular é uma postagem no Instagram. Isso dificulta a navegação pelo conteúdo de maneira objetiva. A maioria dos usuários presta muita atenção a esse número. Alguns se preocupam tanto com o fato que, se um post não obtiver likes suficientes em um curto período de tempo, eles o retiram. Remover o número de curtidas nos tornará menos tendenciosos quando estivermos gostando de um conteúdo. Vamos parar de gostar de conteúdo com base no tão popular ele foi anteriormente. No entanto, isso irá amortecer o efeito de popularidade da rede. Mas, ao mesmo tempo, não poderemos dizer qual é o conteúdo mais popular enquanto o pesquisamos. Além disso, normalmente, podemos ver quem gosta de um post específico e descobrir se os likes são autênticos e de usuários reais, não de spam ou de contas de bot. Não ser capaz de ver quem curte uma postagem dificultará a avaliação de tão popular é um influenciador e se os seguidores são usuários legítimos”, analisa.

Luciana Andrade Gomes Bicalho, consultora em comunicação e marketing digital, entende a mudança como algo que já era esperado, principalmente, para quem trabalha com mídias sociais. “Acredito que não pegou os profissionais de marketing de surpresa. Esse raciocínio em torno da relevância para gerar visibilidade tem sido adotado pelas corporações de mídia, como Google e Facebook. Hoje, se você quer que sua marca se sobressaia organicamente, você, primeiro, precisa atestar sua relevância no ambiente digital. Quem vai comprovar isso são suas personas por meio da navegação e interação com seus conteúdos. Os algoritmos estão refinados para entender a importância das marcas para os públicos. Por isso, a urgência de gerar uma comunidade de marca forte e consistente”, afirma.

Além disso, a consultora pondera que “as métricas de vaidade, voltadas apenas para o número de curtidas, estariam deturpando o uso do Instagram, principalmente, em relação às estratégias dos influenciadores, colocando como prioridade a quantidade e não a conexão entre os usuários. Além disso, existe uma preocupação com as patologias sociais, como bullying e depressão, pois as métricas relacionadas às curtidas poderiam incentivar uma competição entre os usuários, gerando ansiedade, inveja e baixa autoestima. Todavia, muitas pessoas enxergam o teste como uma tentativa de regular o mercado de influenciadores, sendo uma estratégia da plataforma para retomar o controle da produção de conteúdo. Essencialmente, a principal mudança está relacionada à avaliação do valor do conteúdo. Como externamente as pessoas não terão acesso ao número total de curtidas, o valor vai ser analisado pela relevância do conteúdo. Para demonstrar isso, as marcas terão que incentivar a troca de comentários e focar nas métricas qualitativas. A conexão entre os usuários e o relacionamento serão mais importantes”, explica.

Pedro Rafael Galvão Prata, analista de redes sociais da Rock Content, maior empresa de marketing de conteúdo da América Latina, ressalta que essa “medida tomada pelo Instagram segue uma linha que já vinha sendo adotada pela rede social de tentar criar um ambiente de uso mais consciente do aplicativo. A rede já tinha anunciado, anteriormente, a possibilidade de saber detalhes sobre o tempo de uso do aplicativo e, até mesmo, de limitar a permanência diária no app. Sendo assim, essa ação dos likes reforça uma visão atual da plataforma de focar mais no conteúdo e menos nos danos causados pelos números”, diz.

Para o analista de redes sociais, o fim da exibição do número de curtidas no Instagram representa também uma preocupação dos responsáveis pela plataforma focada em “coisas relacionadas à ansiedade gerada nos usuários, que são a principal justificativa para a medida. O Instagram já é considerado um dos apps mais danosos à saúde mental dos usuários. Para além do bem-estar de quem utiliza a plataforma, a produção de conteúdo orientada pelos likes vem sendo cada vez mais questionada. Além disso, os likes, inevitavelmente, viraram alvo de comparação e moeda de troca entre as pessoas. A meu ver, o Instagram está tentando tirar um pouco do peso das postagens da rede na rotina dos usuários. Porém, ainda existe a possibilidade de os administradores de cada página acessarem os resultados de cada post. Então, a medida pode minimizar o efeito comparativo, mas não resolve o anseio por números que a rede fornece. Ainda mais pensando em casos de perfis de influenciadores, por exemplo, que utilizam o engajamento como forma de angariar parcerias e trabalhos com marcas”, argumenta.

Impacto nos negócios

No universo do uso do Instagram exclusivamente para fins comerciais, o fim da exibição do número de curtidas em fotos e vídeos no feed do aplicativo tem deixado alguns empresários com bastantes dúvidas sobre como devem proceder diante dessa mudança, assim como divide opiniões entre os especialistas em comunicação/marketing digital.

Buyukkokten, da Hello Network, considera que “o fim das curtidas no Instagram terá um impacto enorme em empresas e marcas fora do Facebook. Atualmente, uma marca pode pagar diretamente a um influenciador para promover e compartilhar seus produtos e serviços. Isso ajuda na conscientização da marca e na criação da comunidade. O número de seguidores que um usuário tem e o número de curtidas que seus posts recebem é um forte indicador de quão influente o usuário é. Ao remover o número, o Facebook será a única empresa que terá os dados sobre o quão popular é o conteúdo de um usuário. O Facebook pode decidir compartilhar ou não com terceiros. Isso abrirá mais portas para oportunidades de receita para o Facebook, mas tornará mais difícil para os influenciadores ganhar dinheiro e mais difícil para as marcas criarem conscientização. O Instagram, agora, tem um ecossistema que suporta influenciadores que dependem, exclusivamente, de colocações de marca e promoções para renda. Remover os likes terá um efeito destrutivo na comunidade. Em geral, os recursos que são alterados depois que a comunidade é estabelecida podem ter consequências inesperadas e efeitos colaterais”, alerta.

Bicalho, consultora em comunicação e marketing digital, acrescenta que “o maior impacto será no segmento de influenciadores, que vão precisar recorrer a outros métodos para mostrar seu valor no mercado. Quando uma empresa estabelece uma parceria com influenciadores, ela, geralmente, toma essa decisão com base no alcance e no fortalecimento da imagem da personalidade nas redes sociais. A intenção é verificar seu grau de influência sobre as personas da marca. Com o ocultamento das curtidas, esse processo de avaliação será modificado. Além disso, o investimento em mídia paga pode ser incentivado, já que organicamente as curtidas perderam sentido. Tem o lado negativo da falta de parâmetros para realização de diagnóstico de presença digital, quando queremos monitorar concorrentes, grupos, influenciadores ou personalidades fundamentais para a marca. É difícil ter uma visão estratégica se você não consegue analisar quantitativamente o conteúdo que está sendo gerado pelos outros a fim de buscar critérios comparativos para a tomada de decisão editorial. Por outro lado, pode ser um ponto positivo para estimular o engajamento orgânico por meio de uma produção de conteúdo realmente relevante e de qualidade. Isso vai exigir uma pesquisa mais aprofundada sobre as personas, um aspecto essencial do marketing de conteúdo que já vem sendo inserido no cotidiano das marcas”.

Já quando questionada sobre quais podem ser os efeitos diretos do fim da exibição das curtidas no Instagram no âmbito comercial, a consultora afirma que “em curto prazo, vamos ver um processo de adaptação das marcas. Será um período de testes para verificar o impacto real no cotidiano da produção de conteúdo. Por um lado, talvez aconteça um investimento maior em patrocínio e uma mudança do foco na produção das métricas. Por outro, podemos esperar uma redução de esforços de comunicação por parte de algumas empresas devido ao apego às curtidas. No médio prazo, acredito que vamos enxergar um novo perfil de publicações no Instagram e um aumento das interações via comentários. No longo prazo, isso pode gerar um incentivo à comunicação personalizada e direcionada, voltada para nichos específicos. Talvez, o futuro do Instagram seja esse: o estreitamento da comunicação de nicho por meio da criação da comunidade de marca”, aposta.

Prata, da Rock Content, enfatiza que o fim da exibição do número de curtidas no Instagram irá atingir, principalmente, os “influenciadores, uma vez que as marcas realizam esse controle mais para visão interna e estratégia. Os influenciadores são quem precisam se provar, em meio a um cenário que cobra engajamento e números para fechar contratos. Acredito que a maioria das empresas controla internamento sua estratégia e, muitas vezes, não precisa expor esses números externamente para arrumar parcerias externas”.

Em contrapartida, ele também considera que a mudança “pode afetar os números dos perfis. Ainda não dá para responder, conclusivamente, se isso vai afetar na intenção dos usuários de engajar com os posts. Será que, para o usuário, o número de curtidas de uma postagem influencia na ação dele em relação a essa publicação? É algo que ainda não é possível responder, mas creio que o Instagram também precisa dos seus recursos para estabelecer o ‘valor’ dos perfis, justamente por isso que os donos ainda poderão acessar dados que dizem respeito a eles. O que a plataforma está buscando é uma maneira menos danosa, se é que é possível, de apresentar esses números (no caso, especificamente, dos likes). Eu enxergo como algo desafiador. É complicado avaliar como positivo ou negativo, mas acho que isso serve para tirar as marcas um pouco de uma zona de conforto. Na verdade, toda mudança mais drástica nessas plataformas serve sempre para lembrar que o app do Instagram, ou de qualquer rede, não é propriedades das marcas, o que significa que, se ele mudar do dia para a noite, as empresas vão ter que se adaptar para sobreviver se quiserem continuar nesse ambiente. Resta utilizar a criatividade para se adaptar, uma palavra importante para quem lida com redes sociais”, aconselha.

Instagram
www.instagram.com
Orkut Büyükkökten – Hello
www.hello.com/pt
Luciana Andrade
www.linkedin.com/in/luciana-andrade
Rock Content
www.rockcontent.com

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