Rastreabilidade no controle

0
Rastreabilidade no controle

Apostar em softwares de ponta pode ser a saída para evitar casos como o da Cervejaria Backer

Rastreabilidade no controle
“É fundamental que as empresas tenham um processo de rastreabilidade bem feito para garantir a qualidade do que será disponibilizado ao consumidor final”, dizem Amilcar Lopes, Diretor Presidente da R&B Rastreabilidade Brasil, e Thiago Oliveira, Diretor

Identificar a localização de um item, seus componentes, ou serviço, em todas as etapas de sua produção. Isso é rastreabilidade, meio pelo qual o acesso integral do histórico de uma mercadoria é viabilizado, o que torna os quesitos controle e segurança da cadeia produtiva mais apurados. Mas qual é a importância da rastreabilidade no processo produtivo do mercado food service?
Marina Campos Amaral é Gerente de Projetos Junior da Teknisa, empresa mineira que oferece soluções de suporte à gestão com forte atuação nos segmentos de indústrias alimentícias, químicas e farmacêuticas, além de atender todos os canais ligados ao mercado de food service. Ela afirma que “a rastreabilidade é importante em todo processo produtivo, pois ela garante a informação precisa a qualquer momento de toda a cadeia de produção”.

Guilherme Fumagalli, Gerente Comercial na PariPassu, primeira empresa do Brasil a iniciar o processo de rastreabilidade em frutas, legumes e verduras há 15 anos, complementa que “a rastreabilidade permite o conhecimento técnico da origem e todo o histórico do produto. Um primeiro ponto importante é que a demanda por esse tipo de informação é regido por uma normativa, a IN 02/18, que é válida para todos os entes da cadeia produtiva de alimentos. Além disso, somente com o uso de sistemas de rastreabilidade é possível acompanhar o desempenho de fornecedores e atuar de forma mais precisa na resolução de problemas, sejam eles relacionados à segurança do alimento ou até mesmo qualidade de recebimento de produtos”.

De acordo com Amilcar Lopes, Diretor Presidente da R&B Rastreabilidade Brasil, localizada em São Paulo, capital, e Thiago Oliveira, Diretor da mesma empresa especializada no ramo, “é fundamental que as empresas tenham um processo de rastreabilidade bem feito para garantir a qualidade do que será disponibilizado ao consumidor final, além de ser uma obrigatoriedade desde 2015 com a publicação pela Anvisa da RDC 24/2015. Um processo maduro e bem estabelecido permite que, em caso de qualquer contratempo, a empresa tenha velocidade e acuracidade para retirar um produto ou matéria-prima do mercado”.

Já Wendell Thales Silgueiro e Silva, Gerente de Pré-vendas para Digital Core & Digital Supply Chain da SAP, empresa alemã com mais de 40 anos de desenvolvimento de soluções corporativas, avalia que, quando o assunto é a importância da rastreabilidade no processo produtivo, “devemos ressaltar questões de conformidade, atrelados ao processo de controle e garantia da qualidade. As análises de qualidade dos produtos e seus impactos em vendas e logística (direta e reversa) tornam-se fundamentais para agilizar ações e garantir a responsabilidade da empresa perante a sociedade. Além dos processos da qualidade, a rastreabilidade também serve para entender e otimizar processos logísticos, demanda e vendas”, explica.

Nesse contexto, cabe citar que, desde o começo deste ano, todo o Brasil acompanha o caso da Cervejaria Backer, que enfrenta investigações relacionadas à suspeita de contaminação de mais de 20 pessoas que teriam sido vítimas de intoxicação exógena por dietilenoglicol, após terem ingerido a cerveja Belohorizontina da marca, que é a primeira cervejaria artesanal do Estado de Minas Gerais. O dietilenoglicol é uma substância tóxica que não pode entrar em contato com alimentos e bebidas e, até a última semana de janeiro, quatro pessoas já haviam morrido em decorrência dessa contaminação, segundo dados divulgados à imprensa pela Secretaria de Saúde de Minas Gerais.

Durante as investigações, que ainda estão em curso, autoridades confirmaram a presença do dietilenoglicol na água e nos tanques de produção da Cervejaria Backer, que, por meio de comunicado de recall publicado no site da empresa, informou que “reitera que está colaborando de forma integral com todas as investigações e se coloca à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos”.

Além disso, conforme release enviado pela assessoria de imprensa da Backer à nossa reportagem, “a Backer estruturou uma equipe multidisciplinar para prestar atendimento aos atingidos pela intoxicação por dietilenoglicol e, desde então, tem atuado para acolher todas elas. Inclusive, as pessoas hospitalizadas e seus familiares estão sendo visitados pessoalmente por representantes da cervejaria”.

No mesmo comunicado consta ainda a seguinte fala de Paula Lebbos, diretora de Marketing da Backer: “Nosso objetivo é conhecer essas pessoas e identificar suas demandas. Para que tenhamos acesso a essas pessoas e possamos ajudá-las, é muito importante que entrem em contato por meio dos canais divulgados”.

O release traz ainda a informação de que até o dia 28 de janeiro, “as cinco famílias que já entraram em contato já foram visitadas. O desejo da cervejaria é entrar em contato com todos os atingidos. No entanto, por tratar-se de objeto de investigações pelas autoridades, as informações sobre esses pacientes são confidenciais. Além dos atingidos diretamente, qualquer pessoa que tiver dúvidas sobre os procedimentos a serem adotados após o consumo e a destinação correta dos produtos pode entrar em contato e receberá o acolhimento psicossocial. Até o momento, foram finalizados 50 atendimentos desse tipo. Em uma ação conjunta com a cervejaria, a Secretaria de Saúde se comprometeu a realizar um acompanhamento dos casos e ainda oferecer atendimento psicossocial de médio e longo prazo aos atingidos. Como funciona: a pessoa aciona a Backer pelo telefone (31) 3228-8859 ou e-mail acolhimento@cervejabelorizontina.com.br para a realização de uma triagem inicial. Em seguida, a equipe multidisciplinar da Backer, formada por psicólogos e assistentes sociais, entra em contato com essas pessoas para realizar o acolhimento psicossocial completo”.

Rastreabilidade no setor cervejeiro

Segundo Carlo Lapolli, presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), a rastreabilidade no processo produtivo de cervejas artesanais no Brasil “funciona da mesma forma que o processo produtivo das outras cervejas. Tem que ter lote e validade justamente para que, se tiver algum problema, seja possível encontrar todas as informações para um recall, por exemplo. É importante salientar que o processo de registro de uma fábrica e produto – tanto de uma marca comercial como de uma artesanal – é o mesmo. Todos os processos são iguais, os registros, aprovações e fiscalizações do mapa são os mesmos. No Brasil, não existe distinção de uma cerveja artesanal e comercial (ligada a grandes empresas). A legislação é a mesma para todos os negócios desse tipo. A cerveja artesanal é mais uma questão de nicho de mercado, mas em termos produtivos. Por isso, seguem as mesmas normas, leis e Instruções Normativas (IN) que o Ministério da Agricultura e Anvisa exigem”, esclarece.

Para Lapolli, a rastreabilidade “é importante para se ter um maior controle sobre o produto. Por meio das informações, é possível saber onde determinado lote está sendo comercializado e, assim, caso ocorra algum problema, possa ser feito um recall ou tomar as devidas providências. Para se abrir uma cervejaria, é preciso cumprir esses requisitos de rastreabilidade do produto, assim como qualquer cervejaria, de qualquer porte. Isso é um fator primordial para o registro no Ministério da Agricultura”, enfatiza.
Quando questionado sobre o caso Backer, o presidente da Abracerva diz que “acreditamos que foi um incidente que chocou bastante o universo cervejeiro, mas consideramos isso um caso bastante isolado e restrito à Backer. A cerveja não tem um risco sistêmico de qualidade. Inclusive, esse acontecimento mostra que o sistema de registro de lote, validade e rastreabilidade da cerveja funcionaram, para que a marca proceda até o recall. Acredito que as normas funcionaram de acordo com o esperado. A Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) existe há seis anos com o foco de representar setorialmente as pequenas cervejarias. Acredito que, durante esse tempo, já evoluímos bastante. Temos um Selo da Cerveja Artesanal Independente, por exemplo, que os associados usam para mostrar que são cervejarias familiares, pequenas, que não pertencem a grandes grupos, entre inúmeras outras ações que já desenvolvemos. Sobre esse caso da Backer, acreditamos que seja o momento de reavaliar todos os processos e buscar, junto com as cervejarias e associados, melhorias contínuas que possam agregar ao setor. A Abracerva vai avaliar qual o melhor caminho. Acredito que ainda seja muito cedo para se fazer um diagnóstico sobre o acontecido, ainda mais no calor do momento. Mas, como entidade, queremos sempre melhorar a gestão das cervejarias e auxiliar as marcas a manterem um padrão de qualidade alto”, garante.

Soluções de ponta

Conforme os especialistas consultados pela nossa reportagem, apostar em softwares de ponta voltados à rastreabilidade pode ser a saída para evitar casos como o da Cervejaria Backer. Até porque, de acordo com Lucas Zappulla, Engenheiro de Qualidade e especialista em Auditoria e Consultoria de Qualidade, “é importante ressaltar que o Governo não possui recursos suficientes para realizar um controle robusto da implementação dos seus requisitos de controle de processos registrados em portarias publicadas, dentre eles uma eficiente rastreabilidade da cadeia produtiva. Portanto, cabe às empresas e seus responsáveis implementarem tais controles, em muitos casos, por meio de órgãos certificadores não governamentais, e, por consequência, obter uma redução considerável da abrangência de falhas na cadeia produtiva. Hoje em dia, o mercado oferece soluções robustas quanto à rastreabilidade da cadeia produtiva, desde simples sistemas de identificação a complexos métodos que utilizam tecnologias de geolocalização em tempo real. Uma vez que a fiscalização governamental não consegue garantir que as regras de padronização de controles mínimos de processos estejam implementados, mais uma vez, reforço que é a empresa quem deve analisar qual o nível de controle que seu processo demanda e priorizar que essas ações de implementação e manutenção do sistema sejam devidamente executadas”, enfatiza.

Amaral, da Teknisa, considera que “com o mercado exigindo cada vez mais velocidade no processo produtivo, é fato que o uso de tecnologias ultrapassadas pode prejudicar e muito a sobrevivência das empresas no cenário atual. Um software no controle da produção pode ajudar a garantir a otimização e a melhoria do processo produtivo, impedindo a utilização de matéria-prima vencida, por exemplo. Atualmente, a Teknisa possui em suas soluções os módulos de Controle de Produção, bem como o Controle de Qualidade da Produção. Esses módulos visam, especificamente, facilitar e otimizar o gerenciamento da produção de indústrias. Sendo uma tarefa vital dentro de todo o processo produtivo garantir o correto controle das matérias-primas utilizadas e a distribuição do produto aos seus clientes. Isso é o rastreamento da produção, que deve ser garantido em todo o processo de ponta a ponta. Desde a compra de matéria-prima de seus fornecedores, a análise e garantia da qualidade dessas matérias-primas adquiridas, a sua correta utilização e, por fim, a distribuição da produção e a garantia da qualidade dos processos de produção”, afirma.

Fumagalli, da PariPassu, ressalta que “no setor de alimentos, em especial food service, o volume de produtos recebidos e o giro da mercadoria é muito rápido, assim como a variedade e número amplo de fornecedores. Sendo assim, somente com o uso de tecnologias para rastreabilidade é possível obter as respostas necessárias no menor tempo possível para resolução de problemas, com a maior precisão possível. A PariPassu trabalha com o desenvolvimento da cadeia de alimentos por meio de soluções tecnológicas de rastreabilidade para distribuidores de alimentos, indústrias e restaurantes e também com a gestão das atividades de campo para os produtores rurais. Em paralelo, também temos uma frente de trabalho com soluções voltadas para a automação da inspeção de qualidade de produtos. Essas soluções permitem ao cliente registrar informações sobre a origem do produto (fornecedor, volume, produto, embalagem, localização, entre outros), controle de estoque, processamentos (misturas, mudanças de características do produto) e destinos (cliente, volume, produto, embalagem, entre outras informações). Esses dados, associados aos dados da qualidade do produto (características físicas, com base em parâmetros de fichas técnicas), permitem o acompanhamento do alimento em toda cadeia, e preparando os clientes para um eventual procedimento de recall, caso seja necessário. Iniciamos atendendo demandas de redes varejistas, porém, rapidamente expandimos para os demais elos da cadeia produtiva. E, hoje, atuamos do produtor ao consumidor final, com mais 3000 clientes ativos. Nesse tempo, desenvolvemos soluções para automação de inspeções de qualidade, coleta de informações no ponto de venda e automação de processos. Em 2018, nos unimos ao Grupo Genesis e passamos a oferecer aos nossos clientes uma solução completa de tecnologia associada a auditorias, certificações e análises de resíduos em alimentos. Rastreabilidade continua sendo nossa principal frente de trabalho, sempre focada no desenvolvimento da cadeia de alimentos perecíveis (frutas, legumes, verduras, ovos, orgânicos, proteína animal)”, detalha.

Rastreabilidade no controle
“É a empresa quem deve analisar qual o nível de controle que seu processo demanda e priorizar que essas ações de implementação e manutenção do sistema sejam devidamente executadas”, indica Lucas Zappulla, Engenheiro de Qualidade da Boston Scientific

Lopes e Oliveira, da R&B, frisam que “acreditamos que um software bem implantado permite às empresas produtoras conhecer toda a malha de distribuição de seus produtos e realizar atividades de recolhimento com muito mais eficiência. A tecnologia atual nos permite ainda compartilhar diversas informações ao consumidor final a partir de aplicativos mobile, permitindo saber qual o caminho percorrido pelo produto e ainda garantir sua autenticidade. Recentemente, desenvolvemos o app MEDiD, que disponibiliza essas funções aos consumidores de medicamentos. A R&B é uma empresa dedicada ao desenvolvimento de softwares e projetos de rastreabilidade. Entre nossos produtos, também temos R&B Rastro, R&B Pharma, Getpharma e MEDiD. Ao longo dos anos, desenvolvemos um framework chamado IOD (Identificação-origem-destino), que norteia o desenvolvimento dos nossos sistemas. Nossos sistemas trabalham com as mais diversas tecnologias, desde códigos de barras tradicionais, passando por códigos bidimensionais (datamatrix/ QR Code) e até mesmo tecnologias mais modernas, como RFID e NFC. A R&B Rastreabilidade Brasil surgiu em 2013 a partir da ideia de um grupo de empreendedores, apoiados por importantes sócios institucionais, de prover serviços de rastreabilidade. Inicialmente, o foco foi o segmento farmacêutico, dada a preocupação do Governo e da sociedade com os crescentes eventos de contrabando e falsificação de medicamentos e a posterior criação do Sistema Nacional de Controle de Medicamentos. A partir daí, a R&B evoluiu cada vez mais, realizando integrações técnicas e comerciais com fornecedores de software e hardware, desenvolvendo soluções para os mais diversos segmentos de mercado e customizando seus sistemas de acordo com as necessidades dos clientes. Atualmente, a R&B é líder de mercado em software de rastreabilidade na indústria farmacêutica, além de atender distribuidores de alimentos (NCS) e envasadores de bebidas (Águas Petrópolis Paulista)”.

Silva, da SAP, corrobora que “com a adoção de tecnologias inteligentes, tais como as soluções da SAP, as empresas podem operar todos os processos de compras, produção, qualidade e logística de forma consistente. Porém, além de obter a informação, que pode ser proveniente de sensores (Indústria 4.0), a empresa tem que ser informada rapidamente das inconsistências e potenciais riscos. Por meio das tecnologias inteligentes, podemos prever possíveis problemas no processo produtivo, avaliar e executar as ações necessárias, assim como evitar problemas no mercado e resguardar a marca da empresa. A SAP possui soluções para atender as necessidades de rastreabilidade em conformidade com as regulamentações globais e locais. Especificamente para a indústria de Consumer e Agribusiness, atendemos a rastreabilidade de toda a cadeia de suprimentos, contemplando as seguintes funcionalidades: Genealogia de Lotes (SAP Global Batch Traceability) – numeração, prazos de validades, análises e certificados de qualidade, registros de produção, transporte, armazenagem, assinaturas digitais, processos de bloqueios, quarentena e recalls; Gestão de Etiquetas (Label Management) – integrado com processos de compras e produção, gerencia as informações necessárias para atendimento das regulamentações locais (ANVISA, MAPA e outros) e globais. Integração com impressoras, RFIDs e outras tecnologias; e Gestão do Número de Série – gestão unitizada dos produtos para rastreabilidade de cada produto ao longo da cadeia. Desde produção, agregações e toda sua logística até o consumidor final. Importante ressaltar que todas as soluções de rastreabilidade são nativamente integradas com as soluções de negócio da SAP, tais como o S/4 HANA (SAP ERP), Gestão da Cadeia de Suprimentos, Gestão de Compras e Fornecedores. Essas soluções são potencializadas por meio de tecnologias inteligentes, tais como Inteligência Artificial / Machine Learning, Blockchain, Big Data, processo colaborativo na nuvem. As soluções de rastreabilidade são continuamente atualizadas para contemplar as necessidades do cliente e as regulamentações legais. Um exemplo é a solução SAP ATTP (Advanced Track & Trace for Pharma) para atendimento da Lei de Rastreabilidade na Indústria Farmacêutica (RDC 157). Além disso, fazemos atualizações para as novas tecnologias, como Blockchain, Redes de Colaboração na Nuvem, Machine Learning. Temos um case global de rastreabilidade com uma rede de pescados, a Bumble Bee Foods, que usa soluções da SAP para rastrear peixes frescos do oceano até a mesa. Assim como, a SAP também possui uma extensa base de clientes em diversos segmentos da indústria alimentícia, desde a originação até o consumidor final, tais como bebidas, cadeias de restaurantes, produtos congelados, entre outros”.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

cinco × cinco =