Orgânicos, prosperidade em evidência

Consumo de orgânicos se intensifica e país conta com milhares de produtores

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Uma feira de alimentos orgânicos, em Brasília, abriu a 11ª edição da Semana Nacional dos Alimentos Orgânicos. Quem foi ao Parque da Cidade pôde experimentar saladas e frutas e comprar mel, verduras, café, frango e doces produzidos sem agrotóxicos ou adubos químicos. A iniciativa, do Ministério da Agricultura, ocorreu até o dia 31 de maio no Distrito Federal e em 21 estados. A meta é levar informações à população sobre os orgânicos e incentivar o consumo. “Queremos falar direto com o consumidor, mostrar o que está por trás do produtor orgânico. Muitas vezes, ele é associado apenas ao produto sem agrotóxico, mas é mais do que isso. É todo um trabalho relacionado com a natureza, os recursos naturais, a relação com os empregados e a biodiversidade”, explicou o coordenador de Agroecologia do Ministério da Agricultura, Rogério Dias. Para ele, a demanda por esses alimentos está crescendo. O mesmo efeito ocorre com as pessoas que se dedicam à produção. De 2013 a 2014, houve aumento de 51% no número de produtores orgânicos no Brasil. “Quanto mais os consumidores entendem o que é e valorizam o produto orgânico, mais os produtores se animam a produzir”, observou. Dados do Ministério da Agricultura mostram que a área de orgânicos no Brasil abrange 750 mil hectares, contando com mais de 10 mil produtores e aproximadamente 13 mil unidades de produção. Aproveitando o domingo de tempo bom, o engenheiro José Eduardo Vaz caminhava no Parque da Cidade, localizado na região central de Brasília, e, ao ver a feira de produtos orgânicos, decidiu parar. Ele conta que conversou com produtores e entendeu melhor a visão e o método de quem produz. “Não me atrai tanto esse nome orgânico porque não entendo bem como posso identificar se, de fato, é um produto orgânico. Cheguei, comi uma pera e uma tangerina e acabei conversando com pessoas que têm uma visão distinta do predador, que pensam construtivamente”, relatou antes de ir para casa levando frutas e café orgânico. O produtor orgânico de café, frango e gado Carlos Caetano considera que ainda é preciso esclarecer os consumidores sobre o que diferencia os produtos orgânicos dos demais, para ampliar o consumo. Segundo ele, o mercado de orgânicos no país está em expansão com um crescimento de cerca de 20% por ano e isso se deve ao aumento do interesse por uma alimentação saudável. “As pessoas estão percebendo que a alimentação natural faz com que a saúde melhore.” O preço dos alimentos orgânicos, superior ao dos demais, ainda é uma reclamação frequente dos consumidores, mas o coordenador do ministério da Agricultura ressalta que é preciso levar em conta que esse é um produto diferenciado. “Não dá para ter um produto diferenciado em que você tem que adotar uma série de técnicas que acabam encarecendo e achar que isso pode não aparecer no preço”, explica Rogério Dias. Ele, no entanto, diz que com o aumento de políticas públicas para o setor, é possível que os custos caiam. O produtor Carlos Caetano argumenta que o preço mais alto é compensado pela vantagem de se ter na mesa um alimento saudável. “O fato de o alimento orgânico ser um pouco mais caro compensa o gasto que você tem na saúde. Você acaba gastando com a saúde o que não gastou com a compra do alimento”, pondera. Carlos também alerta que é preciso convencer o Poder Público a investir mais na pesquisa para reduzir o custo de produção. Para ser considerado orgânico, o alimento deve ser produzido de acordo com os princípios agroecológicos que contemplem o uso responsável do solo, da água, do ar e dos demais recursos naturais, respeitando as relações sociais e culturais, segundo o Ministério do Meio Ambiente.

Opção

Na busca por uma alimentação mais saudável, consumidores têm optado por produtos orgânicos. O custo mais alto do que o dos produzidos de modo convencional compensa em relação à melhoria da qualidade de vida e da saúde, de acordo com os adeptos da fabricação orgânica. A funcionária pública Aparecida Araújo trocou os alimentos produzidos com insumos químicos pelos orgânicos há dez anos e diz que sente os efeitos na saúde. “Os produtos químicos acabam acarretando doenças, o orgânico é mais fresquinho, mais conservado. Eu tenho 51 anos e minha preocupação é retardar o uso de medicamentos”, disse. Aparecida diz que vale a pena pagar um pouco mais pelos orgânicos, pois seu modo de produção também é mais sustentável para o meio ambiente, além de estimular a agricultura familiar. Segundo o engenheiro agrônomo da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) do Distrito Federal Rafael Lima de Medeiros, o custo do orgânico para o consumidor é, em média, 250% mais caro que o alimento tradicional. Algumas hortaliças têm o preço muito próximo, outros, como tomate e morango, já apresentam uma diferença maior. “Isso se justifica porque o agricultor orgânico tem que trabalhar com insumos mais caros, fertilizantes não tão solúveis, a hortaliça fica mais tempo na terra, demora mais pra ficar pronta. Existe também um custo com a certificadora que exige que o produtor seja socialmente justo, com todos os empregados com carteira assinada. Tudo isso acaba encarecendo”, argumenta. Ele diz, ainda, que o custo para o agricultor é maior, mas a lucratividade em relação ao convencional também tende a ser mais alta, já que o produto orgânico não está tão sujeito à sazonalidade do mercado, pois a demanda é constante. “Na época da seca, o tomate custa R$ 10 a caixa e, na fase da chuva, chega a valer R$ 120. O preço do tomate orgânico é R$ 80 o ano todo, não varia muito para o agricultor.” A Agência Brasil visitou o Mercado Orgânico da Central de Abastecimento do Distrito Federal e encontrou lá a aposentada Dilma Moura. Ela conta que encontrou resistência dos filhos, mas diz que perdeu 10 quilos de dois anos para cá ao mudar para a alimentação orgânica. “Busquei especialistas, nutricionistas, deixei os remédios e passei a tomar mais vitaminas, orientada pelos médicos, e isso causou uma mudança radical na minha vida. A alimentação saudável controla o estresse, ajuda a dormir e você se sente melhor para fazer exercícios. É um produto de muita aceitação, dizem que é mais caro, mas não consigo ver isso diante de tantos benefícios para a saúde”, conta. Segundo a presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Maria Emília Pacheco, é necessário ampliar a produção e o acesso a esses alimentos. “Precisamos ampliar as bases da produção agroecológica no Brasil. Para que isso se efetive devemos ampliar o crédito, o seguro agrícola, todos os instrumentos de política agrícola e de assistência técnica.” A presidente do Consea defende a popularização das feiras agroecológicas pelo país. “Precisamos dos chamados circuitos curtos de mercado. Isso dinamiza a economia local, traz uma relação mais direta do agricultor com o consumidor. Nos bairros populares, necessitamos ter sacolões, precisamos expandir esses equipamentos de alimentação pública. Isso é que vai garantir um consumo maior com preços também mais acessíveis para essa população.” A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) disponibiliza uma lista com alguns pontos de venda de alimentos orgânicos no Distrito Federal. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor também tem um mapa online de feiras orgânicas pelo país.

Exterior

Os produtores de alimentos orgânicos estão mirando o mercado exterior como forma de expandir os negócios e até se proteger do momento delicado da economia brasileira. Se a produção de alimentos, bebidas e cosméticos feita sem uso de adubos químicos e agrotóxicos ainda é novidade para muitos brasileiros, no exterior, onde há décadas esse tipo de artigo é muito valorizado, a prática é comum. Em sua 4ª edição, a Feira Green Rio promoveu, pela primeira vez, uma rodada de negócios internacionais para encurtar a distância entre o produtor nacional e os compradores estrangeiros. A coordenadora de negócios da feira, Monica Werneck, destacou o crescimento do mercado de orgânicos, na contramão da situação econômica do país. “Convidamos dez importadores de empresas de fora para que conheçam os produtos dos expositores. Este ano temos empresas do Peru, da Colômbia, da Dinamarca, da Estônia. A expectativa é que dobrem os negócios, exatamente por causa da rodada de negócios internacional”, disse Monica. Um dos casos de sucesso é o do jovem empresário João Paulo Satamini, de 32 anos, proprietário da empresa Brasilbev, que já exporta suas bebidas energéticas e chás mate orgânicos para sete países, incluindo Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Japão. “Conseguimos fazer um produto orgânico com preço agressivo, que está competindo com os convencionais. Temos certificados orgânicos pelo Ministério da Agricultura, por Estados Unidos, Europa e Canadá. Nossa primeira certificação levou um ano e meio”, disse Satamini, que lançou o energético há quatro anos e as linhas de chá há quatro meses. A rodada de negócios internacional foi organizada pela Associação Brasileira dos Exportadores e Importadores de Alimentos e Bebidas (Abba), dentro do projeto Brazilian Flavors. A presidente executiva da Abba, Raquel de Almeida Salgado, destacou que a conquista do mercado exterior é possível, mas demanda comprometimento das empresas. Ela considera que a busca da exportação pode ser um caminho sem volta. “Só não vai ser um caminho sem volta se o empresário não estiver preparado para isso, se for uma aventura. Existem quatro cês: a capacitação, o conhecimento, a cultura exportadora e o comprometimento. Se ele não tiver isso, vai ser um aventureiro. Ao ir, ele tem que ficar e incrementar. Não ir e voltar”, aconselhou Raquel. O mercado de orgânico também tem espaço para grandes empresas, como a Korin Agropecuária, especializada na produção de carnes orgânicas e ambientalmente sustentáveis. Segundo o diretor-superintendente da empresa, Reginaldo Morikawa, o mercado de orgânicos está se desenvolvendo no país, na contramão da crise. “O orgânico leva consigo a questão de ser um produto seguro. Com isso, faz com que o mercado cresça, independentemente da crise. A maior dificuldade é achar a matéria-prima orgânica. Existe a necessidade de a indústria fazer uma integração dessa produção, para ter certeza que terá o produto.” O faturamento da Korin apresentou um forte crescimento nos últimos anos, saindo de R$ 20 milhões, em 2007, e atingindo R$ 94 milhões em 2014. Do total produzido, 40% é totalmente orgânico e 60% produtos sustentáveis. O frango, que é o carro-chefe, é considerável sustentável por ser livre de antibióticos e alimentado com ração vegetal. A empresa está exportando para o Oriente Médio, a China e o Japão. “Eles dão valor ao bem-estar animal e à preservação ecológica. O mercado de orgânico para a Korin está positivo, crescente e deve continuar assim por mais dez anos”, disse Morikawa (Agência Brasil). Associação Brasileira dos Exportadores e Importadores de Alimentos e Bebidas www.aabba.org.br

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