O sabor de um clique

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O sabor de um clique

Fotografia de alimentos ocupa um papel importante na promoção e valorização da gastronomia

Boas fotos de alimentos são muito importantes para a atração de clientes e para a valorização da produção dos estabelecimentos.

Marcelo Uchôa é fotógrafo há mais de 30 anos e leciona fotografia em São Paulo. O profissional compõe o corpo docente da École Intuit Lab, escola francesa de design que inicia suas aulas e atividades no Brasil em março de 2022. O professor explica como a fotografia de alimentos funciona e em que o profissional da área precisa estar focado.

O sabor de um clique
Segundo Marcelo Uchôa, o fotógrafo de alimentos tem um papel muito importante para o mercado gastronômico. Ele afirma que a melhor forma de despertar a atenção e o desejo do cliente em frequentar o estabelecimento é por meio das imagens

“A fotografia de alimentos tem uma dinâmica própria, com um componente extra em relação à fotografia de produtos, por exemplo. A iluminação diferenciada. Temos a relação com as demais pessoas que auxiliam a compor a cena, como chef, culinarista ou produtor. Profissionais que saibam manipular alimentos, que nos ajudem a resolver questões práticas, como a decoração ou posição de determinados pratos. O foco é sempre conseguir que a cena final tenha o famoso ‘Appetite Appeal’, ou seja, a foto precisa despertar vontade de consumir aquele prato ou bebida com aparência suculenta e apetitosa”, destaca ele.

Perguntado sobre as particularidades da profissão, Marcelo Uchôa cita a necessidade de preparação de pratos especificamente para serem fotografados, já que a maioria deles são feitos para serem consumidos imediatamente.

“Normalmente, os chefs estão habituados aos pratos para serem servidos imediatamente. Da cozinha à mesa, são cerca de 5 minutos. Na fotografia de gastronomia não. Há uma dinâmica diferente, pensada para auxiliar o fotógrafo, e isso demanda muito mais tempo. Ajuste de luz, posição, composição e decoração estendem o processo até se chegar a um resultado adequado. Assim, o preparo precisa considerar a necessidade de manter a aparência saborosa por um longo período”, afirma ele.

Segundo Marcelo Uchôa, o fotógrafo de alimentos tem um papel muito importante para o mercado gastronômico. Ele afirma que a melhor forma de despertar a atenção e o desejo do cliente em frequentar o estabelecimento é por meio das imagens.

“É de extrema importância! Imagine que você tem todo um investimento para ter um restaurante: ponto, aluguel, decoração, staff treinado, instalações etc. Mas, mesmo com tudo isso, o público precisa conhecer seus pratos e especialidades. Neste momento, entram as fotografias e esses profissionais de design. O que vai atingir o seu cliente e despertar seu interesse é uma boa imagem. É o trabalho do designer que determina o apelo comercial que a fotografia vai despertar. Claro que pode haver outras alternativas de divulgação, mas a imagem é que reforça e vende todo o esforço construído por trás do estabelecimento. Todo esforço de um restaurante e de seus profissionais serão traduzidos no trabalho do fotógrafo, na imagem que venderá o restaurante ao público. Sabemos que existem opções diversas de se clicar um prato. Vale a pena colocar o prato saindo na sua frente na cozinha, clicar com o celular e postar. Vale um momento do flagrante. Mas esse contexto de fotografia não se encaixa com a fotografia gastronômica. As fotos culinárias feitas por um designer são imagens profissionais, são utilizadas em um contexto diferenciado, para trabalhar seus pratos e a sua marca, como produtos. O design tem um apelo mais comercial”, ressalta ele.

De acordo com Marcelo Uchôa, “uma boa foto leva um interessado até o espaço, ou o faz querer experimentar o produto. Se a imagem não vender qualidade, as pessoas nem perdem tempo de conhecer o espaço. Mas há um trabalho conjunto, é preciso que o produto oferecido seja condizente com o fotografado. O trabalho do designer vende o produto, mas a frequência de consumo do público é mantida pela qualidade dos pratos e do estabelecimento. A foto de uma maneira imediata repercute a marca. Mas a construção da marca é um processo que vem após a divulgação fotográfica. A fotografia entra nesse processo, como a parte motivadora. Se a imagem trouxer o cliente até você, ela foi um sucesso! A comunicação visual faz parte de uma etapa importante, mas para a clientela ser mantida é preciso um esforço conjunto”, diz ele.

Evolução e conhecimento

Marcelo Uchôa também fala sobre a evolução da profissão de fotógrafo gastronômico. “Existe a lenda sobre os alimentos serem falsos. Esse fato tem um pouco de verdade. Antigamente, as peças eram feitas de plásticos ou similares, imitando alimentos. Mas isso ficou para trás. Essa técnica é de um período em que os designers não tinham ideia de como resolver os problemas dos alimentos. Em algumas situações os profissionais se perdiam, e com a expansão da área culinária e sua participação ativa no processo de fotografia, novos caminhos e soluções foram descobertas”, afirma ele.

Sobre os principais cuidados e pontos de atenção necessários para se trabalhar com a fotografia de alimentos, Marcelo Uchôa cita a necessidade de se ter conhecimento culinário para entender como cada prato funciona e poder tirar o melhor de cada um deles na hora da fotografia.

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“O que vai atingir o seu cliente e despertar seu interesse é uma boa imagem”, destaca o fotógrafo Marcelo Uchôa

“Como profissional, acredito que procurar entender sobre culinária é importante. Mesmo que você não vá preparar o alimento, o fotógrafo terá que compor a cena e muitas vezes é preciso saber, por exemplo, o que combina com aquele prato para colocar como decoração. Um raminho verde de menta sobre o chocolate será o maior charme. Um raminho verde de salsinha não funcionaria, mas se você não sabe a diferença entre a hortelã e a salsinha, não saberá o que fazer e terá problemas. Nem todo trabalho tem uma equipe por perto para consultar. Idem para tipo de pratos, copos, temperos, pratos complementares etc. Os alimentos derretem, murcham, escorregam, secam, às vezes até mudam de cor. Tudo isso tem que ser previsto e solucionado. Pense no sorvete e já terá uma ideia do que eu quero dizer sobre a precisão necessária do trabalho de um fotógrafo de gastronomia. É preciso agilidade e organização para que tudo saia no tempo previsto”, ressalta.

Marcelo Uchôa também fala acerca do processo de formação dos profissionais da fotografia culinária. Segundo ele, já nos cursos de gastronomia existem conteúdos sobre o tema, mas é possível um maior aperfeiçoamento buscando capacitações mais específicas.

“Dentro dos cursos de gastronomia, a produção do alimento para a fotografia irá aparecer como um desdobramento. E existem os cursos de formação de design e também de formação fotográfica, onde você aprende os conceitos básicos de iluminação e captação das imagens, e vai aperfeiçoando ao aplicá-los nessa área. Claro que, depois de ter uma base mais sólida, cursos e workshops específicos, por exemplo, ajudam bastante o profissional a adquirir conhecimento. Experiências profissionais ampliam seus conhecimentos. Existem também alguns livros, não são muitos, mas que também ajudam a encurtar esse caminho de aprendizado. Vale lembrar que o fotógrafo e o designer transitam constantemente entre o artístico e o comercial, e são fortes referências um para o outro. Eu, por exemplo, tenho formação em Publicidade e Propaganda, nessa área é preciso ter uma bagagem forte em artes visuais. É esse conhecimento, somado à experiência na área gastronômica, que permitirá ao profissional ter um bom desempenho em sua atuação”, afirma ele.


Marcelo Uchôa
www.marcelouchoa.com.br
Instagram: @marcelouchoafoto
École Intuit Lab
ecole-intuit-lab.com.br
Instagram: @intuitlab.brazil

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