O novo mercado do leite

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O novo mercado do leite

Crise e novos hábitos alimentares dos brasileiros impulsionaram grandes marcas a diversificarem o portfólio do produto e seus derivados

Presente diariamente na mesa de grande parte dos brasileiros por anos, o leite também é muito importante para o setor econômico do Brasil, que ocupa o quarto lugar como maior produtor leiteiro em todo o mundo, de acordo com dados da Embrapa Gado de Leite. Porém, o país ainda é dependente da importação para suprir o mercado interno e, nos últimos anos, passou por expressivas mudanças.
Segundo Alexandre Guerra, presidente do Sindicado das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados do Rio Grande do Sul (Sindilat) e diretor administrativo e financeiro da Cooperativa Santa Clara, o “Brasil está próximo do consumo de 170 litros por pessoa/ano. Se compararmos com a Alemanha, que está com 250 litros/ano por pessoa. Se pegar a Nova Zelândia, são 300 litros. Nos nossos países vizinhos, a Argentina com mais 200 litros, o Uruguai com 242 litros. E a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a ingestão de 220 litros por pessoa/ano. Se olharmos nosso consumo, que é 170, tem um espaço muito grande para nossas indústrias se prepararem para um aumento do consumo de lácteos, não só de forma fluida, como de seus derivados e outros produtos que usam o leite como matéria-prima. Se compararmos com a Argentina, são 30 litros a mais por pessoa para trabalhar, 6 bilhões de litros a mais por ano, que é superior a produção do Rio Grande do Sul. Existe uma oportunidade muito grande, mas o Brasil depende muito do consumo interno. Por isso, falamos muito da melhoria da economia para que possa voltar o consumo de produtos de valores agregados, onde as pessoas tenham condições de degustar outros produtos para poder agregar valor também ao setor”, contextualiza.
Além da questão econômica, alterações nos hábitos alimentares também provocaram expressivos reflexos no mercado nacional leiteiro, o que impulsionou grandes marcas a diversificarem o portfólio do produto e seus derivados. Para se ter uma ideia, um levantamento feito pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), aponta que oito em cada dez brasileiros afirmam que se esforçam para ter uma alimentação saudável e 71% dos entrevistados garantem que preferem produtos mais saudáveis, mesmo que tenham que pagar mais caro por eles.
“As pessoas estão muito mais preocupadas com a saúde e o bem-estar e foi disso que vieram todas as inovações que o setor lácteo foi desenvolvendo por meio de novos produtos para atender a esses nichos. O leite sempre teve o mesmo princípio, sempre foi o básico para alimentação das pessoas. É o mesmo leite, em sua origem, e é o mais completo e primeiro alimento do ser humano, mas ele foi se adaptando aos novos nichos de mercado. Podemos citar, como exemplo, o leite zero lactose, que é para pessoas intolerantes. As indústrias puderam lançar um produto para aproveitar esse nicho de mercado. As indústrias também foram incrementando, colocando algumas vitaminas a mais, deixando-o mais magro, como desnatado ou semidesnatado para pessoas que tenham colesterol alto, por exemplo. São produtos para proporcionar outros benefícios, como os vitaminados, os enriquecidos, mas o leite sai pronto do animal. O que existe é um alinhamento às necessidades das pessoas. Não mudou, mas ele atende mais necessidades. O leite foi se adaptando às exigências e oportunidades do mercado e necessidades das pessoas. Antigamente, muitos compravam o leite e levavam para casa para produzir seu alimento. Hoje, tu compras o alimento já pronto. As necessidades modernas fizeram com que pudesse inovar nessa questão”, explica Guerra.
Marina Mizumoto, diretora de categoria da Lactalis do Brasil, maior grupo de lácteos do mundo que adquiriu o controle da Parmalat e as operações da marca no Brasil em 2015, concorda com Guerra e afirma que, “certamente, a onda da saudabilidade influenciou na mudança do consumo do leite. Acreditamos que esse é um dos principais motivos para o aumento do consumo de leites com menor gordura, com os semidesnatado e desnatado e os leites especiais. O leite é um alimento completo, essencial para a saúde. É a principal fonte de cálcio na nossa alimentação. Precisamos de cálcio em todas as faixas etárias. Assim, o leite continua sendo um dos principais alimentos na mesa do brasileiro. A categoria de leite UHT tem 91% de penetração nos lares, segundo Kantar. A grande evolução é a variedade de leites, se adequando a diversos tipos de dieta e necessidades nutricionais. Por exemplo, os leites magros são relevantes para pessoas que buscam menos gordura na sua alimentação. O leite integral possui 3% de gordura, enquanto o desnatado é zero gordura e o semidesnatado 1% de gordura. Outra diferenciação são os leites fortificados como o Parmalat Max. Esse leite possui um mix exclusivo de vitaminas e minerais desenvolvidos por especialistas, o Multi Nutri. O Parmalat Max foi desenvolvido para atender às principais necessidades nutricionais das crianças brasileiras, proporcionando um leite mais completo. O leite também passa a atender diferentes necessidades da população. Um exemplo é o leite Parmalat Zymil Zero lactose para pessoas com intolerância à lactose. Parmalat Zymil é um leite de fácil digestão, já que não possui lactose, mantendo o sabor, as vitaminas e minerais do leite. Há também opções de embalagens mais práticas como os leites Parmalat nas garrafas Multi-Protect, que protegem o leite do contato com ambiente externo para manter todo sabor fresco do leite”, detalha.
Richard Gomes, gerente nacional de food service da Itambé, complementa que “hoje, se observa uma preocupação não só quanto ao valor nutricional do alimento, mas também quanto à origem do leite. A tendência por alimentos ‘clean label’ é, cada vez mais, latente. E cresce também a preocupação com manejo e bem-estar animal. Cada vez mais, veremos apelo por alimentos funcionais, saudáveis e mais próximos do natural, ‘clean label’. Para a Itambé, a mudança no hábito de consumo e a busca por produtos de qualidade superior foi excelente, tendo em vista que esse é nosso lema. A principal mudança veio com a criação da linha zero lactose. Com certeza, essa foi uma tendência que veio para ficar. Hoje, a indústria aposta em produtos com maior valor nutricional, seguindo uma tendência global. A Itambé está sempre em busca de atender às necessidades de seus consumidores. Com isso, além de seguir as tendências de mercado, está sempre inovando e se desenvolvendo em torno de seu carro-chefe: o leite”.

Adaptações

Atentas a todas essas tendências e ao novo perfil do consumidor brasileiro de leite, as empresas do ramo já fizeram várias adaptações, o que ampliou e muito o portfólio do produto no mercado.
Guerra, da Cooperativa Santa Clara, relata que a empresa “sempre comercializou leite, mas nosso primeiro produto foi uma forma de queijo de 15,6kg. Na sequência, o leite, começando com os leites pasteurizados, pelos mais de 100 anos da Santa Clara. Até hoje, temos um percentual de nossa linha que são leites pasteurizados, mas, atualmente, o nosso maior percentual é leite UHT. Entre os leites fluidos, trabalhamos com os leites pasteurizados, como o tipo B, e leites UHT, como zero lactose, desnatado e semidesnatado. Desde um leite sem lactose, um leite semidesnatado ou desnatado, um requeijão com redução de sódio, foi se fazendo uma série de inovações para manter o consumo de leite através dos seus derivados. A Santa Clara procurou lançar inúmeros produtos, tanto que o nosso Queijo Minas Frescal SanBIOS foi o primeiro queijo com microrganismos probióticos do Brasil. Então, o lado inovador desperta novos hábitos de consumo. A Santa Clara recebe, diariamente, cerca de 780 mil litros de leite e 56% da nossa produção é de leite fluido. Dentro dessa produção, o maior volume é de leite longa vida integral, que é o mais procurado pelas pessoas, correspondendo a 72% do total fluido produzido no primeiro trimestre deste ano. O restante está distribuído entre os leites UHT semidesnatado, desnatado, zero lactose e pasteurizados”, informa.
Conforme Mizumoto, da Lactalis do Brasil, “a Parmalat tem como objetivo proporcionar um tipo de leite para cada componente das famílias, conforme as suas necessidades. Hoje em dia, ela conta com a linha de leite Parmalat UHT em caixinhas e garrafas (integral, semidesnatado e desnatado), leite Parmalat Ultrapasteurizado, Leites fortificados Parmalat Max e a linha completa de Leite Parmalat Zymil Zero Lactose em garrafas (integral, semidesnatado e desnatado). Atualmente, o leite mais consumido no Brasil é o leite UHT integral de caixinha, que é o leite que as pessoas estão mais acostumadas. Mas há um grande aumento de consumo dos leites especiais, como Parmalat Zymil Zero Lactose, Parmalat MAX e dos leites Parmalat em garrafas. Parmalat é apaixonada por leite. Somos especialistas em leites. A marca faz parte do grupo Lactalis e utiliza da sua expertise global para garantir a qualidade dos leites Parmalat e trazer inovações para o mercado”, diz.
Já Gomes, da Itambé, partilha que “a companhia conta com três tipos de leite no mercado: leite UHT, leite em pó e leite pasteurizado. Dentro da categoria de UHT, são 12 opções no portfólio. Os dois últimos lançamentos foram os leites da Linha PRO e o Natural Milk. A linha PRO contém produtos com o dobro de proteína de um leite convencional e é zero lactose. O Natural Milk é envasado em menos de 24 horas a partir da captação, garantindo a pureza do leite da fazenda para a mesa do consumidor. Já na categoria leite em pó, o lançamento é o leite com o selo + Nutri, que contém um mix de vitaminas e minerais mais completo (A, C, D, E, ferro, zinco e cálcio). Diariamente, a marca transforma três milhões de litros de leite em um portfólio completo de derivados lácteos. São mais de 160 produtos entre leites, iogurtes, requeijões e doce de leite, produzidos dentro dos mais altos padrões de qualidade e inovação. A Itambé preza por um controle rigoroso da cadeia de abastecimento. Hoje, por meio das nossas cooperativas singulares, praticamente 90% do leite recebido vêm de produtores próprios. Com esses produtores, fazemos um acompanhamento bastante próximo de todo o processo, monitorando indicadores, bem como promovendo aconselhamento profissional. Esse trabalho garante o diferencial da nossa matéria-prima nobre, o leite”.

Futuro

Sobre o futuro do leite, Guerra, da Cooperativa Santa Clara, prevê que “com a melhora da situação econômica, o Brasil vai recuperar sua economia e as pessoas vão continuar adquirindo outros produtos além dos tradicionais. Além do queijo muçarela ou queijo lanche, eles já estão experimentando uma linha de queijos mais nobres, fermentados, enriquecidos, iogurtes gregos. Esse grande mix de produtos que as indústrias puderam lançar não só para alimentação, mas para o bem-estar das pessoas, que são os produtos funcionais. Isso faz com que aumente ainda mais o consumo e se atenda novos nichos de mercado, agregando um novo valor ao produto”, afirma.
Mizumoto, da Lactalis do Brasil, avalia que “as mudanças foram positivas. Fez com que o leite fosse adequado às diferentes necessidades. Em países da Europa, onde o mercado é ainda mais desenvolvido, o leite integral já é uma parcela pequena do consumo da população. Há um consumo maior de leites magros, com menos gordura, e os leites especiais, que passam a ganhar mais relevância”, diz. “A grande oportunidade é o desenvolvimento do mercado através de inovações que ofereçam mais opções de leites para cada estilo de vida”, ressalta.

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