Mancharam a qualidade do leite

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Em tempos de fraudes e de lotes de produtos retirados do mercado, produtores, empresas e consumidores se perguntam: como garantir a segurança do leite?

A Operação Leite Compensado, deflagrada pelo Ministério Público Estadual (MPE), com apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), da Receita Estadual e da Brigada Militar, no mês de maio, identificou fraude por parte de transportadoras que adulteraram o leite cru entregue para a indústria, para conseguir maior lucro na venda.

A preocupação dos agricultores é que o leite chegue aos postos de resfriamento e à indústria com a mesma qualidade que saiu do campo. Mas com a adulteração que ocorria no trecho entre o produtor e o posto, com a adição de água e ureia, o leite que chegava às empresas não tinha a mesma qualidade.

De acordo com reportagem publicada no site G1 no dia 12 de maio, segundo o promotor Mauro Rockenbach, que comanda a investigação do Ministério Público, a fórmula usada para adulterar o leite e aumentar o lucro de transportadoras era vendida por R$ 10 mil. A fórmula mascarava a adição de água, o que aumentava o lucro em 10% no volume. Para cada 100 litros de leite, eram adicionados nove litros de água e um de ureia.

A investigação mostra, segundo o Ministério Público, que as indústrias não sabiam da fraude, mas que teriam falhado em não detectar tais problemas no controle de qualidade. A recomendação aos consumidores foi de não consumir alguns lotes específicos de fabricação: Leite Líder – UHT Integral. SIF 4182 – Fabricação: 17/12/12. Lote: TAP 1 MB. Leite Italac – UHT Integral. Goiás Minas – SIF 1369. Fabricação: 30/10/12 – Lote: L05 KM3. Fabricação: 5/11/12 – Lote: L13 KM3. Fabricação: 7/11/12 – Lote: L18 KM3. Fabricação: 8/11/12 – Lote: L22 KM4. Fabricação: 9/11/12 – Lote: L23 KM1. Leite Italac – UHT semidesnatado. Goiás Minas – SIF 1369. Fabricação: 5/11/12 – Lote: L12 KM1. Leite Mu-Mu – UHT Integral. Vonpar – SIF 1792. Fabricação: 18/01/13. Lote: 3 ARC. Leite Latvida – UHT Desnatado. VRS – Latvida – CISPOA 661. Registro: 37/661. Leite Latvida – UHT Semidesnatado. VRS – Latvida – CISPOA 661. Registro: 48/661. Leite Latvida – UHT Integral. VRS – Latvida -CISPOA 661. Registro: 36/661. Registro: 24/661

Marcas afetadas

Algumas das empresas que tiveram seus produtos envolvidos na fraude de adulteração de leite se manifestaram por meio de nota, garantindo que os lotes com problemas já não estão mais disponíveis para os consumidores e se colocaram à disposição dos órgãos fiscalizadores.

A Latvida realizou uma análise da contraprova no laboratório ALAC, credenciado pelo Ministério da Agricultura. “Ficou demonstrado que o lote de leite UHT desnatado fabricado em 16/02/2013 e com validade até 16/06/2013, colocado sob suspeição, não apresentava adulteração. Registre-se, porém, que, por segurança, o lote suspeito já havia sido total e imediatamente retirado do mercado” informou Rui Sulzbach, sócio e diretor-geral.

A empresa ressaltou que sempre atuou e continuará atuando no combate à fraude. “É importante a comunidade tomar conhecimento que a Latvida, até fevereiro deste ano, era usada como empresa modelo para treinamento dos fiscais sanitários pois, além de suas excelentes práticas, também possui um dos melhores laboratórios de análise e prevenção no estado do Rio Grande do Sul”. A nota destacou que os produtos da Latvida possuem excelente qualidade, que a matéria-prima somente ingressa na fábrica após testes de qualidade e nunca os produtos colocaram em risco a saúde pública. Mesmo o lote suspeito foi retirado do mercado apesar da comprovação posterior de sua regularidade. “A Latvida reitera o seu apoio às autoridades públicas, mas clama para que não recaia unicamente sobre a indústria a responsabilidade por atos dos transportadores e de terceiros, cuja punição deve ser feita nos termos da lei”.

A Italac reconheceu o momento de crise, mas em sua nota aproveitou para esclarecer que os produtos com problema foram prontamente retirados do mercado, que o Ministério da Agricultura sempre acompanhou e avaliou os rigorosos padrões de controle de qualidade da marca e que a empresa condena todo tipo de prática que resulte em adulteração de produtos e qualquer outro tipo de dano ao consumidor. “O compromisso com a qualidade se estende a uma ampla linha de produtos lácteos. E na qualidade da relação com toda a rede de distribuição, produtores e milhares de colaboradores”.

A Mu-Mu garantiu que atende a todos os requisitos e protocolos de testes de matéria-prima exigidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e frisou que a investigação está concentrada no transporte entre o produtor leiteiro e os postos de resfriamento. Em anúncio divulgado na imprensa do Rio Grande do Sul, o diretor da Mu-Mu, Claudio Fontes, esclareceu que assim como toda a população gaúcha, eles também foram vítimas de um crime ocorrido no leite cru, antes da sua chegada à indústria. “Trata-se de um fato lamentável que a todos indignou profundamente. Há 68 anos, a marca Mu-Mu e seus produtos mantêm uma relação de respeito e carinho com as pessoas no seu dia a dia. Temos tomado todas as medidas para garantir a segurança dos consumidores”, escreveu. O texto ainda ressaltou que a empresa não é alvo de nenhuma investigação sobre o crime de adulteração do leite, seja pelo MPE ou pelo MAPA.

A Líder informou que o lote de leite mencionado na investigação do Ministério Público do referido estado foi retirado completamente do mercado em fevereiro deste ano, tão logo a companhia tomou conhecimento da possibilidade de existir um problema de qualidade no lote. Em vista disso, já foram descredenciadas cinco transportadoras terceirizadas de leite cru. A empresa também decidiu fechar um dos postos de resfriamento no Rio Grande do Sul por causa da ação de fraudadores na região. “A Líder reafirma que segue todas as regras de fiscalização exigidas pelo Ministério da Agricultura e que, desde janeiro deste ano, reforçou a fiscalização do leite recebido, incluindo as novas exigências do Ministério da Agricultura. Além disso, a Líder faz dupla checagem, nos postos de resfriamento e na fábrica, e desde janeiro não detectou nenhuma adulteração no leite destinado à produção. O leite Líder disponível no mercado está apto, portanto, para ser consumido com segurança. A Líder permanentemente aprimora seus controles de qualidade no recebimento da matéria-prima e em todo o processo produtivo, seguindo os mais altos padrões de qualidade do Brasil, de forma a garantir a integridade dos produtos disponibilizados aos consumidores finais”, descreveu o texto.

Legislação

Especialistas avaliam que a Instrução Normativa 62, que regulamenta a produção, identidade, qualidade e transporte do leite produzido no país, é rígida para produtores e indústria, mas flexível com quem faz a ligação entre eles.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), de acordo com a Assessoria de Comunicação Social, possui um Programa de Combate à Fraude no Leite que monitora por meio de análises laboratoriais os estabelecimentos que recebem e processam o leite que será oferecido à população. Mediante a detecção de resultados não conformes, são aplicadas as sanções administrativas previstas na legislação, incluindo o Regime Especial de Fiscalização (REF). Neste Regime, as ações de inspeção são intensificadas e nenhum produto é liberado para comercialização até que resultados de análises oficiais realizadas de cada lote produzido demonstrem o atendimento aos padrões.

Além das ações de fiscalização, uma vez descoberta uma nova fraude, ficam as empresas obrigadas a incluir análises específicas dentro do seu programa de controle de qualidade.

O Programa de Combate à Fraude no Leite é constantemente avaliado de forma a incluir a pesquisa de novas substâncias que possam estar envolvidas com adulteração. Consequentemente, os laboratórios da Rede Brasileira devem ser preparados para atender às novas demandas.

Sobre as brechas na legislação que regulamenta a produção, identidade, qualidade e transporte do leite produzido no país, que permitem situações como a do Rio Grande do Sul acontecerem, a Assessoria informa que essa é uma relação comercial, entre indústria e transportadora, e o Ministério não tem poder de legislação sobre o tema.

Ainda de acordo com a Assessoria, o Mapa sempre aprimora as normas de inspeção, com o objetivo de evitar fraudes. Um dos próximos passos é definir parâmetros para análise da quantidade de ureia no leite – uma vez que a substância faz parte da composição natural do produto.

Para o diretor da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (FAEMG) e presidente das Comissões de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) – nacional e da FAEMG – estadual, Rodrigo Alvim, a questão da fraude do Rio Grande do Sul foi um caso isolado, um crime que ocorreu fora da linha de produção, nas transportadoras. “Isso pode acontecer com qualquer produto, não só com o leite. O que aconteceu foge da alçada da indústria e foi algo inimaginável. Tanto que nem existia um exame na rotina dos laboratórios para verificar essa questão de adulteração com ureia. Fraudes existem em qualquer setor. É por isso que o Ministério da Agricultura, que fiscaliza, precisa checar isso. Por conta deste caso isolado, o Ministério Público está preocupado e verificando a situação em todo o país”, diz.

Para o diretor, a melhor forma de empresas e os próprios consumidores finais garantirem a qualidade do leite é buscar fontes de credibilidade. “Comprando de indústrias sérias, de renome, com história no mercado, muito provavelmente o consumidor não vai adquirir produtos de má qualidade. Mas, se ele estiver atrás apenas de menor preço, não há como garantir”, alerta.
Pensando na qualidade da matéria-prima, a CNA desenvolve o programa “Leite Legal”, através da SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) em parceria com o SEBRAE Nacional, para capacitar os produtores com o foco na qualidade. Trata-se de um programa de educação continuada do produtor e tem como objetivo melhorar a qualidade do leite produzido no Brasil, seguindo as orientações da instrução normativa 62, que aumenta os prazos e limites de Contagem Bacteriana Total (CBT) e Contagem de Células Somáticas (CCS). “Estamos fazendo a nossa parte. As indústrias também, capacitando seus funcionários. O setor está preocupado com a qualidade da matéria prima. O leite de qualidade garante maior vida de prateleira no varejo, com isso o consumidor também ganha”, conclui.

Para manter a qualidade

A BRF, uma das maiores empresas de alimentos do mundo, foi criada a partir da associação entre Perdigão e Sadia. A empresa nasceu como um dos maiores players globais do setor alimentício, reforçando a posição do país como potência no agronegócio. Atuando nos segmentos de carnes (aves, suínos e bovinos), alimentos processados de carnes, lácteos, margarinas, massas, pizzas e vegetais congelados, tem marcas consagradas como Sadia, Perdigão, Batavo, Elegê, Qualy, entre outras.

A Batavo e a Elegê, marcas do portfólio de lácteos da BRF, não foram afetadas pelo recente fato em nenhum sentido (produção/financeiro), de acordo com informações da Assessoria de Imprensa da BRF.

Preocupada em assegurar a procedência de suas matérias-primas, a BRF mantém os programas de qualidade Clube Produtor de Leite BRF e Pro Quali.

O Clube do Produtor de Leite BRF é um programa de vantagens criado especialmente para os produtores que fornecem matéria-prima à BRF. Por meio dele, a companhia disponibiliza um conjunto de produtos e serviços, com o objetivo de incrementar a produtividade e a qualidade em sua atividade e reduzir significativamente os custos de produção do leite.

“É essencial que nossos parceiros sejam receptivos a novas práticas, tecnologias de produção e administração rural, além de possuírem rebanho controlado e vacinado. Toda a sua produção leiteira deve ser destinada à BRF que se compromete a adquiri-la, desde que atenda aos padrões de qualidade exigidos pela IN 62”, informa a Assessoria de Imprensa da BRF.

São benefícios do Clube do Produtor o Melhoramento Genético; alimentação especial; produtos e equipamentos com alta qualidade e eficiência a preços diferenciados, medicamentos, detergentes e sanitizantes; campanhas regionais de Insumos Agropecuários, além de orientação técnica e consultoria de negócios.

Já o Pro Quali é um programa que valoriza a excelência do leite e dos produtores da BRF. Com ele, a companhia investe nas boas práticas de produção, no desenvolvimento dos negócios e em benefícios para os produtores, por meio de um novo modelo de pagamento por qualidade. Os parâmetros como Teor de gordura, Teor de proteína, Contagem de Células Somáticas (CCS), Contagem Bacteriana Total (CBT), Volume de leite e Complemento de mercado são valorizados e acrescentados a um preço-base para compor valor pago ao produtor.

Os critérios de avaliação seguem a IN 62, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Os resultados são analisados por laboratórios credenciados pela Rede Brasileira de Qualidade do Leite (RBQL). “Para saber mais sobre critérios e procedimentos do programa, entre em contato com o técnico da BRF de sua região”, orienta a Assessoria.

Tanto investimento gera lucros para a BRF, que fechou o primeiro trimestre de 2013 com receita líquida de R$ 7,2 bilhões, aumento de 13,8% ante o mesmo período de 2012. O lucro líquido chegou a 134%, somando R$ 359 milhões.

Os resultados positivos, alcançados em todas as linhas do balanço, confirmam expectativas da companhia quanto à melhoria de cenário, com o mercado mais equilibrado e estratégias adequadas. O crescimento e a rentabilidade registrados no trimestre, comparativamente ao exercício do ano anterior, foram favorecidos pela assertividade no posicionamento de marcas, inovação e diversificação do portfólio delineados durante 2012.

No segmento de lácteos, as receitas somaram R$ 647,6 milhões. O resultado operacional totalizou R$ 28,8 milhões, com margem operacional de 4,4%, resultado do acerto na estratégia de rentabilização do negócio com incremento do mix de maior valor agregado e redução da dependência de leites UHT.

Latvida:
www.latvida.com.br
Italac:
www.italac.com.br
Mu-Mu:
www.vonparalimentos.com.br
Líder:
www.lbr-lacteosbrasil.com.br
Ministério da Agricultura:
www.agricultura.gov.br/
FAEMG:
www.faemg.org.br
Batavo:
www.batavo.com.br
Elegê:
www.elege.com.br
BRF:
www.brf-br.com

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