Mais que uma tendência, um resgate

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Pratos que despertam a memória são a nova tendência do mercado food service

Despertar emoções por meio do paladar, com pratos que remetam às fases especiais vividas pelas pessoas. Essa é a finalidade de uma nova tendência do mercado food service denominada, em inglês, de comfort food. Em tradução literal no português, o termo significa comida confortável. Porém, no Brasil, também vem sendo trabalhado como comida afetiva. Ou seja, que gera conforto, bem-estar e afeto ao ser consumida pelo fato de fazer com que as pessoas se lembrem de momentos especiais, seja um almoço em família, um jantar romântico, uma viagem para o interior na casa dos avós, uma festa com os amigos e/ou um piquenique no parque, por exemplo.
De acordo com Renata Runge, fundadora e CEO da Gastronômade Brasil, empresa fundada em 2011 para ser especialista na criação e gestão integral de eventos de experiência, “comida afetiva é aquela comida que, de alguma forma, te remete à alguma lembrança/memória alegre ou positiva. Aquele tipo de comida que te traz felicidade por algum dos sentidos, seja pelo gosto, pelo aroma, pelo jeito com que aquele prato é apresentado, pelo som de uma panela de pressão no fogo ou alguma música que estava tocando naquele dia especial”, explica.
Max Jaques, chef de cozinha e pesquisador no Instituto Brasil a Gosto, plataforma de conteúdo sobre cozinha brasileira, complementa que “comida afetiva é uma forma recente de classificar um conjunto de jeitos de fazer comida. Entendo que ela surge em associação com outras tendências da alimentação, como a necessidade de desindustrializar os alimentos, comer local, orgânico, simples”, avalia.

Diferenciais

Mais que uma tendência, um resgate
“As pessoas têm buscado resgatar o contato com a natureza e as relações pessoais tão distanciadas e superficiais pela tecnologia atual. Assim, a comida afetiva e esse resgate de memórias positivas aparece forte nos desejos atuais”, diz Renata Runge, fundadora e atual CEO Gastronômade Brasil

Para ser considerada uma comida afetiva, os pratos relacionados à essa nova tendência têm alguns diferenciais, com destaque para onde é consumida e o seu modo de preparo.
Segundo Runge, do Gastronômade Brasil, “muito mais do que ingredientes especiais ou raros, acredito que o ambiente, o cenário e as relações interpessoais são os principais ‘ingredientes’ para que uma comida se torne afetiva para uma pessoa”, afirma. “O preparo da comida afetiva deve ser em ambiente carregado de sentimentos positivos de amor, gratidão, união. Na minha opinião, não há um preparo específico, mas um cenário que remeta às boas memórias. E aí, de repente, vemos algumas coisas do passado entrar em cena, como preparos em fogões a lenha, em panelas de barro e receitas de décadas passadas”, ressalta.
Para Jaques, do Instituto Brasil a Gosto, “para cada pessoa, haverá um entendimento daquilo que lhe gera afeto, lembrança, memória, conforto. Talvez esse seja um diferencial, a ênfase em quem degusta. Como a comida afetiva não é uma categoria posta no campo de produção de conhecimento da gastronomia, mas, sim, uma tendência, um argumento que usamos para apresentar algumas ideias gastronômicas pela sua diversidade, parece impossível estabelecer uma régua para o jeito como a comida afetiva é preparada. Porém, o que percebemos nas narrativas é que elas são preparos menos ‘gourmetizados’, como aqueles que foram influenciados pela nouvelle couisine. Há um traço marcado de rusticidade, mas que não deve ser confundida com falta de técnica, de jeitos adequados de preparo”, esclarece.

Mais que uma tendência

Apesar de já ter sido classificada como uma tendência no ramo de alimentação fora do lar, que vive um atual processo de volta ao passado e valorização das origens, a comida afetiva é mais do que isso.
“As pessoas têm buscado resgatar o contato com a natureza e as relações pessoais tão distanciadas e superficiais pela tecnologia atual. Assim, a comida afetiva e esse resgate de memórias positivas aparece forte nos desejos atuais. Mas, não se trata de nada novo, apenas uma revisitação a conceitos que já existiram e que criaram memórias felizes em todos nós. O mercado sempre está em busca de entender os desejos dos consumidores para oferecer a eles algo que os encante. O Gastronômade Brasil, por exemplo, surgiu muito antes dessa nomenclatura de ‘comida afetiva’. Nosso projeto é baseado em um conceito norte-americano criado em 1999 pelo chef Jim Denevan: reconectar as pessoas com as origens dos alimentos”, diz.
Jaques, do Instituto Brasil a Gosto, por sua vez, destaca que comida afetiva é uma tendência “pela necessidade atual de darmos alguns passos para trás, olhar o que acertávamos e retomar. As narrativas sobre comida afetiva se encontram com outras tendências, como a importância dada aos alimentos frescos, a
simplicidade na gastronomia, a valorização de ingredientes que tenham cuidado e a rastreabilidade desde o seu plantio. Eu percebo mais a presença dessa narrativa nos conteúdos para mídias sociais do que efetivamente nos restaurantes. No mais, como é um conceito completamente abrangente, fica simples estabelecer esse rótulo. Não sei se é um mercado ou uma tendência das quais os diferentes nichos de mercado interpretam e usufruem. Entendo que seguiremos falando muito ainda sobre esse conceito, o de comida afetiva. Talvez a expressão passe, talvez consigamos detalhar melhor o que ela significa. De qualquer maneira, é importante que estejamos, cada vez mais, relacionando comida com afeto. Esse é um ganho, é fundamental. Essa associação nos coloca mais presentes na nossa relação com o alimento. E é também disso que o mundo precisa. Eu trabalho com cozinha brasileira, do jeito que ela é. Pesquiso, registro e escrevo sobre preparos clássicos brasileiros e suas técnicas especificas, que, com certeza, cabem todos no termo comida afetiva. O ponto é que em um país como o Brasil, kimchi pode ser comida afetiva tanto quanto baião de dois. Muitas vezes, o afetivo é um ingrediente. Depende de quem prepara e de quem come. Por isso, vale pensar se não estamos esvaziando os termos ou ampliando os termos? Estamos diante do novo ‘gourmet’?”, questiona.

Melhores práticas

Mais que uma tendência, um resgatePor fim, os entrevistados dão dicas de quais são as melhores práticas para trabalhar com comida afetiva. Na visão de Runge, do Gastronômade Brasil, o mais indicado é “conhecer os seus clientes. Os desejos e os anseios deles. Quais são as melhores memórias deles? Crie algo que os faça de alguma maneira poder reviver essas memórias”, diz.
Já Jaques, do Instituto Brasil a Gosto, afirma que “pode parecer piegas, mas o segredo é olhar para a própria história. Por exemplo, sou filho de pai e mãe ex-motoristas de caminhão. Minhas memórias de infância são todas de preparos que não usavam mais do que duas bocas de fogão. Ou seja, o que havia disponível na cozinha do caminhão. Minha mãe, talvez sem se dar conta, já aposentada, até hoje, não usa mais do que duas das seis bocas do seu fogão. Para usar a gastronomia para falar de afeto, é preciso reconhecer os afetos que nos compõem na nossa relação com a comida”, salienta.

Gastronômade Brasil
www.gastronomadebrasil.com
Instituto Brasil a Gosto
www.brasilagosto.org

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