Exótico (a) para quem?

0
Exótico (a) para quem?

Empresários revelam que mercado de comidas exóticas é promissor no Brasil

mercado
“Atualmente, trabalhamos com tubarão, búfalo, javali e avestruz. Mas, no passado, já ofertamos jacaré, capivara, codorna, ema, coelho, entre outros”, diz Eric Thomas, proprietário do Tantra Restaurante

Exótico (a). Palavra cuja origem vem do latim ‘exoticus.a.um.’ e o significado pode remeter a algo esquisito, que não é comum, que expressa extravagância ou excentricidade. Mas, que também pode traduzir algo ou alguém estrangeiro, diferente. Ou seja, que não nasceu ou foi criado no mesmo país e/ou região. Porém, quando o assunto é gastronomia, o que são as chamadas comidas exóticas?
A resposta para essa pergunta pode parecer simples, mas não é! Afinal, o conceito de exótico é muito subjetivo e diferente de acordo com as diversas culturas existentes em todo o mundo. Na Amazônia colombiana, por exemplo, comer uma larva com tamanho de um dedo humano e que cresce dentro do tronco da palmeira do Buriti é tradição. A iguaria é conhecida como Mojojoy e costuma ser degustada frita, assada e até crua. Na cidade turística de Letícia, na Colômbia, essas larvas são vendidas vivas aos domingos pela manhã na feira que os nativos da etnia Ticuna montam no parque Orellana, às margens do Rio Amazonas.
No México, comer cérebros de animais, como o de boi, é natural e, inclusive, há estudos de que os miolos fazem muito bem aos humanos. Por isso, os cérebros são servidos desfiados ou chapados como recheio para os famosos tacos mexicanos. Os habitantes da província de Mojuang, na China, têm o hábito de ingerir artrópodes cozidos, principalmente, em festividades como o solstício de Verão. No cardápio deles, há centopeias, baratas, cigarras e escorpiões. Em Pequim, também na China, cavalos-marinhos no espeto são facilmente encontrados em barracas de comida de rua, assim como em restaurantes e sempre ao lado de espetos de escorpiões fritos. No Japão, o peixe mortífero fugu, ou baiacu para os brasileiros, é bastante consumido, mesmo sendo necessário arrancar o fígado dele sem contaminar as outras partes, uma vez que é extremamente venenoso e precisa ser preparado da forma correta para não causar problemas respiratórios e até paralisia em quem o come.

mercado
Segundo Eric Thomas, o mercado de comidas exóticas é promissor, pois não há “porque não experimentar novos sabores e gostos”

Em resumo, cada cultura tem uma definição do que é exótico. Porém, essa definição também pode ser transformada ao longo dos anos e a partir da vivência de cada um. Até porque quem diria que servir peixe cru, como sushis e sashimis, em restaurantes por quilo e/ou churrascarias brasileiras seria um sucesso como é atualmente? O que hoje é visto como comum, anos atrás, já foi considerado o cúmulo da excentricidade.
De acordo com o apresentador de televisão Álvaro Garnero, que também é administrador e sócio do Café de La Musique, Café Society e do Camarote nº 1, comidas exóticas existem em todo lugar. “Conheço mais de cem países e, em qualquer lugar do mundo que eu vá, sempre existe um costume diferente, um jeito de preparar a comida que não estamos acostumados. Até no Brasil a gente acha coisa exótica. Como viajo desde sempre, acho que sempre tive contato com comidas diferentes. Já comi pênis de cavalo e cachorro na China. Comi balut, um ovo fecundado muito apreciado nas Filipinas. Comi olho de bode no México, Marrocos e Islândia. Tomei drink de formiga em Singapura. Na Islândia, também comi Hárkal, que é um tubarão fermentado (o nome é tubarão podre numa tradução literal). Comi ainda sangue e coração de cobra no Vietnã. Olha, o que não faltou foi comida diferente”, partilha.
Para Garnero, comida exótica é aquela que “você não está acostumado a comer no dia a dia. Caviar é exótico, por exemplo”. Já em relação ao fator sabor, ele avalia que comida exótica “tem sabor de aventura, de novidade. Às vezes, a aventura é incrível e você quer repetir. Outras vezes, você se arrepende: não precisava ter se arriscado tanto. E o exotismo varia de pessoa para pessoa. Para mim, o balut das Filipinas é exótico. Para um filipino, arroz com feijão é exótico. A cultura de um país engloba também gastronomia. Se você quer abraçar uma cultura nova, não pode desprezar a comida”, indica.

No Brasil

mercado
Eric Thomas é proprietário do Tantra Restaurante, localizado em São Paulo, capital. Ele relata que desde a inauguração da casa, em 1998, oferta comidas exóticas

O Brasil é um país com grande mistura de tradições e culturas em suas diferentes regiões. E, claro, isso é refletido diretamente na culinária de cada região. Com isso, cada pedaço do Brasil apresenta seus sabores típicos que, para os estrangeiros, podem ser considerados exóticos.
A maioria dos sabores brasileiros foi desenvolvida a partir da tradição indígena e por todas as influências dos processos de imigração. Por isso, a gastronomia da região Norte é marcada pelo forte uso de mandioca, cupuaçu, açaí, pirarucu, urucum, jambu, tucunaré, guaraná e castanha do Pará e os pratos típicos são o pato no tucupi, caruru, tacacá e maniçoba. No Centro-Oeste, as estrelas são as carnes bovina, caprina e suína, assim como o pequi, mandioca, carne seca, erva-mate e milho, sendo as receitas de destaque o arroz com pequi, picadinho com quiabo, sopa paraguaia, empadão goiano, caldo de piranha e vaca atolada. No Nordeste, o dendê, mandioca, leite de coco, gengibre, milho, graviola, camarão e caranguejo são muito utilizados em pratos tradicionais como acarajé, vatapá, caranguejada, buchada, paçoca, tapioca, sarapatel, cuscuz e cocada. No Sudeste, a diversidade é ainda maior e o arroz, feijão, ovo, carnes, massas, palmito, mandioca, banana, batatas e polvilho predominam nas conhecidas receitas de tutu de feijão, virado à paulista, moqueca capixaba, feijoada, picadinho paulista e pão de queijo. Já no Sul, o churrasco é o astro.
Diante de tanta variedade, o conceito de comida exótica no Brasil fica mais amplo e, assim, gera oportunidades no mercado nacional food service. Nessa perspectiva, o apresentador de televisão Garnero conta que sempre trabalhou “com mercado de hospitalidade, seja com beach clubs ou com restaurantes. Estou começando a montar um hotel. Não pretendo montar nenhum restaurante só de comida exótica, mas comida exótica é uma opinião pessoal. Meus restaurantes podem não servir comida exótica para mim ou para você, mas um turista do Turcomenistão pode baixar por lá e achar tudo muito exótico”, enfatiza.

Na prática

Eric Thomas é proprietário do Tantra Restaurante, localizado em São Paulo, capital. Ele relata que desde a inauguração da casa, em 1998, oferta comidas exóticas. “Oferecemos o melhor da comida asiática no melhor estilo ‘Exotic Asian Fusion Food’. Atualmente, trabalhamos com tubarão, búfalo, javali e avestruz. Mas, no passado, já ofertamos jacaré, capivara, codorna, ema, coelho, entre outros. No Tantra, oferecemos menu degustação por meio do sistema único do buffet Mongolian Grill. Assim, conseguimos oferecer ao cliente uma pequena amostra para degustar essas carnes e produtos sem se limitar aos pratos inteiros. Mas também oferecemos os pratos com carnes exóticas, se o cliente optar”, explica.
Para o empresário, o importante no mercado de comidas exóticas é “oferecer as carnes exóticas com a documentação correta e nos rígidos padrões do restaurante. A maioria das carnes exóticas tem menos colesterol e gordura do que as carnes normais. Ou seja, fazem bem para a saúde. Utilizamos também a semente de papoula, confeccionamos as nossas vodcas artesanais com aromas exóticos, licores, gin, carnes e outras combinações inusitadas. Não precisa ser necessariamente um produto exótico. Pode ser uma combinação exótica. Um dos pratos mais aceitos aqui a la carte é o filé mignon com morangos e pimentas”, diz.

mercado
O empresário Eric Thomas garante que a diversidade tem o seu valor nesse nicho de comida fora do lar

Ainda segundo Thomas, o mercado de comidas exóticas é promissor, pois não há “porque não experimentar novos sabores e gostos. Se analisar a nossa feijoada, por exemplo, ela é considerada bastante exótica para os gringos”, ressalta.
Entretanto, o empresário garante também que a diversidade tem o seu valor nesse nicho de comida fora do lar, principalmente, no Brasil, onde a gastronomia é tão forte. “Desde a inauguração do Tantra, trabalhamos com comidas exóticas, mas o restaurante inteiro não é exótico. Também temos bebidas, entradas e pratos normais. Oferecemos a perfeita combinação entre a maneira exótica de produzir o alimento (temos um prato de Fiji com pedras vulcânicas) com ingredientes exóticos (serpente de papoula), como também a combinação de ingredientes normais em que se tornam exóticos. Ao combinar todas essas formas, criamos um nicho no mercado e estamos muito bem estabelecidos nesse cenário bastante concorrido de restaurantes”, assegura.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

4 × 1 =