Escalada orgânica

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Consumo de produtos orgânicos, que já vinha crescendo, acelerou ainda mais durante a pandemia da Covid-19, segundo profissionais da área

Um a cada cinco brasileiros consome produtos orgânicos. Isso foi o que mostrou um estudo do Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis), em parceria com a Brain — Bureau de Inteligência Corporativa, realizado no ano passado. Das 1.027 pessoas ouvidas em 12 estados diferentes, 19% afirmaram adotar alimentação orgânica, o que revela um crescimento, visto que dois anos atrás os números ficavam em 15%.
Apesar de legumes e verduras ainda serem os líderes quando se fala de consumo de produtos orgânicos, o mercado cada vez se abre mais para itens do tipo, com mais opções de molhos, refeições prontas, comidas de bebê, café e muito mais. Mas ainda há um caminho a se percorrer, pois segundo a pesquisa algumas particularidades afastam parte da população desse tipo de alimentação, como o preço dos produtos.

Informação como chave do crescimento

Escalada orgânicaVioleta Stoltenborg é responsável pela comunicação do A Boa Terra, um dos sítios pioneiros de agricultura orgânica no Brasil. Ela fala os motivos para o crescimento contínuo do setor, dando ênfase principalmente no acesso à informação e na conscientização do consumidor.
“Temos cada vez mais acesso à informação e estamos mais conscientes e interessados em saber sobre os alimentos que consumimos. Queremos saber que impacto esse alimento causa na nossa saúde particular, mas também na saúde do produtor do meu alimento, na saúde da comunidade onde ele é produzido e, consequentemente, na saúde do planeta. Refletir se as minhas escolhas têm impacto positivo ou negativo em toda uma cadeia contribui diretamente para reduzir os impactos no meio ambiente e na sociedade. Logo, a escolha por um alimento proveniente de uma agricultura orgânica é consequência de um longo caminho de conscientização que vem acontecendo no Brasil e, consequentemente, a uma maior oferta do produto”.
De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares feita pelo Nupens (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde), da Faculdade de Saúde Pública da USP, após a pandemia da Covid-19 as pessoas passaram a consumir mais alimentos frescos e in natura. Violeta confirma o aumento da procura durante a pandemia.
“Houve uma alteração para mais (consumo). Por diversas razões. Quando nos vemos de frente a uma doença, automaticamente, começamos a observar como andam os cuidados com a nossa saúde e da nossa família. Começamos a valorizar ainda mais a forma como cuidamos dela. A adoção do isolamento forçado, utilizado como uma das formas de conter a proliferação da Covid-19, também causou mudanças objetivas na rotina das pessoas, no jeito de consumir produtos e serviços, especialmente os de primeira necessidade. Observando ainda mais a qualidade do que consumimos como mencionamos acima, quanto a facilidade de compra e a segurança de receber seus alimentos em casa. Assim a entrega de alimentos orgânicos na modalidade delivery, que já fazemos desde a década de 90, e a facilidade de compra on-line em nosso site, foi um diferencial neste momento de isolamento”.

Aproximação e conhecimento

Escalada orgânicaPerguntada sobre projeções para depois da pandemia, Violeta diz que não é possível afirmar algo concretamente, mas que as experiências adquiridas durante a pandemia não irão se perder e que isso deve levar a uma continuidade dos hábitos mais saudáveis.
“Não temos uma estimativa concreta, claro que a volta de muitos à rotina não irá manter o
mesmo patamar, mas uma vez que estamos conscientes dos grandes benefícios para a nossa saúde e para toda cadeia envolvida, e os momentos de reconexão com a cozinha que vivemos nessa pandemia, nossa escolha por um alimento de verdade, orgânico, continuará em nossa lista de prioridade”.
Mesmo com sucesso crescente, o mercado orgânico ainda encontra gargalos. “(As maiores dificuldades são) que as mudanças tecnológicas, a era virtual de compra, caminhem junto com a proximidade entre nós produtores do alimento e o cliente consumidor. Mantendo a proximidade que tanto prezamos, que foi a razão desse formato de entrega de cestas orgânicas na porta de casa. Agimos mantendo o máximo de proximidade com nosso consumidor através do compartilhamento da nossa rotina no Sítio A Boa Terra em nossas redes sociais, através da possibilidade de contato direto de nosso cliente com a gente por telefone, WhatsApp e visita à nossa produção”.

Cuidados com a saúde

De acordo com Juliana Duarte, chef e proprietária da Cozinha Santo Antônio, o aumento da procura por produtos orgânicos pode ser explicado pela conscientização das pessoas, principalmente durante o período de pandemia, quando as preocupações acerca da saúde e dos hábitos alimentares vêm crescendo.
“As pessoas estão ficando cada vez mais conscientes e interessadas em saber a origem dos alimentos e como eles estão sendo produzidos. É um processo que já vinha acontecendo e que se tornou mais potente durante este período de isolamento em que todo mundo se voltou para dentro de sua casa”.
Segundo Juliana Duarte, tem havido um crescimento na valorização dos pratos feitos com produtos orgânicos, além de um maior interesse e curiosidade em relação a eles.
“O que eu percebo foi que as pessoas passaram a valorizar mais este tipo de produto. Além disso, eu percebi que as pessoas estão mais interessadas em experimentar coisas diferentes”.
A chef acredita numa continuidade do hábito de consumir produtos orgânicos, pelo seu sabor, benefícios para a saúde e mais.
“Eu acredito que é um caminho sem volta. Depois que você experimentar um produto orgânico, é muito difícil você abrir mão dele depois. O sabor é outro, as texturas, e a tranquilidade de saber que estão consumindo um produto saudável e sem veneno, para si e para a terra”.

De braços dados com a natureza

Escalada orgânicaJuliana Duarte afirma que existem vários motivos para se investir em produtos/produção orgânica, tanto pela sustentabilidade quanto pela responsabilidade com o meio ambiente, já que o cultivo orgânico é menos agressivo para a natureza.
“Por vários motivos que começam no âmbito individual e chegam ao coletivo. Uma refeição preparada com esse tipo de ingrediente oferece muito mais qualidade, tanto de sabor quanto de nível de saudabilidade. Estou agregando valor aos pratos. Uma salada de folhas orgânicas preparada com orgânicos é muito diferente de uma preparada com verduras produzidas em escala e sem preocupação com o uso de agrotóxicos. E investir nisso é também uma atitude responsável que temos frente a vida do planeta. Eu acredito que são motivos suficientes para investir”.
Segundo Juliana, a principal dificuldade encontrada é em relação à aceitação do valor dos produtos, como indicado na pesquisa do Organis. Muitas pessoas acham caro e acabam não experimentando.
“A maior dificuldade está relacionada ao fato de as pessoas reconhecerem o valor agregado nesses produtos. Nem todo mundo entende, acha caro. (Conseguimos) superar com informação e se a gente consegue que a pessoa experimente, aí tudo fica mais fácil”.

Cozinha Santo Antônio
instagram.com/cozinha_santoantonio
A Boa Terra
www.aboaterra.com.br

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