Economia: Investimentos em meio à crise

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Empresários do food service garantem que tempos difíceis são sinônimos de oportunidades, mas é preciso saber identificá-las

Diante do cenário ainda de crise que o Brasil tem enfrentado nos últimos anos, o cidadão comum e o empresariado permanecem à espera da melhora da economia brasileira. No entanto, até lá, uma dúvida que, principalmente, os empreeendedores enfrentam é onde focar os investimentos em tempos como o atual.

De acordo com Eduardo Senra Coutinho, coordenador do curso de administração e professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), em tempos de crise, os investimentos devem ser focados em questões “essenciais ao funcionamento da empresa, tais como a recomposição dos ativos fixos e o capital de giro. As empresas precisam manter seus custos sob controle, de preferência reduzindo-os. Isso é importante não apenas para a manutenção do negócio no curto prazo, mas também para deixar a casa arrumada para a hora em que a economia voltar a crescer. A manutenção dos ativos em uso é essencial para garantir a continuidade da empresa e a qualidade dos produtos. Sendo assim, esses investimentos devem ser priorizados. Deve-se garantir também algum investimento em marketing para manter a marca conhecida. A área menos prioritária para as empresas é a expansão”, aconselha.

Coutinho alerta ainda que os investimentos devem ser sempre repensados em tempos de crise, pois “a aquisição de ativos imobiliza o capital e exige recuperação desse capital para que a empresa não enfrente dificuldades de caixa. Diante de uma queda ou estagnação da demanda, a recuperação dos investimentos fica comprometida”, ressalta.

Na prática food service

Na contramão da economia, o setor food service se manteve em crescimento mesmo durante o período em que a crise econômica afetou em cheio o comportamento de consumo de grande parte dos brasileiros. Tanto que, conforme dados da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA), o faturamento desse mercado cresceu cerca de 85% entre 2010 e 2016. Porém, na prática, empresários desse ramo afirmam que a realidade é um pouco diferente.

Segundo Clovis Tramontina, presidente do Conselho de Administração da Tramontina, o food service também foi afetado pela crise. “Acreditamos que o setor food service foi, sim, afetado pela crise. Isso se dá muito em função da lei seca, que inviabiliza o consumo de bebidas alcoólicas fora do lar, além da falta de segurança, um fator que pesa para que as pessoas escolham ficar mais em casa”, explica.

Porém, o presidente do Conselho de Administração da Tramontina avalia que cada empresa tem uma história e maneira particular de enfrentar as dificuldades. “Como empresa centenária, a Tramontina já superou muitas crises. O que é recorrente é a continuidade de investimentos em inovação, tecnologia, lançamentos. Os esforços para consolidação da marca e no capital humano não param para cumprir uma missão indelegável: gerar valor ao consumidor nas mais diversas fronteiras, culturas, épocas e ocasiões. Para a Tramontina, crise representa possibilidade de crescimento. Isso porque a empresa, em seu histórico de crises superadas, mantém investimentos em inovação, tecnologia e lançamentos, além de apostar na divulgação e consolidação da marca mesmo em períodos difíceis. Dessa forma, passada a crise, o resultado é a consistência de marca como sinônimo de confiança e qualidade, que entrega o que promete. O aprendizado que fica é o mesmo: ser otimista, rever processos, acertar nos investimentos e enxergar oportunidades de diminuir custos, sem desequilibrar o negócio, nem perder qualidade. A Tramontina se mantém otimista para 2019. Seguimos com expectativas positivas, tanto para atingir metas, quanto para superá-las. Queremos estar, cada vez mais, próximos do consumidor, otimizando os centros de distribuição e estimulando o desejo pelos produtos da marca. Os lançamentos para o mercado food service também oferecem soluções completas para o consumidor, incluindo cozinhas profissionais que permitem redução de mão de obra e padronização das preparações por meio de equipamentos de alta tecnologia para mobiliário, refrigeração e cocção. Móveis em madeira para hotéis e restaurantes complementam a linha para estabelecimentos comerciais”, partilha.

Clovis ressalta também que, em tempos de crise “a primeira coisa é não fazer como avestruz, se esconder e não ver que tem uma crise. Importante é ser otimista e tentar driblá-la com as ferramentas possíveis. A Tramontina segue lançando produtos, fazendo promoções, conversando com os clientes para que eles também ofereçam preços especiais e, assim, todos possam ganhar. Essa é uma das maneiras de enfrentar uma crise”, pontua.

Geraldo Magela Camargo de Mello Filho, diretor de gente e membro do Conselho Administrativo da Ourolac, também acredita que a crise afetou o ramo de alimentação fora do lar. Entretanto, para ele, o que muda é a forma como os empresários focam seus esforços e investimentos diante das dificuldades econômicas.

“Crise existe em todos os lugares, mas especialmente para aqueles que querem usá-la. Não estou negando a existência de tempos difíceis. Porém, em quase todos os setores, existem aqueles players que estão sofrendo com a crise e aqueles que se beneficiam dela, quesito ‘antifrágil’. Acreditamos muito em pessoas. Investir em pessoas boas e que fazem acontecer é sempre o melhor investimento. Especialmente em tempos de crise, são essas pessoas que terão os planos e atitudes de como manter o negócio rentável e com diferenciais para os clientes e para a organização. O que realmente fizemos foi dar prioridade para o nosso business plan. Tudo aquilo que está alinhado com nossa estratégia continuamos investindo e construindo em um ritmo forte. Porém, tudo aquilo que está desalinhado com nosso business plan foi repensado não apenas pelo fator de investimento financeiro, mas também por investimento de tempo, energia e recursos que devem estar focados no nosso alvo”, ressalta.

Daniel Silva, gerente de food service da Cargill, por sua vez, reforça que “o food service se mantém em crescimento mesmo durante o período da crise econômica no país. Nos últimos 10 anos, as vendas da indústria para o setor food service cresceram em média 11,5% ao ano vs 9,4% do varejo alimentar em termos nominais. Alguns fatores relacionados a esse crescimento estão na mudança do estilo de vida da população, expansão demográfica nas regiões urbanizadas, aumento de casais sem filhos, o que resulta em mais gastos com experiências gastronômicas. As empresas precisam escutar a voz de seus clientes, operadores, entender as suas necessidades de forma a serem mais assertivas, entregando aquilo que o mercado espera. Em tempos de crise, o cliente se importa com o desembolso, mas não reduz a expectativa da qualidade. E se essa premissa não é atingida, ele busca outras opções. E aí está o desafio dos operadores de food service e da indústria, que deve seguir inovando para antecipar as necessidades e trazer melhores soluções de compra”, avalia.

Silva pontua ainda que a prioridade dos empresários food service em relação aos seus investimentos hoje em dia deve ser focada em “tecnologia e inovação e em produtos de maior valor agregado que tragam lucratividade para a indústria e seus clientes. O foco e o planejamento nos direcionam às prioridades do mercado. Estabelecendo as prioridades, conseguimos investir de forma consistente para obter resultados”, frisa.

Boas práticas

De acordo com Clovis, da Tramontina, “é importante destacar também que o setor de food service continua atuante e adapta-se à nova realidade de mercado, com lojas menores, mais eficientes ou novos conceitos que agregam valor ao consumidor final. Devemos ter um olhar especial para criar ou adaptar produtos para essa realidade. Por exemplo, algumas redes de fast food têm melhorado a apresentação das lojas para estarem mais próximos. Restaurantes têm investido no conceito de cozinha show no meio do restaurante e isso demanda equipamentos eficientes e atraentes. A Tramontina tem ajustado os produtos para essa realidade. Também estamos atentos às mudanças no comportamento do consumidor. Como exemplo, a troca de canudos plásticos nos restaurantes por alternativas sustentáveis. Recentemente, lançamos um modelo em aço inox para atender essa demanda”, relata.

Clovis acredita que boas práticas em tempos de crise é “ter foco. A empresa precisa definir os objetivos e seguir em frente para se manter no mercado. Um bom planejamento, principalmente em tempos de crise, demanda criatividade aliada à inovação e à ética. Criar novos produtos, novas maneiras de atrair clientes, processos e estratégias de vendas, ser criativo e utilizar o planejamento estratégico, saber o que tem que ser feito e como deve ser feito antes dos seus concorrentes, ter visão e ousadia, ser excelência. Tudo isso é essencial”.

Por fim, Filho, da Ourolac, indica que boas práticas em tempos como os atuais é sempre estar atento às despesas que não fazem sentido e não vão ajudar a cumprir o business plan, “ter boas pessoas motivadas que pensam de forma diferente e executam com excelência; estar muito atento a clientes, nesses momentos é quando a concorrência pode baixar a guarda, seja cortando estrutura e atendendo de forma não eficiente, seja abandonando algumas áreas; e, se você está preparado, é uma ótima oportunidade de avançar”, avalia.

O diretor salienta, ainda, que “primeiramente, é preciso manter a calma. Crise não é o fim do mundo e, sim, um berço de oportunidades, caso esteja preparado e com as pessoas certas ao seu lado. Ficar atento ao endividamento de curto prazo e ao caixa são coisas básicas para estar preparado. Não corte investimentos estratégicos, a não ser que seja questão de sobrevivência. Garanta que as pessoas certas estejam no barco com você e não deixe que seu emocional ou o emocional delas atrapalhe a estratégia”.

Ibmec
www.ibmec.br
Tramontina
www.tramontina.com.br
Ourolac
www.ourolac.com.br
Cargill
www.cargill.com

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