Covid-19 x food service

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“Agora, é possível encontrar uma grande variedade de cozinhas à disposição dos usuários”, destaca Fabio Plein, Diretor Geral do Uber Eats no Brasil

Como o setor de alimentação fora do lar deverá sair dessa luta contra o vírus que fechou diversos estabelecimentos e poderá demitir milhões de pessoas?

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Ana Beatriz Moraes, coordenadora dos Programas de Mestrado e da Graduação em Ciências Contábeis no IBMEC RJ, diz que “é preciso entender que o tempo de reversão é proporcional à capacidade do Estado para dar suporte aos grandes surtos de doença em cada local”

A disseminação do novo coronavírus (Covid-19) pelo mundo tem impactado não somente a saúde global, mas a economia como um todo. Os reflexos ainda não podem ser devidamente mensurados, segundo especialistas. No entanto, o mercado já tem sentido um baque em seus números. As perspectivas, por ora, não são otimistas.
Com a recomendação dos órgãos públicos de que as pessoas permaneçam em suas casas sempre que possível, o segmento de alimentação viu os seus números caírem logo em meados do mês de março. Em entrevista à Agência Brasil no período, Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), afirmou que a área já havia começado a sentir os impactos do coronavírus, mas que o recuo ainda não chegava a 15%. “Entendemos que a queda de faturamento acontecerá, e acreditamos que vai se estabilizar em torno de 30%”, disse, na ocasião.
A Food Service News conversou com especialistas para traçar um amplo panorama sobre o tema, começando pela questão macroeconômica. Para entender como os negócios de alimentação sofrerão com o surto da doença, iniciamos o assunto mostrando que toda a economia já mostra sinais de desaceleração mundial.

Cenário macroeconômico

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“O setor de alimentação como um todo, por aglomerar grande quantidade de pessoas, possivelmente sentirá ainda mais os efeitos dessa queda do crescimento econômico”, diz André Martins de Almeida, doutor em economia aplicada e professor da Universidade Santo Amaro

André Martins de Almeida, doutor em economia aplicada e professor da Universidade Santo Amaro, destaca que “embora, neste momento, não há como efetivamente mensurar os impactos do novo coronavírus, especialistas da área econômica do mundo inteiro são unânimes em já revisar para baixo o crescimento do PIB mundial. Se antes tínhamos uma previsão do PIB mundial (2020) em 3,1%, hoje a expectativa é de que não chegue ao patamar dos 3%. Isso porque, em grande parte, o epicentro da crise surgiu na China, que representa cerca de 20% do PIB global. A economia chinesa que já vinha em gradativo processo de desaceleração de crescimento econômico, com o Covid-19 acaba por acentuar ainda mais a queda do seu PIB, com perspectivas iniciais de redução de – 0,5% no ano de 2020”, frisa.
O professor complementa que “diante desse contexto de inclinação do PIB mundial, com certeza o que se espera é uma queda de expectativa dos agentes em relação ao futuro da economia, uma redução do consumo das famílias, um declínio dos investimentos privados, uma menor arrecadação tributária, enfim, um retrocesso econômico e uma piora dos indicadores sociais. Evidentemente, que em um primeiro momento, o impacto da queda do PIB chinês na economia dos diversos países do mundo dependerá do nível de integração comercial/financeira do país em análise com a China”.
No caso do Brasil, afirma André Martins de Almeida, “que temos a China como o principal parceiro comercial (exportação/importação) é certo que seremos fortemente atingidos. Alguns contratos de exportações de commodities para China, por exemplo, já foram imediatamente cancelados. Com a menor demanda, o preço das commodities também tende a cair, o que prejudica a nossa balança comercial e o PIB do país que, inclusive, especialistas já revisaram para baixo (- 0,3%) no ano de 2020. Assim, o impacto do novo coronavírus no Brasil também se demonstrará por menor expectativa dos agentes em relação à economia, menor consumo das famílias, menor investimento privado etc”, diz.
Ana Beatriz Moraes, coordenadora dos Programas de Mestrado e da Graduação em Ciências Contábeis no IBMEC RJ, ressalta que “não temos mais economias fechadas no mundo. Uma situação como essa afeta a economia do mundo todo porque, de alguma forma, o isolamento de pessoas e produtos não é uma coisa trivial. O avanço do coronavírus pelo mundo abalou o mercado global. As cadeias de suprimento são afetadas. Com isso, os insumos para produção não chegam em seus destinos. Sem insumos, as empresas não produzem e, consequentemente, não entregam. Os negócios ficam frágeis, e os investidores, com medo das grandes perdas, retiram o dinheiro das bolsas e dos investimentos e tentam proteger os ganhos de outra forma. O papel dos governos, neste momento, é extremamente delicado, pois precisam manter as condições básicas para acolher a população doente e, ao mesmo tempo, agir preventivamente e em larga escala para evitar o avanço. Com o anúncio da pandemia, dia 11 de março, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a mensagem foi clara: as tentativas de contenção do vírus falharam e a proliferação ficou fora de controle”.
No Brasil, afirma ela, “a situação não é menos complicada. A economia brasileira é muito sensível ao que acontece na China pela estreita parceria comercial entre os dois países. Com a desaceleração da economia ao redor do mundo, são inevitáveis os efeitos sobre as nossas exportações e, logicamente, a perspectiva de crescimento fica mais comprometida ainda. É importante lembrar que as previsões já estavam sinalizando que haveria uma queda antes mesmo de o coronavírus aparecer no cenário”, diz.

Mercado de alimentação

Falando acerca especificamente do mercado de alimentação no Brasil e no mundo, André Martins de Almeida frisa que a queda do PIB mundial neste ano resultante da epidemia do Covid-19 vai afetar praticamente todos os segmentos da economia e não seria diferente com a área de alimentação.
“O setor de alimentação como um todo, por aglomerar grande quantidade de pessoas, possivelmente sentirá ainda mais os efeitos dessa queda do crescimento econômico. Para se ter uma ideia, na Itália, muitos donos de restaurantes já mandaram os funcionários para casa até a epidemia se estabilizar, pois a demanda caiu significativamente nas últimas semanas conforme novos caso do novo coronavírus foram sendo constatados pelas autoridades sanitárias locais. Aliás, o governo italiano decretou quarentena em toda região da Lombardia e já impôs restrições a aglomerações como a frequência a restaurantes como forma de mitigar a disseminação do novo coronavírus. Na China, no fim do mês de janeiro, o McDonald`s já tinha anunciado o fechamento temporário de 300 restaurantes. No sentido agiu o Starbucks com o fechamento de cerca de 2.000 lojas no país”, salienta.
Dessa forma, diz ele, “se a disseminação do novo coronavírus aumentar no mundo e passarmos a ter uma pandemia, podemos esperar um cenário bem negativo no mercado de alimentação. Esse cenário se refletirá em quebra de restaurantes, queda de faturamento, menor investimento dos empresários do setor, demissão de trabalhadores. Essas consequências no setor de alimentação, evidentemente, dependerão do quão alastrado estará o novo coronavírus no país em análise”.
Ana Beatriz Moraes acrescenta que “até onde se sabe, o vírus não é transmitido por alimentos. O contágio se dá no contato entre as pessoas. O risco maior se dá no contato entre pessoas em aglomerações ou em locais fechados, como supermercados. Especialistas que lidam com situações similares acreditam que seja uma boa ideia manter algum estoque mínimo de alimentos não perecíveis para uma possível situação de falta dessa categoria nas prateleiras de supermercados. Seguindo essa linha de raciocínio, é possível que haja uma procura maior pelos alimentos não perecíveis e que, por pressão de demanda, os preços subam, dado que a oferta não terá condições de expandir com a mesma velocidade do aumento da procura por alimentos. É preciso lembrar que o trânsito entre os países está prejudicado. Logo, a dificuldade na aquisição de insumos também pode provocar aumento no preço destes e, consequentemente, alguma retração de oferta”, avalia.
Assim, analisa a professora, “considerando que as pessoas podem tentar estocar mais alimentos e que estes podem ter seus preços aumentados, então é de se esperar que os restaurantes, bares e estabelecimentos similares tenham seus preços aumentados. Se a situação da distribuição de alimentos ficar muito crítica, pode-se esperar alteração ou redução do cardápio disponível, bem como preços mais elevados. Não se deve descartar que pessoas tenderão a evitar locais fechados e grandes aglomerações. Isso pode impactar no resultado financeiro de estabelecimentos desse tipo”, diz.
André Martins de Almeida pondera que se houver uma disseminação maior do novo coronavírus, pode-se esperar impactos bem negativos para o segmento de alimentação.
“Esse impacto poderá chegar principalmente das seguintes formas: primeiro, acredito que o setor de alimentação seria atingido por um choque de oferta. Isto é, como a epidemia gera uma queda de produção/paralisa algumas atividades, o setor seria impactado por uma menor quantidade de oferta de insumos essenciais para os restaurantes. Uma queda de oferta ou uma significativa demanda por álcool em gel e papel toalha, por exemplo, poderá gerar a falta desses produtos no mercado e/ou seus preços se elevarem expressivamente. Assim, você já deve imaginar o que aconteceria com o seu restaurante sem papel toalha ou você pagando quatro vezes mais por esse produto? Segundo, naturalmente haveria uma queda na demanda por comida de restaurantes pelo receio que algumas pessoas teriam de contrair o novo coronavírus. É evidente que nos restaurantes há uma concentração de pessoas e isso gera receio aos clientes em épocas de epidemias. Essa queda de demanda, por exemplo, é o que já acontece em restaurantes tradicionais na região de Veneza e Milão. Terceiro e, o que já acontece na Itália, é o próprio governo do país com maiores casos de infecção decretar medidas e/ou avisos para se evitar locais fechados e com aglomerações de pessoas. Sem dúvida, isso acarretaria ainda mais a queda de demanda dos restaurantes”, destaca.

Cuidados

Covid-19  x  food serviceDiante desse cenário, como os empresários da área de alimentação devem agir?
“Coincidentemente, eu também sou empresário da área de alimentação há 5 anos. Na verdade, o que os empresários do setor devem fazer é continuar com as mesmas medidas de higiene já adotadas para se evitar a proliferação de outros vírus tal como o H1N1. Aliás, a própria Associação Brasileira de Bares e Restaurantes – ABRASEL, que lançou no início do mês de março um e-book com boas práticas de higiene contra o novo coronavírus, descreve que a transmissão desse vírus é a mesma de outros tipos de gripe. Assim, os empresários deverão demonstrar de forma clara aos seus clientes que o estabelecimento pratica todas as recomendações feitas pela ABRASEL além, é claro, por ventura de outras indicações dadas pelas autoridades sanitárias locais. Ademais, como em qualquer situação, independentemente de crise, os empresários devem ter uma boa gestão de caixa para enfrentar uma possível crise que não tem dia certo para começar e terminar”, ressalta André Martins de Almeida.
Ana Beatriz Moraes afirma que “os empresários devem seguir as recomendações dos especialistas em saúde. É importante ressaltar, mais uma vez, que o risco da transmissão de vírus em restaurantes e estabelecimentos de alimentação está muito mais relacionado ao fato de se ter muitas pessoas no mesmo local, sendo algumas delas portadoras do vírus sem saber, causando a proliferação do mesmo pelo contato com superfícies tocadas por muitas pessoas, como mesas, cardápios, cadeiras. Donos de estabelecimento podem apoiar o movimento de prevenção mantendo álcool gel nas áreas comuns, colocando placas de sinalização com lembretes claros sobre higiene nas áreas de preparos de alimentos, lavatórios e banheiros. Medidas como essas são simples e podem atuar positivamente na prevenção e proliferação do vírus”, diz. “Nesse momento, a higiene passa a ser uma grande aliada no processo de prevenção. Um pouco de criatividade também pode ajudar, pensando em cardápios mais cozidos (já que o vírus não suporta temperaturas muito altas), por exemplo, dando mais confiança aos frequentadores desses estabelecimentos”, destaca.
E é possível para os empresários se prepararem para situações de surtos de doença como essa?
“Os empresários comumente se preparam para todos os tipos de cenários econômicos, quer seja otimista, moderado ou pessimista com base em projeções, por exemplo, de variáveis macroeconômicas, tais como o PIB e a taxa de câmbio. Agora, em termos de preparação antecipada para um surto como o caso do novo coronavírus é difícil verificarmos na prática. Isso em parte deve-se ao fato de que os surtos são casos em que há um aumento repentino do número de casos de uma doença em uma região específica. Assim, o surto realmente gera um efeito surpresa no âmbito empresarial. Se a empresa se localizar na região foco da doença, como no caso do novo coronavírus, na província de Hubei, dificilmente o empresário terá tempo para agir em uma situação como essa. Tudo acontece muito rápido. Mas se o empresário está no Brasil e constantemente faz uma análise do mercado mundial, ele terá mais tempo e poderá se preparar melhor. Algumas empresas conseguem modificar temporariamente, por exemplo, a rotina de trabalho. É o caso da Mastercard, da XP Investimento e de tantas outras que já têm permitido o esquema de home office. Agora, se a empresa tem alguma ligação comercial diretamente ou indiretamente com clientes chineses, possivelmente ela será rapidamente atingida e não terá como se preparar a essa nova conjuntura. Esse é o caso, por exemplo, da Motorola e da Samsung, que interromperam a fabricação de smartphone no Brasil por falta de componentes importados”, analisa André Martins de Almeida.

Reversão

Covid-19  x  food serviceOutra dúvida recorrente quando se fala do novo coronavírus é: pode levar muito tempo para reverter os efeitos do surto na economia?
Para André Martins de Almeida, “temos que tomar cuidado ao analisarmos os efeitos dessa nova epidemia na economia, pois, de fato, poderá mascarar problemas antigos. A China, epicentro do novo coronavírus, já sentia uma desaceleração econômica. Para se ter uma ideia, no terceiro trimestre de 2019, apresentou o pior PIB nos últimos 30 anos. Em parte, devido à guerra comercial com os EUA. Se conseguirmos estabilizar os números de casos do novo coronavírus no mundo, temos a impressão de que a economia voltará a crescer, prosperar por si só. Não é bem assim. Agora, considerando apenas os efeitos do novo coronavírus, acredito que não levaríamos muito tempo para voltarmos às projeções econômicas de antes dessa nova conjuntura”, diz.
Isso porque, afirma o profissional, “os governantes das principias economias do mundo já estão se antecipando a um cenário mais pessimista em termos econômicos e imprimindo políticas macroeconômicas anticíclicas. Os EUA, por exemplo, já reduziram em 0,5 ponto percentual a taxa de juros básica adotando, portanto, uma política monetária expansionista. Para finalizar, é sempre bom lembrar que o episódio do SARS (2002-2003) impactou significativamente a economia chinesa, mas em questão de tempo a China superou o declínio do PIB atingido pelo SARS. Assim esperamos que aconteça também com a economia mundial após a estabilização dos casos do novo coronavírus”, afirma.
Ana Beatriz Moraes diz que “é preciso entender que o tempo de reversão é proporcional à capacidade do Estado para dar suporte aos grandes surtos de doença em cada local. Obviamente, as economias mais pobres e sem recursos sofrerão mais e exatamente por possuírem recursos escassos podem levar mais tempo para recuperação. No Brasil, fábricas de eletrônicos, do setor têxtil e a indústria de aviação já estabeleceram medidas de segurança. Pensam também em formas de diminuírem a dependência da China como provedora de insumos. O fato é que a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) já revisou a perspectiva de crescimento global. Em uma situação dessa magnitude, não poderia ser diferente. O tempo exato não pode ser previsto. Qualquer exercício nesse sentido não passa de mera tentativa de adivinhação no momento atual. É preciso esperar para saber o quanto os países foram realmente atingidos e suas economias afetadas pela necessidade de desaquecimento da atividade econômica”, ressalta.

Relações trabalhistas

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“É importante que os empresários prezem pelo bem-estar de seus empregados e adotem medidas preventivas para coibir a transmissão do coronavírus”, afirma Jackeline Gomes Falcão, advogada da área trabalhista do L.O. Baptista Advogados

Quando a disseminação do novo coronavírus se tornou mais intensa no Brasil, muitos empresários e funcionários ficaram em dúvida acerca dos direitos e deveres trabalhistas. Afinal, o que pode ou não pode ser feito?
Acerca dos direitos e deveres das empresas no Brasil relacionados ao surto de coronavírus, Jackeline Gomes Falcão, advogada da área trabalhista do L.O. Baptista Advogados, afirma que “assim como ocorre com as demais enfermidades, o empregado tem direito de abonar sua falta no trabalho se estiver doente ou com suspeitas de infecção pelo coronavírus, desde que apresente atestado médico justificando sua ausência pelo período necessário. Durante os primeiros dias de afastamento, as empresas são incumbidas de pagar o salário do trabalhador. Todavia, caso seja necessário prolongar o afastamento, o empregado deverá dar entrada ao pedido de afastamento pelo INSS, sendo que, nesse caso, o encargo de pagar o trabalhador é transferido ao órgão previdenciário, mediante concessão do benefício auxílio-doença. Vale lembrar que a Lei nº 13.979, recentemente aprovada com medidas de enfrentamento da doença, considera como justificada a ausência do empregado para fins de apuração, atendimento e tratamento da doença. Segundo informações da Organização Mundial de Saúde (OMS), o tempo de recuperação da doença causada pelo coronavírus oscila entre duas semanas (casos mais brandos) e três a seis semanas (casos mais graves). Assim, considerando que a maioria dos pacientes infectados não sofrem de sintomas severos, é possível que as empresas tenham que arcar com o pagamento do salário dos empregados infectados por todo período de afastamento, desde que este não seja superior a 15 dias consecutivos. Somente se o governo decretar quarentena e ordenar o fechamento das empresas é que os trabalhadores terão direito a faltar no trabalho sem precisarem de atestado, sendo que as empresas continuarão pagando de seus empregados, exceto se o decreto governamental dispuser em sentido contrário. Nesse cenário, trabalho em regime home office, concessão de férias coletivas ou criação de um banco de horas são opções para uma situação de crise como essa”, afirma.
Leonardo Gonzalez, advogado trabalhista do Miguel Neto Advogados, destaca que “por lei, as empresas não possuem obrigações específicas quanto ao coronavírus, a legislação trabalhista vigente estabelece diversas normas de prevenção de acidentes e doenças laborais ou não laborais. Neste contexto, o que há é a preocupação em não propagar o vírus e preservar a saúde de todos que frequentam o ambiente de trabalho, tanto o empregado como o empregador devem tomar medidas de prevenção e precaução. A Lei 13.979/20, editada pelo Governo Federal em 06/02/2020, tem a missão de criar políticas específicas de prevenção ao vírus, que ao cogitarmos sobre o ambiente de trabalho, estamos automaticamente tratando do dever do empregador em propiciar um ambiente de trabalho saudável e seguro, atendendo a função social da empresa (Constituição Federal) e evitando passivo trabalhista”, diz.
Jackeline Gomes Falcão afirma que, para não ter problemas futuros, “é importante que os empresários prezem pelo bem-estar de seus empregados e adotem medidas preventivas para coibir a transmissão do coronavírus, se atentando às recomendações do Ministério da Saúde. Nesse sentido, caso algum empregado tenha viajado para os países com transmissão local do coronavírus, entrado em contato com pessoas nessa situação ou apresente suspeitas da doença, é aconselhável que as empresas adotem políticas de afastamento prévio, com isolamento domiciliar para monitoramento dos sintomas da infecção – período em que o trabalho poderá ser realizado no sistema home office. Do mesmo modo, se algum empregado for detectado com o coronavírus, as empresas podem propor que os seus colegas de trabalho busquem atendimento médico imediato e cumpram o período recomendado de afastamento trabalhando remotamente. Esse tipo de sistema corrobora com a realização da função social da empresa, protege a saúde do empregado exposto à infecção e evita a contaminação dos demais trabalhadores, uma vez que a diminuição da circulação de pessoas nos ambientes laborais contribui para diminuição dos riscos de contágio. Além disso, quanto mais a contaminação for evitada, menos a empresa será onerada com o pagamento dos primeiros 15 dias de afastamento dos empregados infectados com o coronavírus”, frisa.
E quais as principais medidas que as empresas devem tomar sem que seja preciso parar as operações?
“As empresas podem adotar algumas políticas de prevenção e controle do vírus em suas instalações, tais como: i) criar programas de divulgação, palestras e materiais de apoio com orientações, cuidados e métodos de identificação dos principais sintomas do coronavírus; ii) intensificar a limpeza, higienização e ventilação dos locais de trabalho; iii) disponibilizar lenços descartáveis para higiene nasal, álcool em gel e desinfetantes; iv) realizar reuniões por videoconferência e evitar viagens para o exterior; v) incentivar o teletrabalho, para os empregados com cargos compatíveis com esta modalidade; vi) instituir banco de horas, para compensar o período de afastamento dos empregados; vii) programar férias coletivas para os departamentos que não comportem o trabalho home office; e viii) criar um sistema de gerenciamento de emergências envolvendo CIPA e SESMT, permitindo que os empregados identifiquem a primeira pessoa responsável a contatar em caso de suspeita da doença e as providências a serem tomadas”, diz Jackeline Gomes Falcão.

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“O empregador poderá formar um comitê extraordinário e conjunto com a CIPA (Comissão Interna de Prevenção a Acidentes), visando um plano de enfrentamento ao vírus”, destaca Leonardo Gonzalez, advogado trabalhista do Miguel Neto Advogados

“O empregador poderá formar um comitê extraordinário e conjunto com a CIPA (Comissão Interna de Prevenção a Acidentes), visando um plano de enfrentamento ao vírus, estabelecendo um programa informativo, sobre medidas de prevenção, medidas básicas de saúde e higienização nos locais de trabalho, avaliar necessidade e riscos em eventuais viagens a trabalho, sobretudo à Europa e Ásia”, ressalta Leonardo Gonzalez.
Se vários funcionários forem contaminados em uma empresa, ela pode ser considerada culpada? Para Jackeline Gomes Falcão, “pode haver alguma controvérsia sobre a possibilidade de a empresa ser considerada culpada, em especial, se mesmo ciente da existência de algum empregado contaminado não toma qualquer atitude no sentido de afastar esse empregado do convívio dos demais. No mais, o coronavírus é uma epidemia global e a contaminação dos empregados ocorre independentemente do trabalho exercido, de forma que a empresa não deverá ser considerada culpada pelo contágio no local de trabalho, desde que cumpra com todas as normas de higiene e segurança e afaste imediatamente – ainda que preventivamente – qualquer empregado que apresente os sintomas, conforme orientação da OMS. Sendo assim, ainda que o coronavírus seja transmitido por um colega de trabalho, diferentemente do que ocorre com a doença ocupacional e o acidente de trabalho, não há como a empresa ser responsabilizada, pois não existe nexo de causalidade entre a infecção e as atividades profissionais, especialmente quando todos estão naturalmente expostos ao risco”, diz ela.

Medidas

A preocupação com a disseminação do novo coronavírus fez com que as empresas tomassem uma série de atitudes para ajudar a evitar a propagação da doença. A BRF, por exemplo, adiou viagens de colaboradores, entre outras ações.
“A companhia formou, ainda, um grupo de trabalho composto por especialistas que monitora permanentemente a situação em todos os mercados em que possui operação, mantendo os colaboradores atualizados sobre medidas preventivas e a evolução da doença. A empresa mantém a campanha interna de conscientização sobre hábitos de higiene. Adicionalmente, ao realizar qualquer viagem ao exterior, os colaboradores da Companhia já seguem diretrizes de biosseguridade, como o cumprimento do vazio sanitário, período em que não devem ter acesso a pessoas ou instalações da BRF (fábricas, agropecuária, escritórios, centros de distribuição, filiais de venda etc.). Com o avanço do coronavírus, estabeleceu uma matriz de decisão que estende o vazio sanitário para até 14 dias por precaução, conforme critérios estabelecidos. As medidas atendem às recomendações feitas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e órgãos especializados, além de estar alinhada aos compromissos fundamentais da BRF: segurança, qualidade e integridade”.
A Starbucks, por sua vez, afirmou que “nós da Starbucks, temos o compromisso de criar a melhor experiência para nossos clientes e oferecer um Terceiro Lugar seguro, onde todos se sintam bem-vindos. Isso inclui: Ser atencioso com os outros, Comunicar com respeito, Agir com responsabilidade. Estamos trabalhando em estreita colaboração com as autoridades de saúde locais, realizando ações de orientações a todos nossos partners (como chamamos nossos colaboradores). Tomamos uma série de medidas de precaução em resposta a esse crescente impacto na saúde pública, incluindo um aumento nos procedimentos de limpeza e higienização de nossas lojas. Continuamos monitorando isso de perto e revendo as medidas e orientações diariamente da OMS e ANVISA para tomar novas ações à medida que a situação evolui”.
Em nota, a Ambev disse que “com o avanço de casos de contaminação do COVID-19 no Brasil, a Ambev anuncia que está produzindo etanol e 500 mil unidades de garrafas PET onde será envasado álcool em gel, que será doado a todos os hospitais públicos nos municípios de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, onde se concentram a maioria dos casos da doença até o momento. A Ambev também fará a logística para entrega do álcool em gel nesses locais. Serão entregues 5.000 unidades em cada hospital público desses municípios. A demanda pelo álcool em gel segue aumentando nos últimos dias e já existe falta do produto no mercado. Considerando que uma das restrições para a sua reposição é a embalagem para envase, a Ambev disponibilizará o álcool em gel em garrafas PET como as utilizadas para suas bebidas, que hoje não estão em falta. O álcool virá do processo cervejeiro, além do retirado na produção de Brahma 0.0.”
Lembramos que o cenário que envolve todas as informações e ações aqui descritas pode ter se modificado após o fechamento desta edição.

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