Como agir na retomada às atividades presenciais?

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Especialistas avaliam as melhores ações para o momento

Vários estabelecimentos da área de alimentação fora do lar pelo País estão em um momento de retomada das atividades presenciais, diante da flexibilização das medidas de isolamento social. Além dos cuidados ligados às recomendações dos órgãos de saúde, os empresários precisarão ficar atentos também ao aspecto financeiro.

Cuidados e adaptação

Para saber como os empresários devem proceder neste momento, no aspecto financeiro, conversamos com os economistas Chrystian Mendes, Doutor em Economia Aplicada e professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), e Luckas Sabioni Lopes, Doutor em Economia Aplicada e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que em conjunto responderam a alguns questionamentos da Food Service News.
O primeiro ponto citado pelos economistas foi o respeito aos protocolos de saúde, para evitar assim uma nova onda de contaminações que acabaria resultando em novos fechamentos.

Como agir na retomada às atividades presenciais?
Chrystian Mendes é Doutor em Economia Aplicada e professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)

“Os proprietários desses estabelecimentos devem seguir o protocolos estabelecidos pelas autoridades locais e medidas preventivas já em voga, no processo de reabertura, como distanciamento de mesas, uso de máscaras, aproveitar espaços abertos, manter uma circulação de ar adequada, uso de álcool em gel, número limitado de clientes, de modo que se evite uma aglomeração elevada de pessoas. O não cumprimento de tais medidas pode vir a acarretar no aumento de casos da Covid-19, gerando assim um novo surto de doença e fazer com que o estabelecimento seja interditado por determinado tempo, além de gerar uma multa para os proprietários e desgaste de sua imagem junto ao público”.
Outra dica dada foi sobre os estoques que segundo eles não devem ser muito grandes até ser possível estimar o movimento e a quantidade de produtos a serem comercializados, para que assim não haja desperdícios.
“Os proprietários devem fazer estimativas de demanda dos seus produtos e serviços e evitar um estoque muito elevado, ou mesmo considerar a reposição semanalmente, de modo a acompanhar como tem sido o seu movimento e assim conseguir fazer um melhor controle de estoque. Deve-se levar em conta ainda que a demanda vai ser menor que a usual, em função do espaçamento obrigatório e do receio natural da população”.
Perguntados sobre a viabilidade de mudanças nos cardápios para opções que se encaixem melhor na realidade atual, Chrystian e Luckas afirmaram que tais adaptações são importantes desde que estas não causem uma perda da identidade dos estabelecimentos.
“Uma adaptação de produtos e serviços durante esse período é importante para a sobrevivência dos estabelecimentos comerciais, uma vez que as demandas também de consumo também se modificaram. Mas tudo isso deve ser feito sem perder a identidade da empresa e o que ela oferece aos clientes. Os estabelecimentos podem oferecer alternativas de delivery, com cardápio variado e uma promoção de vendas mais ativa nas redes sociais e nos aplicativos de comida em casa”.

Comunicação com credores e clientes

Como agir na retomada às atividades presenciais?
“Outro fator que auxilia muito nos momentos de crise de liquidez e de mercado é criação de estratégias de conseguir bons parceiros financeiros”, afirma Sérgio Ribeiro

Para caso de problemas financeiros inesperados decorrentes de fatores da retomada, sejam eles problemas com estoque, movimento baixo, entre outros, os profissionais sugeriram consultorias e negociações com os bancos para que o problema não fique incontrolável.
“Em caso de prejuízos, os proprietários devem buscar renegociar as dívidas, e até mesmo buscar consultorias de empresas voltadas para o ramo de atividade, como Sebrae e mesmo profissionais qualificados no ramo. Deve também procurar sua agência bancária antes que a situação financeira piore muito e buscar soluções financeiras”.
Por fim, perguntamos para Chrystian e Luckas quando e como, para eles, seria possível entender as novas demandas do mercado. Eles afirmaram então que esse processo já vem acontecendo ao longo da pandemia e que buscar essas informações diretamente com os clientes pode facilitar o processo.
“Os consumidores já têm demonstrado o seu interesse em diversos campos de atividade. Além disso, os proprietários já têm ciência do que tem sido mais demandado, seja por meio de atividades que vêm desenvolvendo ao longo desse período de pandemia, como o delivery, que podem dar uma ideia do que os clientes tenham mais buscado, ou mesmo ao reabrir seus estabelecimentos e conforme tem sido noticiado nas mídias. Uma opção para entender melhor é utilizar de pesquisas com os consumidores, de modo a conseguir entender melhor o que eles desejam e esperam do seu produto/serviço”.

Segurança em primeiro lugar

Sérgio Ribeiro da Silva é titular do Departamento de Ciências Contábeis do Instituto de Ciências Gerenciais da Puc Minas, contador, pós-graduado em Auditoria Empresarial pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Curso de Pós-Graduação em Perícia Contábil do IEC-PUCMINAS. Ele nos falou sua visão sobre o que os estabelecimentos de food service precisam ter em mente na retomada.
“A ordem do dia é: cumprir os protocolos determinados pelos órgãos públicos responsáveis pela segurança da população da cidade. Se o estabelecimento puder ir além do protocolo e oferecer mais segurança para os clientes será muito bom, isso poderá render um diferencial em relação aos que se limitaram ao cumprimento apenas do protocolo. Muitas vezes se percebe que o protocolo é um kit de segurança básico. As pessoas frequentadoras de restaurantes (em geral) já estão percebendo a diferença entre estabelecimentos e ela é visível. Tem uns levando a coisa com falta de seriedade, pois já vi faltar coisas básicas como sabão e toalha nos banheiros”, diz.
Sérgio concordou que no momento serão necessárias readequações financeiras, mas enfatizou que estas têm que acontecer sem que haja uma queda brusca na qualidade dos serviços ofertados.
“Manter ou melhorar o padrão existente antes da pandemia. Às vezes uma adaptação ou um realinhamento de custos e preços é normal, mas esse fato não poderá provocar uma redução perceptível na qualidade dos produtos ou nos procedimentos de segurança e higiene. Se isso ocorrer, se tornará um obstáculo a uma retomada pós-pandemia. Ninguém deseja ver em um momento de restrição de pessoas aos estabelecimentos (com queda relevante no faturamento) a ocorrência de outros complicadores. Tenha certeza de que os clientes farão essa comparação entre os períodos pré-pandemia e pós-pandemia, isso será fator determinante para sua fidelização”.

Mais certezas, menos apostas

Como agir na retomada às atividades presenciais?Outro ponto levantado foi a de alteração nos cardápios. Para Sérgio Ribeiro, essa é uma hipótese a ser utilizada com muita calma e estudo, pois pode ser mais fácil trabalhar com um sistema já conhecido.
“Penso que estamos em uma época muito atípica e de muitas variáveis pouco conhecidas e não controláveis agindo no processo do negócio. Novos cardápios podem trazer a exigência de novos investimentos, novos processos, novos insumos, necessidade de mais treinamento, e seu desempenho pode trazer mais incerteza. Acho que está na hora de vencermos esta luta com as armas que já conhecemos e dominamos bem, senão vamos colocar novas variáveis no ambiente em um tempo que está sendo muito desafiador. Mas se os gestores se certificarem que existe uma grande necessidade dessa alteração, que as mudanças serão bem assimiladas por toda a equipe, que os riscos serão baixos e calculáveis, e ainda, que a empresa tem toda capacidade de administrá-los, aí tudo bem”.

Prevenir é mais seguro do que remediar

Pensando no fechamento de empresas que não resistiram aos impactos na economia, perguntamos para Sérgio Ribeiro como os empresários devem se preparar para em casos de crise como a atual não serem pegos desprevenidos.
“As boas teorias de finanças sempre recomendaram que as empresas reservassem uma parte dos seus lucros para enfrentar futuros desafios e tempos difíceis. Infelizmente no Brasil não é uma cultura forte entre os empresários adotar o costume de procurar manter uma parte dos lucros gerados pelas empresas nas próprias empresas. Isso não se faz apenas para garantir o enfrentamento de futuras crises, mas de muitos outros investimentos que se tornam necessários com o tempo para que as empresas se solidifiquem e se mantenham revitalizadas. Um fator negativo nessa questão é que até as leis existentes no país que retratam esse assunto são muito flexíveis e em muitos casos permitem uma distribuição total desses lucros aos proprietários”.
Sérgio também falou sobre a busca por parceiros financeiros, que podem ajudar em momentos de crise inesperados, como o atual.
“Outro fator que auxilia muito nos momentos de crise de liquidez e de mercado é criação de estratégias de conseguir bons parceiros financeiros. Isso se faz com tempo, com fornecimento de informações econômicas precisas e tempestivas sobre o negócio, convivência boa e duradoura com rede bancária, e se possível, oferecer também uma boa reciprocidade financeira. Isso poderá garantir boas noites de sono nos momentos de crises”.

Chrystian Mendes
deeco.ufop.br/chrystian-soares-mendes
Luckas Sabioni Lopes
www.ufjf.br/ecogv/institucional/docentes-2/
Sérgio Ribeiro da Silva
www.escavador.com/sobre/3153844/sergio-ribeiro-da-silva ou pucminas.br

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