Clique polêmico

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O hábito de tirar fotos e postá-las no Instagram (apelidado de foodstagram), também comum nos Estados Unidos, fez com que alguns estabelecimentos do país adotassem uma política proibitiva, conforme o conteúdo da matéria publicada pelo jornal norte-americano New York Times no início deste ano e reproduzida por veículos nacionais como Veja e Folha de S.Paulo.
O termo é uma junção das palavras food, que significa comida, em inglês, e Instagram, principal rede social utilizada pelos clientes para divulgar as fotos. A publicação conta que estabelecimentos de Nova York adotaram a política de proibir os clientes de fotografarem a comida, mas ela varia de local para local (alguns, menos radicais, ainda permitem fotos sem o uso do flash), alegando dois principais motivos: que a atitude incomoda as pessoas que estão nas mesas ao lado e ainda é capaz de atrapalhar o momento da degustação.
Segundo a reprodução da Veja, Moe Issa, dono do restaurante The Chef’s, no Brooklyn, diz que algumas pessoas não entendem a razão, mas ele tenta explicar que o seu desejo é que os clientes se reúnam na mesa para apreciar a refeição, e que a prática de fotografar se tornou uma distração até mesmo para os chef’s.

O fato é que a decisão divide opiniões. A polêmica, por exemplo, se deve a pontos positivos mais fortes em consequência do foodstagram, como a eficaz divulgação gratuita que é feita quando os pratos do estabelecimento são colocados nas redes sociais. Mas qual a visão do Brasil a respeito da atitude desenvolvida nos Estados Unidos? Entrevistamos personagens ativos no mercado para descobrir.

Prática aceita

Nascido na década de 1960, o restaurante Dinho’s está hoje entre as melhores casas de São Paulo. Exemplo disso foi a revista Go Where Gastronomia e a Rádio Jovem Pan, que selecionaram os melhores estabelecimentos de acordo com a opinião de seus leitores e ouvintes, destacá-los em Feijoada, na edição de 2013. “Com isso, conseguimos conquistar um público fiel e dividido em executivos, empresas e turistas durante a semana e familiar aos fins de semana”, afirma Paulo Zegaib, diretor do estabelecimento.

“Nós nunca vimos problemas relacionados ao fato de os clientes tirarem fotos, tanto dos pratos quanto do ambiente. Nosso trabalho é feito exatamente com o objetivo de ter a melhor apresentação possível no Buffet e nos pratos à la carte”, explica Paulo Zegaib. Ele diz que, mesmo antes de a máquina digital existir, o hábito de fotografar já era evidente, “principalmente dos turistas, além de ser uma ótima divulgação do nosso trabalho”, completa. Seu pai, Fuad Zegaib, fundador do Dinho’s, não acredita nos argumentos dados pelos restaurantes de Nova York: “os motivos alegados não são válidos, pois essas atitudes não são, definitivamente, agressivas”.

Para o dono, “compartilhar fotos de pratos, do ponto de vista do consumidor, pode ser bom também para o estabelecimento receber o feedback. É importante, pois podemos analisar a qualidade de nossos serviços e melhorar algo que não esteja bom, atraindo novos clientes”.
Desde que a atitude não atrapalhe os outros visitantes, seja por conta do flash ou pela forma como o fotógrafo se comporta, Paulo Zegaib fala que o restaurante está sempre aberto ao foodstagram, e que até o momento não houve nenhuma situação de excesso nesse sentido. “Acontece aqui diariamente. A partir do momento em que você confia no próprio trabalho, o hábito é benéfico e uma grande forma de divulgação”. O diretor afirma, ainda, que essa moda já pegou e que outros estabelecimentos, com os quais teve a oportunidade de conversar sobre o assunto, também concordam que é positivo.

Boa apresentação

Everton Veber e Daniel Becher tiveram a ideia de reunir suas aventuras gastronômicas na internet ao perceberem que precisavam de um lugar para compartilhar suas opiniões. Antes, já haviam passado por muitos estabelecimentos e dividiam suas experiências com os amigos por outros meios como mensagens de celular, ligações ou e-mail. Foi assim que nasceu o blog Comideria.
A linha editorial do Comideria deixa claro que os seus donos não têm a intenção de se tornarem críticos da gastronomia, embora tenham “mais tempo de restaurantes que urubu de voo”. O objetivo é ter a liberdade de realizar o trabalho sem se preocupar com critérios especificamente técnicos, mas sem deixar o bom senso de lado, é claro. O resultado são 1,6 mil visitas diárias, quase 50 mil mensais.

O blog não publica textos e imagens de outros sites e segue as seguintes diretrizes: os jovens não se identificam como blogueiros e não conversam previamente quando vão a visitas; usam câmera pessoal portátil, móvel ou semiprofissional para fazer as fotos que vão acompanhar os textos e não aceitam imagens de divulgação institucional do estabelecimento; não há publicação quando o local não apresenta pontos positivos que se sobressaiam aos negativos ou não houver vontade de voltar uma segunda vez, mas existem exceções; todas as visitas são custeadas por eles e os brindes, cortesias, convites e presentes são identificados como tal; além disso, eles respondem todos os contatos de leitores ou restaurantes.

O administrador de redes Daniel Becher não concorda com a proibição norte-americana. “Eu acho bobagem. Não acredito que haja incômodo quando alguém na mesa do lado tira fotos de comida. Mas respeito a decisão da casa, chef ou proprietário. Se ele não quer que tire fotos, eu não tiro. E não vou lá. A não ser, é claro, que a pessoa esteja batendo fotos com flash e fazendo algazarra, mas aí não é uma questão da prática em si, e sim de bom senso”, enfatiza.

Para ele, clientes ativos nas redes sociais e que gostam de compartilhar esses momentos e assuntos podem evitar os locais que adotam essa política. “A perda direta nesses casos nem é tão grande, a maioria só respeita e não faz as fotos pra colocar nas redes sociais. Mas ele deixa de ganhar com a indicação, com o boca a boca, por exemplo, que chega a ser como um aval, uma recomendação de visita ao local”, completa.

Becher compara o possível incômodo ao fato de cantarem parabéns a um aniversariante, “ninguém proíbe aquela breguice”, explica. De acordo com o blogueiro, o boca a boca é o marketing mais seguro e lucrativo para um restaurante e as imagens, além de ilustrarem e avalizarem, nas redes sociais, agilizam o que antes levava tempo para acontecer. “Além do mais, estando sujeito a uma foto, é mais difícil de um lugar servir um prato mal apresentado”.
Para um trabalho como o do Comideria, as fotos são indispensáveis, segundo Becher. “Sem mostrar o ambiente, a entrada e, principalmente, a comida, não tem como fazer uma avaliação totalmente idônea. É preciso da imagem pra garantir o que está escrito, ela dá credibilidade ao que a gente fala e recomenda”.

Ele diz que a foto é importante porque toda opinião é relativa. Se ele fala que em um restaurante come-se bem por um preço justo, isso pode não se aplicar a outra pessoa. “A fotografia não deixa mentir ou não dá falsas ilusões do que realmente estamos contando. Sobre a qualidade, é difícil garanti-la, mas tendo como base uma imagem fica mais fácil de alguém escolher seguir ou não a sua indicação”.

O blog está no ar há dois anos e meio e “nesse intervalo nós já fizemos reviews de cerca de 350 restaurantes. Também recebemos, aproximadamente, vinte convidados, que já escreveram sobre seus estabelecimentos favoritos em pelo menos sete estados do país, mais focados em Santa Catarina. Temos uma parceria com um portal de um grupo de comunicação local e existem alguns projetos de vídeo para 2014”, afirma o blogueiro. Eles recebem convites para visitar espaços com lançamento de cardápio ou para mostrar as casas novas.

Os leitores, conforme Becher, querem conhecer lugares novos, saber se os preços estão de acordo com as suas possibilidades, se a refeição é gostosa, se o atendimento foi perfeito. “Alguns, inclusive, fazem a primeira visita e nos indicam para darmos a nossa opinião, eles são a nossa principal fonte de informações para restaurantes a serem visitados”. O feedback dos leitores, diz Becher, em sua esmagadora maioria, é bom. “Até porque costumamos fazer análises positivas sobre os lugares. Nos casos em que as visitas são frustrantes, raramente publicamos”, completa.
Propaganda gratuita

“O Destemperados nasceu da necessidade que tínhamos de falar de consumidor para consumidor. Existimos há quase sete anos e na época ninguém se atrevia a falar de experiência gastronômica ou fotografá-las. Isso era trabalho para críticos, especialistas em distinguir tudo em um simples prato de comida. Davam notas e determinavam se um restaurante sobreviveria ou não”, conta Lela Zaniol, uma das idealizadoras do site.

Segundo Lela, o objetivo dos criadores era ir além e “a internet tornou isso possível. Com uma câmera fotografávamos nossas refeições para ilustrar e contávamos a experiência, sem avaliar (não avaliamos nunca), apenas contávamos sobre o ambiente, a comida, o clima, enfim, uma dica de amigo que é legítima e inspira”.

No início eram apenas três sócios (Lela Zaniol, Diogo Carvalho e Diego Fabris). Quando perceberam que haviam construído uma marca que se identificava com os consumidores, porque o trabalho com imagens interessava, e estavam engajados completamente na causa, decidiram recrutar um time, atualmente com mais de 100 Food Hunters, que buscam experiências como essas no mundo, inclusive por meio da fotografia. “Hoje estamos em 15 estados no Brasil, no Uruguai e na Argentina. Nós pagamos a nossa conta e só falamos de quem gostamos, caso contrário, ficamos quietos e seguimos a vida. Se valer a pena, publicamos. Simples assim. O que começou tímido, hoje emprega pessoas, paga impostos, gera receita e segue nos rendendo quilos a mais”, comemora.
Trabalhando com o conceito multiplataforma, ou seja, gerando conteúdo pelo site, pelas redes sociais, guias impressos, programas em rádio e aplicativos mobile, atualmente o Destemperados tem, mensalmente, cerca de 250 novos relatos, 200 mil acessos únicos e 550 mil page views.
Como diz a escritora, afinal, quem não gosta de propaganda gratuita? “De vez em quando, ficamos sabendo de restaurantes pequenos ou mais escondidos que aumentaram o movimento em função do nosso site e isso é muito legal, porque eles não teriam, normalmente, tanta chance. Isso nos dá um orgulho enorme”, completa. Portanto, também nesse sentido, fotografar as refeições não apenas divulga os estabelecimentos já consolidados, mas também aqueles que ainda estão crescendo, alavancando seus negócios.

E quanto à atitude de Nova York, o que pensa a sócia do Destemperados? “É uma grande bobagem. Não fotografar usando flash é uma questão de bom senso. Qualquer proibição é inútil, principalmente quando se trata de uma experiência gastronômica, cuja ideia é justamente curtir o momento – e para algumas pessoas fotografar os pratos já faz parte disso”, afirma.
Para Lela, um indivíduo que fotografa usando equipamentos grandes, flash ou faz as outras pessoas da mesa esperarem é tão inconveniente quanto um que fala muito alto, um casal que discute em público ou trata mal o garçom. E ela ainda diz mais. “Sem contar que as imagens atraem e servem como material de divulgação para os estabelecimentos. O famoso boca a boca agora é digital”.

Lela não concorda que a prática interfira no momento de degustação, se feita do jeito certo. “Tirar foto da comida e postar nas redes sociais é um hábito de muitos e, se realizado de forma adequada, não interfere em nada para os outros clientes do local”. Mas “se a criatura ficar horas fotografando o prato antes de comer, a refeição estará fria e isso é um fato. Tem que ter noção. Se quiser fazer uma imagem, que faça sem comprometer o todo da experiência. Tem que respeitar o trabalho do staff do estabelecimento que preparou os pratos para que sejam apreciados”, enfatiza.

Para os restaurantes que desenvolvem um trabalho eficiente e qualificado e se preocupam com isso, as fotos só agregam, de acordo com Lela. “Elas divulgam e promovem as refeições de maneira espontânea e em tempo real. Eventualmente, alguém vai sair insatisfeito, mas proibir a atitude não impede ninguém de reclamar por meio da rede social ou falar mal, seja onde for”, diz. De qualquer forma, a sócia do Destemperados acredita que todo feedback é válido, mesmo as eventuais críticas. “São essas informações que dão ao restaurante a oportunidade de evoluir”.
Mesmo adotando a medida, de acordo com Lela, os clientes não abandonarão o local. “Se a comida for boa ninguém vai deixar de ir. Essa proibição só prejudica os restaurantes que não vão receber publicidade genuína e gratuita do próprio público. Além disso, nosso trabalho é muito visual. Nós estamos mapeando o país gastronomicamente e muitas vezes as imagens são mais importantes que o texto. Por exemplo: posso descrever um pastel, mas uma foto de um belo pastel deixa qualquer um com água na boca. E a prova está ali”.

Ela explica que a foto é extremamente importante para o trabalho do seu site, o que os fizeram criar a plataforma #instafood, missões patrocinadas por marcas que querem se relacionar com o público da página nas redes sociais. “Funciona como uma grande brincadeira, na qual criamos um tema e lançamos o desafio. Então, durante alguns dias, as pessoas publicam imagens relacionadas ao assunto escolhido. As fotos que consideramos mais bacanas, ao fim do período, são publicadas no nosso perfil no Instagram, na fanpage do Facebook”, afirma. Pode até parecer bobo, de acordo com ela, mas a hashtag  #instafood já possui mais de 14 milhões de fotos. “Para as marcas interessadas em dialogar com o site, nós somos um ótimo caminho”, finaliza.

Para conter excessos

Em 2006, Sílvia Oliveira criou, com o objetivo de compartilhar informações de viagens e realizar os sonhos dos viajantes, o blog Matraqueando. “Vida de estudante, com pouco dinheiro e querendo conhecer o continente inteiro”, é o que ela define como fatores que a motivaram. É jornalista e editora do blog, Mestre em Turismo Internacional pela Universidade de Las Palmas de Gran Canaria, Espanha, autora de cinco guias de viagem e presidente da ABBV – Associação Brasileira de Blogs de Viagem.

Ela vê a medida novaiorquina como uma tentativa apenas de conter os excessos para evitar que um cliente use flash abusivamente ou suba na cadeira para conseguir o ângulo perfeito. “Mas tirar o celular da bolsa e clicar discretamente o que você vai comer não incomoda ninguém. Vivemos a era do compartilhamento, seja de uma foto ou de uma ideia. Não se trata de ir contra esse movimento, mas criar parâmetros que evitem um ataque de falta de noção do cliente”, opina.

“Para quem trabalha com um site de viagens e comidinhas como eu, muitas vezes a foto fala mais do que o texto. Quando o ambiente está iluminado é possível garantir boas fotos do prato rapidamente, sem sair da cadeira. Já fotografei prato dentro da cozinha porque havia mais luz. Mas isso, claro, é um caso especial de quem vai a trabalho. E todos os lugares sempre foram muito receptivos comigo. Estabelecimentos inteligentes sabem conduzir essa ‘mania’ e tirar proveito disso”, acredita a editora do Matraqueando.

Segundo ela, as fotos utilizadas nos compartilhamentos trazem pontos positivos ao estabelecimento, como a melhora da apresentação dos pratos, por exemplo. “E não estou falando só de alta gastronomia. Sempre vai render uma imagem interessante e espontânea, mesmo que ela não tenha muita qualidade. É uma propaganda autoral, sem a interferência do restaurante. Trata-se do famoso boca a boca, a publicidade mais eficiente que existe”, afirma.

A blogueira não faz publicações patrocinadas porque gosta de contar a sua experiência. “Se ela não foi tão boa, não dá para execrar o estabelecimento, mas comentar que, talvez, eles não estivessem no melhor dia”. Sílvia ainda explica que muitos donos e gerentes dos restaurantes deixam mensagens no blog agradecendo a oportunidade e até oferecendo descontos aos leitores, estabelecendo uma relação saudável. O sucesso é visível. “Temos mais de 1200 posts publicados e cerca de 400 mil visualizações por mês”, conta a jornalista.

Sílvia concorda com a medida nos casos excessivos, mas a inibição da fotografia pura e simples não é benéfica, para ela “justamente por ser uma ação que é desarmônica com a era em que vivemos. Isso pode fazer com que os clientes pensem duas vezes antes de ir aos locais proibidos, porque, em tese, isso inibe sua liberdade de expressão”, alerta.

Recomendação

Joaquim Saraiva de Almeida, presidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), discorda da medida. “Eu não vejo nenhum problema em fotografar o prato em um restaurante, por duas razões: primeiro, porque eu gosto de fazer fotos do que eu estou saboreando e, muitas vezes, até mandar uma mensagem para um amigo ou recomendar a ele esse prato. Segundo, porque as imagens das refeições normalmente já estão nos sites, cardápios ou até divulgações do próprio restaurante, ou seja, estão abertas. Então, eu não vejo motivos para proibir”, explica.

Ele ainda salienta que, caso o compartilhamento das imagens aconteça de maneira negativa, o fato de inibir as fotografias não evita a repercussão. “Se o cliente não gostou da comida e sair insatisfeito, isso aconteceria de qualquer forma. Mas, na maioria das vezes, o compartilhamento acontece porque o cliente gostou do prato e, portanto, não deixa de ser uma recomendação”, completa.

Na hipótese de os estabelecimentos brasileiros adotarem essa política, Almeida diz que isso deixaria o próprio público infeliz. “Seria uma medida que inibiria a livre iniciativa das pessoas, afinal a gastronomia faz parte do lazer. Quanto mais o cliente se sentir em casa, melhor. O que queremos é que eles fiquem à vontade”.

De acordo com ele, nenhum argumento pode explicar a proibição. “De repente, um barulho ou alguma gritaria atrapalham muito mais. O flash, inclusive, aparece quando há alguma comemoração no ambiente e os presentes estão registrando. Mas, uma prova de que não é tão ruim assim, é que as mesas ao lado costumam até participar do momento, cantando parabéns e batendo palmas”, finaliza.

Dinho’s
www.dinhos.com.br
Comideria
comideria.com
Destemperados
www.destemperados.com.br
Matraqueando
www.matraqueando.com.br
Abrasel
www.abrasel.com.br

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