Bem-estar: Alimentos podem ser remédios?

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Tema ainda é bastante questionado pelos profissionais da saúde, apesar de a prática do uso da alimentação como medicamento ser uma tendência

“Que o seu remédio seja o seu alimento e que o seu alimento seja o seu remédio”, disse o filósofo grego Hipócrates (460 a.C.-375 a.C.). Ou seja, muito antes dos avanços da medicina, que teria sido iniciada exatamente pelo mesmo filósofo. Talvez por isso, em pleno século XXI, uma pergunta que ainda não tenha uma resposta exata é: os alimentos podem ser considerados remédios?

De acordo com Valéria Andrade, nutricionista comportamental da Clínica Penchel, “para responder a essa questão, precisamos antes conceituar nutriente, alimento e comida. Os nutrientes são substâncias químicas presentes nos alimentos, que, por vezes, são isoladas para preparar suplementos alimentares industrializados. É a matéria-prima para a construção e manutenção do nosso organismo. Alimento representa a dimensão concreta que apresenta cor, forma, aroma, textura e gosto. Os alimentos são extraídos da natureza e são de origem vegetal e animal. É aquilo que sai da natureza e vai para a panela. Comida compreende a dimensão sociocultural da alimentação. Ela não representa apenas os nutrientes presentes nos alimentos, mas o alimento que podemos ou não comer, a forma como preparamos e comemos esses alimentos, entre outros aspectos. É aquilo que sai da panela e vai para o prato. Assim, considerando esses conceitos, a meu ver, os alimentos não podem ser considerados nem remédios, nem venenos, mas os nutrientes sim, visto que são eles que desempenham funções vitais no nosso corpo. Se serão remédio ou veneno, dependerá de situações metabólicas específicas. Não podemos generalizar”, pontua.

Kênia Leize é nutricionista da Cronos Medicina Diagnóstica e acredita que os alimentos podem, sim, ser considerados remédios. “Podem, sim, pois o que você come influencia sua saúde, reflete em sua imunidade, diminui as chances de ficar doente e ajuda na recuperação mais rapidamente. Os alimentos funcionais são considerados promotores da saúde e podem estar associados com a diminuição dos riscos de algumas doenças crônicas, como aveia, centeio, cevada, farelo de trigo, tomate, uva, couve-flor, brócolis, linhaça, hortaliças, leite fermentado, entre muitos outros”, afirma.

Já Luciana Lancha, nutricionista e membro da Comissão de Comunicação da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), avalia que “essa questão de considerar os alimentos como medicamentos é um pouco complicada, porque os medicamentos têm efeitos muito diferentes dos alimentos. Obviamente, a alimentação é fundamental no tratamento de uma série de doenças, o que não quer dizer que ela pode ser considerada um remédio. Então, se você pega, por exemplo, uma pessoa que é diabética e precisa de insulina, mas não toma insulina e tenta controlar isso só com alimentação, isso não vai dar certo. A pessoa pode chegar a falecer. Em várias outras situações e doenças, os remédios são essenciais. E o alimento em hipótese alguma substitui um medicamento. Por outro lado, quando você tem uma Diabetes tipo dois, por exemplo, em que a pessoa não é dependente da insulina, muitas vezes, com uma alimentação equilibrada e atividade física, a pessoa consegue controlar bem essa glicemia. Mas isso não quer dizer que é o alimento que está fazendo o papel de resolver esse problema de captação de glicose. É um conjunto de coisas. É uma alimentação saudável, com estilo de vida saudável e prática de atividade física”, explica.

Tendência

Apesar da questão de os alimentos serem ou não considerados remédios ainda ser bastante questionada por alguns profissionais da saúde, a prática de usar a alimentação como uma forma de tratamento de diversas enfermidades já se tornou uma tendência. Afinal, há alguns anos, os cientistas já afirmavam que tudo que o corpo necessitava para funcionar bem eram proteínas, carboidratos, minerais, gorduras, vitaminas e água. Porém, atualmente e com maior frequência, a importância dos valores nutricionais encontrados de forma superpotente nas frutas e vegetais, os chamados fitoquímicos, vem sendo reconhecida. Trata-se de uma pesquisa ainda inicial, mas que vem gerando novas descobertas, como o fato de a soja e o repolho passarem a ser classificados pela ciência como potenciais “salva-vidas”.

Michael Greger é médico clínico-geral americano e um dos maiores especialistas em nutrição da atualidade. Ele já publicou quatro livros em defesa do uso dos alimentos como remédios, incluindo o best seller “Comer Para Não Morrer”. Em suas obras, o especialista trata do que há de mais recente e inovador em nutrição e faz afirmações bastante interessantes, como a de que “os genes são responsáveis por cerca de 20% das doenças crônicas comuns. Os outros 80% são provenientes de como vivemos e, principalmente, de como comemos”.

Para Andrade, da Clínica Penchel, “essa tendência vem se firmando devido a dois motivos principais. A começar pelos estudos em nutrição que, de forma geral, atribuem um sentido ao comer predominantemente biológico e desvinculado das questões sociais acerca do alimento e do ato de comer. A nutrição e a dieta são concebidas de modo a darem maior atenção ao funcionamento do corpo,
não considerando todas as dimensões que envolvem a alimentação humana. E, segundo, a atuação da indústria alimentícia e farmacêutica, que cresceu muito nos últimos tempos, apoiando e financiando pesquisas, participando de eventos voltados para nutricionistas e comercializando suplementos nutricionais, com intenso processo de marketing”, diz.

Leize, da Cronos Medicina Diagnóstica, acrescenta que, hoje em dia, “a população está tendo mais acesso às informações e entendimento da importância de uma alimentação saudável para prevenir e amenizar problemas de saúde. O Brasil é o quarto país colocado em consumo de alimentos saudáveis no ranking global”, ressalta.

Benefícios e riscos

Segundo Lancha, da SBAN, “existem alguns nutrientes que exercem funções importantes no corpo humano. Como, por exemplo, a creatina na prevenção da perda de massa muscular e envelhecimento. Mas, ainda assim, isso não pode ser considerado um medicamento. Ela não tem uma ação medicamentosa. Ela vai permitir que o indivíduo consiga se manter melhor, mais ativo e fazer, por exemplo, um treino mais eficiente para que esse treino tenha um resultado esperado. O que não quer dizer que a creatina, por exemplo, em hipótese alguma, funcionaria como um medicamento”, enfatiza.

Andrade, da Clínica Penchel, partilha que “entendo como benéfica a possibilidade de tratar doenças apenas com a alimentação, sem recorrer a medicamentos, visto os possíveis efeitos colaterais e impacto econômico na aquisição desses na vida do indivíduo. Há situações onde a doença em questão é causada por alergia ou intolerância a algum nutriente ou o corpo não tem ou perdeu a capacidade de processar esse nutriente. Nesses casos, às vezes, a simples diminuição ou retirada dessa substância da dieta já resolve a situação. Exemplo disso é o Diabetes, em que a restrição de alimentos fontes de glicose, por vezes, controla a doença, sem a necessidade de administrar insulina ou remédios hipoglicemiantes”, exemplifica.
No entanto, a nutricionista comportamental alerta que “há situações em que apenas a atenção com a alimentação é suficiente. Em outras, porém, é necessário aliar alimentação adequada ao uso de medicamentos, além de bons hábitos de vida. E não vejo nada de errado em usar terapias complementares para se atingir o melhor resultado possível na saúde das pessoas. Considero que essa prática seja deletéria à saúde a partir do momento em que medicamentos sejam realmente necessários para a manutenção da saúde, mas sejam negligenciados. Ou seja, tentar alcançar um estado de saúde somente pelos alimentos, quando a situação exige o uso de drogas específicas”.

Leize, da Cronos Medicina Diagnóstica, conclui que “em determinados problemas de saúde, é necessário o uso de medicamentos. Então, nada melhor que, antes de tirar uma medicação, conversar com seu médico (que fez a prescrição) e nutricionista para alinhar o melhor tratamento para cada caso. Os alimentos funcionais (frutas, legumes e verduras, assim como grãos integrais, leguminosas, nozes e sementes) são exemplos de alimentos nutritivos carregados de fitonutrientes (substâncias bioativas encontradas nos vegetais), que podem reduzir o risco de câncer, doenças do coração, hipertensão e outras doenças crônicas. Esses alimentos são compostos fundamentais para o bom funcionamento do organismo. Mas os malefícios podem ocorrer, caso não tenha acompanhamento com o médico e nutricionista e o paciente fizer por conta própria, sem as recomendações necessárias, respeitando sua individualidade e sua patologia”, indica.

Cronos Medicina Diagnóstica
www.cronosendoscopia.com.br
Clínica Penchel
www.clinicapenchel.com.br
Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN)
www.sban.org.br

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