Auto-suficiência no petróleo e na alimentação

0

No mesmo período em que o Brasil conseguiu uma das maiores conquistas de toda a sua história: a independência no Petróleo, fomos pesquisar como funciona o serviço de alimentação nessas plataformas flutuantes sobre os mares. Com os recursos de hoje os serviços prestados por empresas de refeições chegam a todos os lugares e onde houver um ser humano a alimentação será necessária.

Ao alcançar a marca de 1,9 milhões de barris extraídos por dia, a Petrobras se torna capaz de suprir todas as necessidades nacionais de petróleo. A empresa prevê de 2006 até 2010 um investimento de U$ 56,4 bilhões, que vai permitir explorar, ser auto-suficiente e até exportar o produto. Além disso, a Petrobras já descobriu outras áreas de produção de petróleo que podem trazer um crescimento ainda maior para o setor.

No Brasil, já existem diversas empresas que especializaram seus serviços para atender o segmento de offshore – off (fora) shore (terra)-serviços realizados em alto-mar. A América Catering, por exemplo, é uma das mais antigas do setor e está em funcionamento desde 1975. Já atuou em vários estados brasileiros, e hoje concentra suas atividades, nas Bacias de Campos (Macaé/Rio de Janeiro e Vitória/Espírito Santo) e de Santos (Itajaí/Santa Catarina).

Seus serviços começaram a ser prestados para a empresa norte-americana Penrod Drilling, que na década de 70 e 80, iniciou no Brasil com cinco unidades marítimas. Hoje, ela integra o grupo Catemar, de Portugal, trabalha em 18 plataformas, e tem como clientes a Pride, Transocean, Brasdril, Queiróz, Galvão e Petroserv. Segundo o diretor geral da América Catering no Brasil, Carlos Jacques, o faturamento é cerca de 30.000.000 por ano e se tornou um ramo interessante para investir. “Sendo uma atividade ligada à indústria Petrolífera pode-se dizer que é um segmento em alta, onde todos sabemos a importância do petróleo atualmente e os preços atingidos nos mercados internacionais. No entanto, há muita concorrência e algumas vezes a prática de preços abaixo do mercado, causa distorções na nossa atividade”, explica.

A Marfood, empresa que também presta serviços em plataformas, tem o seu trabalho concentrado em empresas multinacionais e estrangeiras, que atuam hoje, em conjunto com a Petrobras. Ela presta seus serviços na Transocean, Shell do Brasil e Schahin Engenharia com um faturamento anual de 15 milhões de reais e tem visto o setor petrolífero como um pólo de investimentos. De acordo com o seu diretor financeiro, Marlucio Souza da Silva, depois da abertura e regulamentação do mercado, que possibilitou a entrada de diversas empresas multinacionais e criou metas maiores para a Petrobras, as Bacias de Campos, Vitória, Santos, Norte e Nordeste, geraram investimentos na construção de novas unidades de prospecção e produção, o que projetou um aumento de pelo menos 70% no segmento de hotelaria marítima e planeja para cada empresa petrolífera um faturamento de R$ 60 milhões.

Apesar de tantas aplicações quem pretende investir no setor de alimentação tem de tomar algumas precauções. “Um investimento a partir do zero, torna-se complicado pela exigência do mercado em solicitar experiência prévia no segmento. A própria Petrobras contabiliza este quesito em sua avaliação”, explica Marlucio. A solução que ele mesmo indica é a de iniciar no setor através de uma associação ou formação de joint-venture com as empresas já instaladas no mercado, o que pode criar um clima favorável para o desenvolvimento de vantagens competitivas de forma conjunta.

Funcionamento

Na verdade quem assume o serviço de alimentação dentro de uma plataforma, também fica responsável pelo serviço de hotelaria da mesma. “Tudo funciona como um verdadeiro hotel, com o preparo de alimentos e refeições em diversos horários (praticamente vinte e quatro horas), trocas de roupa de cama, limpeza de camarotes e serviços de lavanderia”, diz o diretor.

A empresa que faz esse serviço dentro das plataformas da Petrobras é a De Nadai, que procurou diversificar seu portifólio e em 2001 se tornou apta para prestar suas atividades nas unidades. Ela é responsável por seis plataformas e tem um faturamento anual de 10 milhões. “São servidas quatro refeições principais, desjejum, almoço, jantar e ceia, além disso, quatro lanches nos horários de 03:00, 09:00, 15:00 e 21:00 horas”, explica o diretor regional da empresa, Luis Camilo. Segundo ele, a De Nadai é responsável pela hospedagem, limpeza de quartos, lazer – o que engloba a manutenção das quadras de esportes e fornecimento de materiais esportivos – musicais e eletrônicos, lavanderia, rádio, telefonia, recepção e toda a alimentação.

Cardápio

As refeições são montadas com base no que foi definido em contrato e é levado em consideração a nacionalidade e hábitos dos comensais. “Normalmente, existem algumas obrigações contratuais e obrigatórias em um determinado período de tempo semana e/ou quinzena – também têm importância, a confecção do cardápio e a disponibilidade de insumos em estoque no momento requerido”, comenta Marlucio.

As atividades exercidas por cada funcionário das plataformas são uma das características na escolha dos ingredientes para sua alimentação. “O departamento nutricional define as refeições de acordo com as necessidades nutricionais das diversas atividades existentes na unidade, balanceando proteínas, lipídios, glicídios, vitaminas, sais mineirais e outros”, complementa o diretor geral da América Catering.

Principais Dificuldades

Como marinheiros e desbravadores que passavam meses e até anos no mar, a vida de quem trabalha nas plataformas continua com algumas dessas características. De acordo com a Lei n.º 5.811/72, os funcionários têm direito a jornada de 12 horas de trabalho por 12 horas de descanso, em escala de 14 dias embarcado por 14 de folga. “Do ponto de vista do funcionário, o alto risco da atividade, o deslocamento longo de helicóptero e a distância de casa são as maiores desvantagens desse serviço”, opina Camilo da De Nadai.

A bordo estão nutricionistas, comissários, cozinheiros, padeiros, ajudantes de cozinha, açougueiros, garçons (saloneiros), técnicos de manutenção, auxiliares administrativos, rádio telefonistas e auxiliares de serviços gerais. “Há um grande obstáculo na prestação do nosso serviço proveniente da falta de mão-de-obra qualificada, que possa dar garantias de bom desempenho, para além da distância e dificuldade de acesso às plataformas onde operamos”, ressalta Carlos Jacques. Segundo ele, todos os colaboradores recebem adicional de periculosidade (30%), com fulcro nas normas coletivas, adicional de repouso e alimentação (32,5%), produtividade (5%) e anuênios, tendo em algumas funções, adicional de sobreaviso (20%).

Os gastos na atividade também são muitos. Respectivamente com insumos, pessoal, manutenção e certificação dos materiais utilizados para embarque desses insumos, através de eslingas e containers e toda a administração de estoques. “ A sazonalidade de produtos, quebra de safras, ou seja, qualquer alteração no mercado de gêneros alimentícios/commodities são nossas maiores dificuldades”, comenta Marlucio. A perecibilidade dos gêneros utilizados, prazo de validade, acondicionamento e transporte até as unidades de exploração também são outras rochas no caminho.

Tecnologia

O que falar de uma tecnologia maior do que uma plataforma em funcionamento dentro do oceano? Além de todas essas características, as empresas que prestam os serviços de alimentação a bordo dessas gigantes dos mares, também possuem algumas informatizações para facilitarem suas atividades.

A Marfood, por exemplo, utiliza programas de informações gerenciais para controle das necessidades e insumos básicos a cada um dos contratos dentro das unidades de exploração, além de tecnologia para a administração de estoques.

As empresas também direcionam a informatização para outros propósitos, principalmente quando se fala de um trabalho de risco. “ Digamos que comparando com a tecnologia utilizada a bordo das plataformas, a nossa é bem tradicional, mas em termos de equipamentos e acima de tudo isso, em sistemas de segurança, estamos sempre a atualizar, no intuito de salvaguardar a segurança e integridade física dos nossos funcionários”, explica Carlos Jacques.

Os softwares utilizados dentro das plataformas são os mesmos que as empresas usam para prestar seus serviços fora das unidades, pois o sistema é on-line e nesse caso não há diferenciação. Para o diretor de base da De Nadai, a maior tentativa de inovação hoje, fica por conta dos congelados. “Estamos utilizando molhos e alguns pratos experimentais congelados, produzidos na nossa cozinha central em Santo André, São Paulo”, explica.

Quando o produto é congelado e pré-processado, ele tem sua sazonalidade aproveitada e o desperdício é menor. “De todos os tubérculos e folhas “in natura” que viajam nos containers para as plataformas, o que é aproveitado chega a 50%”, diz Camilo. Porém, optar por alimentos com essa variedade custa muito mais caro, principalmente no Brasil, onde há poucos processadores de alimentos, o que dificulta investir nesse sistema.

Os insumos são transportados, algumas vezes, num período de 11 horas até as unidades, cobertos por camadas de gelo e depois são selecionados os que servem para consumo. A perda de alimentos é enorme, além de diminuir a qualidade do produto. “A De Nadai em conjunto com a Petrobras está tentando investir na tecnologia dentro dos containers, e planeja ligar os rebocadores à baterias que forneçam energia e façam dos containers espécies de geladeiras”, comenta Camilo. Além disso, a região de Macaé é hiper-quente o que torna a deterioração muito mais rápida.

E apesar de todas as tentativas de se adequar melhor ao serviço em alto-mar, as empresas de refeições e hotelaria encontram bastante resistência às inovações, pois os comensais e, além disso, brasileiros, não têm hábitos alimentares que os satisfaçam com comidas congeladas.•

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

9 + sete =