Amor às raízes

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Food Service News: De onde surgiu a ideia de criar restaurantes de alto padrão no centro de São Paulo?

Walter Mancini: Tenho 68 anos e sempre morei no centro de São Paulo. Com 18 anos sai de casa, e continuei a morar no centro. Eu acredito no centro. Em 1970 dei uma entrevista e disse que lutaria pelo centro, pois tudo acontece aqui, e, apesar, de muitas pessoas terem se mudado, eu fiquei.

FSN: É desse carinho que mantém pelo centro de São Paulo que surgiu a iniciativa de revitalizar a Avanhandava?

WM: Tenho grande carinho não somente pelo centro, mas pela Rua Avanhandava especificamente. É a primeira rua revitalizada do centro, e ninguém poderia fazer essa rua melhor que eu, afinal morei de favor nela. Dei uma palestra para 300 engenheiros sobre “como fazer uma rua”, e ousei dizer que nenhum outro homem poderia revitalizar esta rua com mais propriedade, pois entre nós havia um laço de amor e gratidão. E nela estão todos os meus negócios.

FSN: Qual foi seu primeiro empreendimento na Rua Avanhandava?

WM: Meu primeiro negócio foi a Famiglia Mancini, cantina, inaugurada em 10 de maio de 1980. Esse dia, 10 de maio, é sagrado para mim, porque muitas coisas boas aconteceram nesta data: a primeira vez que namorei minha esposa, o aniversário dela e o nosso casamento. Depois de 20 anos eu inaugurei o Walter Mancini, e em 2005 a Pizzaria Famiglia Mancini. Em seguida vieram o Camarim 37, a Loja de Design, o Central 22 – que está em reforma, porque terá passagem direta ao Madrepérola, meu novo empreendimento focado em comidas do mar.

FSN: Qual o segredo para tantos negócios de sucesso, praticamente uma rua inteira?

WM: Sou um sonhador, não corro atrás de moedas e sim de sonhos. A grande fortuna é tudo aquilo que você sonhou, amou e pode recordar. Aquele que tem a alma repleta de coisas para recordar é sim um homem rico.

FSN: Como você começou na gastronomia?

WM: Eu nasci no Brás, ao lado de muitas cantinas, como a Cantina do Marinheiro, Adega do Brás, Castelões, Ponto Chic entre outras. Lembro dos cantores das cantinas cantando pelas ruas antes e depois do trabalho. Quando fui trabalhar na noite, todas as boates na época tinham cozinha com chef, e cheguei a administrar uma boate que vendia 200 a 300 pratos em uma noite, a Tom Tom. Esses foram meus primeiros contatos com a gastronomia. Em 1981 criamos nesta boate a “Noite da Mama”, em que eu servia macarrão, e a Revista Manchete, que era muito conhecida na época, chegou a fazer uma reportagem sobre como eu conseguia lotar uma casa com 500 pessoas, em plena segunda-feira.

FSN: O trabalho com boate foi seu primeiro ofício?

WM: Na verdade meu primeiro ofício foi pintar peões de brinquedo, com esmalte, e fazer pipas, ainda garoto. Depois fui trabalhar em uma loja de discos com o Luiz Carlos Vassalo, na esquina da Galeria do Rock. Quando ele entrou no ramo de discotecas me levou junto, e eu trabalhava como uma espécie de coringa nas casas.

FSN: A decoração das suas casas é bem diferenciada, e é toda de sua autoria. Como explica essa diversidade?

WM: Eu me considero fora dos padrões, e esse é o resultado, mas gosto de ouvir a todos. Se alguém me dá uma sugestão escuto com alegria. Se as pessoas pudessem “me ler” veriam todos os amigos que tive, e o que tenho deles, por isso tudo que eu sou tem um pouco de cada um daqueles que passaram em minha vida, e trago isso para meus negócios.

FSN: Você se considera hoje um grande administrador da área de food service?

WM: Não diria que sou um administrador, ou gestor, pois não sei lidar com dinheiro. Em uma reunião um amigo falou que tinha um colega que tinha dinheiro que não acabava mais, então outro respondeu: “Coloca o dinheiro na conta do Walter que acaba”. Sou um empreendedor.

FSN: Como você concilia família e trabalho?

WM: Sempre morei perto dos negócios, e nunca tive regras de mesa posta e família sentada junta. Na minha casa não tem esse negócio de conciliar um almoço com todos juntos, cada um tem uma rotina, mas somos unidos. Certa vez almocei na casa do Fausto Silva e fui apresentado a uma família de Nápoles, e o pai me explicou que jantavam sempre juntos. Eu achei linda a tradição, mas isso não funciona na minha família. Sou casado e tenho três filhos, um rapaz e duas moças.

FSN: Qual foi o investimento feito por você na revitalização da Avanhandava?

WM: Na rua eu investi mais de R$1 milhão, quase R$2 milhões. A prefeitura disponibilizou um documento autorizando a revitalização, mas existem regras que tenho que seguir. O Cartão Visa doou R$475 mil para ajudar. Já para a reforma e restruturação das casas eu gasto, em média, R$3 milhões, pois há exigências da vigilância sanitária que tornam o investimento mais alto. Eu gosto de equipamentos de qualidade, e até para a decoração invisto em peças caras se forem de alta qualidade, por exemplo, só o piano do Restaurante Walter Mancini custa R$100 mil.

FSN: Você acredita que a cultura brasileira relativa à alimentação está mudando?

WM: Existe uma nova cultura, a consciência do alimento. Observo muito as bancas de jornais, e há 30 anos não existia um título de beleza ou fitness – sem ser, talvez, pugilismo. As coisas estão mudando, as pessoas procuram beleza e saúde nos alimentos, e cada dia mais se conscientizam que somos o que comemos. Até mesmo as mídias conceituadas, que antes se voltavam somente a política e economia, hoje falam de saúde – e muitas vezes tem mais público quando tratam destes assuntos.•

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