Um mercado estrelado

Quando fazemos um percurso muito longo, ficamos sem a noção do tempo e acabamos perdendo de vista o nosso ponto de partida.
Quem observa o mercado atualmente e se orgulha em pertencer a um segmento glamouroso e de grande expressão na economia não imagina que ele já foi “patinho feio” do varejo.

As pessoas não acreditam quando digo que nos anos 80, com 13 anos de idade, entregava pizza de bicicleta no bairro de Moema, em São Paulo, e que o pagamento pelo trabalho era composto por 2 pedaços de pizza e a caixinha ganha no dia.
Também é difícil acreditar que o consumo de vinhos do velho continente no Brasil começou a crescer de verdade somente no fim dos anos 80 e que um dos produtos responsáveis por isso foi um vinho alemão de garrafa azul.
Mais ainda, imaginar que no fim dos anos 90, o conceito de café espresso ou expresso era apenas uma promessa e que a maioria das pessoas só tomava café coado e em casa ou na padaria.

Como conceber, então, que os shoppings não tinham praça de alimentação e que operações internacionais que chegavam ao país no início dos anos 80 tinham que se estabelecer em locais destinados ao varejo de moda, e que na cidade de São Paulo nessa época não havia nem uma centena de restaurantes japoneses?

Espantoso também saber que somente em 1994 surgiu o primeiro curso de Cozinheiro Chef Internacional no país. Até então, os raros cursos disponíveis no mercado eram de natureza técnico-profissionalizante e seus participantes eram pessoas de pouca ou nenhuma instrução que em decorrência disso enfrentavam grande dificuldade no mercado de trabalho.

Este ano, o mercado brasileiro recebeu estrelas como nunca no almejado Guia Michelin, a maior referência e reconhecimento do conceito de alta gastronomia. Estamos cada vez mais inseridos em um universo que parecia muito distante.
Se considerarmos a brevidade de nossa história, principalmente quando comparada a dos países tidos como os “pais da matéria”, não restarão dúvidas de que ainda teremos uma constelação Michelin por aqui.

Parece até que o caminho foi curto, mas tem muito esforço de muita gente na construção da realidade que vivemos hoje e que começou bem antes da história que vivenciei e que posso contar.

Uma realidade construída por quem ama ou amou a gastronomia e a arte de “restaurar” acima de tudo e se dedicou a ela.
Um brinde a todos os profissionais que ajudaram e aos que ajudam a construir o que chamamos hoje de Food Service e parabéns aos estrelados de 2018.
Santé!

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