Tudo a Ver: Procura maior do que a oferta

Produtores de leite de búfala ainda não conseguem atender todo o mercado brasileiro

O preço do leite de búfala é mais que o dobro do que se paga pelo de vaca no Brasil. A procura ainda é maior do que a oferta no país. De acordo com Mariana de Almeida Prado, coordenadora do Programa de Certificação 100% Búfalo – Selo de Pureza da Associação Brasileira de Criadores de Búfalos (ABCB), o leite de búfala não é comercializado no Brasil, apenas os seus derivados. Por isso, a venda da bebida láctea é feita diretamente às indústrias para produção de queijos e outros produtos que, cada vez mais, ganham espaço.

Fundada em 1960, a ABCB possui cerca de 80 associados de todo o território nacional e tem como principal objetivo “incentivar a bubalinocultura brasileira, defendendo os interesses dos criadores de búfalos e promovendo a união de seus associados nas atividades que tenham como fim o aprimoramento técnico-científico da espécie e o incremento do mercado interno e externo”. O mensurado pela associação é que, atualmente, o rebanho bubalino no Brasil conte com cerca de 3 milhões de animais, representando 2% do rebanho bovino, com 150 milhões. Em torno de 30% das criações são destinadas à produção leiteira e, nos últimos anos, o rebanho leiteiro tem crescido a uma taxa de 45%.

Segundo Mariana, a média de produção diária de um produtor de leite de búfala é em torno de 1.950 litros. Ela ressalta que produzir e comercializar o leite de búfala requer várias diferenças em relação ao mesmo processo que envolve o leite de vaca. “O búfalo, como espécie, é um animal com qualidades genéticas próprias diferentes do bovino. Ele é mais resistente a doenças, por sua rusticidade, mas também é um animal sensitivo e que requer manejo com respeito para oferecer bem-estar”, explica.

Ela também fala da grande diferença nutricional que existe entre o leite de búfala e o de vaca. “As búfalas dão um leite com maior qualidade nutricional comparado ao leite de vaca. O leite de búfala possui a proteína beta caseína A2A2, que não produz alergia, como é o caso da proteína do leite de vaca, que possui a beta caseína A1 e A2, que é a proteína ligada ao aparecimento de uma série de doenças, como inflamações intestinais, e responsável pelo desencadeamento de alergias que muitas pessoas apresentam ao consumir o leite de vaca. Os búfalos não possuem a proteína beta caseína A1”, detalha.

Para a integrante da ABCB, a demanda em relação à produção do leite de búfala “sempre foi maior que a oferta, pois o queijo de búfala não é feito em grande escala”.
Francisco de Assis Veloso Junior, engenheiro agrônomo da Tapuio Agropecuária Ltda, localizada na cidade de Taipu, Rio Grande do Norte, concorda com Mariana, mas destaca à reportagem que há planos para mudar esse cenário. “O mercado ainda não é plenamente atendido. Porém, já fizemos um investimento de R$ 8 milhões nos três últimos anos na compra de uma ordenha rotatória totalmente automatizada e também para garantir a autossuficiência em energia com biogás e aerogerador. Além disso, estamos estabelecendo parcerias com produtores de leite de búfalas do estado de Pernambuco para o rápido incremento da produção. O esperado é dobrarmos a nossa atual produção até 2021”, conta o engenheiro agrônomo. Atualmente, a média de produção da Taipu Agropecuária Ltda é de aproximadamente 3 mil litros diários.

Ricardo Rodriguez, da Búfalo Dourado, separa o consumidor dos derivados de leite de búfala em “dois grupos mais significativos, sendo um de pessoas que se preocupam com uma alimentação saudável e o outro composto por aqueles clientes que apreciam produtos de qualidade e sabor elevados”

Já Ricardo Cotrim Rodriguez, um dos proprietários da Búfalo Dourado, primeira fabricante de mozzarella de búfala no Brasil, discorda ao afirmar que “acredito que a demanda e a oferta do produto está bem equilibrada neste momento, mas crescendo consistentemente. O maior problema em relação à oferta e demanda é o leite, que é mais abundante quando a demanda é mais fraca e escasso no momento de maior demanda, o que faz o preço do litro disparar”. Por mês, são utilizamos aproximadamente 100 mil litros de leite de búfala na Búfalo Dourado, sendo a grande maioria de produção própria. A fábrica e fazenda da empresa estão localizadas na cidade de Dourado, no interior de São Paulo.

Cuidados
Além do leite de búfala apresentar um valor nutricional diferente do leite de vaca, a produção da bebida láctea e seus derivados também requer cuidados especiais em relação ao processo de fabricação. Conforme Mariana, a búfala, para produzir mais leite, precisa de diversos cuidados diferentes da vaca, pois é um animal que não produz a mesma quantidade de leite que um bovino. Em contrapartida, ela ressalta que “a búfala é uma espécie que reproduz muito mais que a vaca. Ou seja, a vida útil de uma búfala é superior. Uma búfala bem manejada chega a produzir 15 crias, mas o bovino não chega a três. Além disso, o búfalo é muito eficiente para a sua alimentação, se alimenta da mesma coisa que o bovino, mas consome menos alimento”.

Junior, da Tapuio Agropecuária Ltda, trabalha com produção de leite de búfala e derivados desde o ano 2000 e demonstra ter uma compreensão um pouco diferente de Mariana ao afirmar que, “de um modo geral, as búfalas são menos produtivas. São animais mais rústicos, com menos problemas sanitários e reprodutivos, mas, como todo animal, precisam de um bom manejo nutricional para produzirem uma matéria-prima de boa qualidade”, pondera.

O engenheiro agrônomo acrescenta que a comercialização do leite de búfala “é muito semelhante a que é realizada com o leite de vaca, com acertos diretos entre as indústrias processadoras e os produtores. Os serviços de inspeção controlam tanto a qualidade do produto final quanto da matéria-prima, de modo a garantir que sejam ofertados produtos seguros ao mercado consumidor”. Ele ainda explica que o cenário ideal para o animal búfala produzir mais leite se caracteriza por “ambientes com água abundante, pastos de boa qualidade e locais sombreados e ventilados que facilitem dissipação do calor dos animais”.

Rodriguez, da Búfalo Dourado, destaca que, “diferentemente da mozzarella de vaca, a produção da mozzarella de búfala é feita praticamente do mesmo jeito há séculos, sem aditivos, conservantes ou corantes. Por esse motivo, o cuidado na fabricação e a pureza e o frescor do leite são determinantes para que os produtos resistam às gôndolas dos supermercados. Também é importantíssima uma logística rápida e eficiente para que o produto saia da fábrica e chegue aos pontos de venda o mais rápido possível, que, no nosso caso, é no dia seguinte da fabricação”.

Derivados
Muitos já são os derivados de leite de búfala produzidos no Brasil, como queijos, iogurtes e requeijões. Na Tapuio Agropecuária Ltda, por exemplo, toda a produção de leite de búfala é destinada à industrialização para a fabricação de queijos, sendo a mozzarella bola o carro chefe da empresa. “Produzimos também os queijos minas frescal, coalho, ricota, burrata, alla panna, provolone, mozzarella barra e manta”, conta Junior.

Os derivados fabricados pela Tapuio Agropecuária Ltda custam de R$ 30 a R$ 60/kg e, ainda de acordo com o engenheiro agrônomo da marca, “de uma maneira geral, são queijos com maior teor proteico, menos sódio, menos gorduras saturadas e duas vezes mais cálcio, quando comparados com os similares produzidos com leite de vaca”.

Junior também ressalta que o leite de búfala possui “50% mais sólidos, mais gorduras e mais proteínas, o que se reflete num melhor rendimento industrial. O leite dessa espécie é ainda hipoalergênico, podendo ser consumido por muitas pessoas que possuem restrição ao consumo de derivados de leite de vaca”.

A Búfalo Dourado começou a produzir mozzarella há mais de 30 anos e, segundo Rodriguez, um dos proprietários da empresa há cinco anos, uma linha de produtos zero lactose acaba de ser lançada. “Além disso, também produzimos requeijão, manteiga, queijo frescal, ricota, entre outros. Lançamos ainda o Grana Di Búfala, um queijo feito por meio do método tradicional do grana padano italiano e maturado por pelo menos 18 meses”, conta o empresário.

Perfil do consumidor
Para Mariana, da ABCB, o consumidor dos derivados de leite de búfala é exigente e se preocupa com sua alimentação, além de deixar o consumo para momentos especiais. “Somos um produto de nicho”, considera.
Junior, da Tapuio Agropecuária Ltda, concorda com a coordenadora e diz que os clientes são “aqueles preocupados com qualidade de vida e que buscam produtos saudáveis”.
Rodriguez, da Búfalo Dourado, partilha da mesma ideia, mas separa o consumidor dos derivados de leite de búfala em “dois grupos mais significativos, sendo um de pessoas que se preocupam com uma alimentação saudável e o outro composto por aqueles clientes que apreciam produtos de qualidade e sabor elevados”.

Selo de pureza
Com a crescente procura pelos derivados do leite de búfala no Brasil, também houve aumento dos casos de fabricantes que adicionam grandes quantidades de leite de vaca durante a fabricação do produto, inclusive, sem informar essa mistura nos rótulos. Ou seja, o resultado disso é uma verdadeira fraude.

Junior, da Tapuio Agropecuária Ltda, confirma que, em decorrência da demanda ainda ser maior que a oferta, existem muitos problemas de fraude no mercado de leite de búfala. Com isso, o engenheiro agrônomo diz que “acaba ocorrendo a comercialização de produtos mistos ou de vaca, como se fossem produzidos com puro leite de búfalas no país.”

Com o objetivo de combater exatamente essas imitações e falsificações, mas com ênfase na mozzarella de búfala, foi criado o ‘Selo de Pureza 100% Búfalo’, outorgado pelo Ministério da Agricultura e do Abastecimento à Associação Brasileira de Criadores de Búfalos em 2000. Atualmente, o selo tem como normatizadora e detentora da marca exatamente a ABCB, mas conta com uma Certificadora Independente, o Instituto Totum, que é a mesma entidade que realiza o gerenciamento da certificação do café no Brasil. O selo garante um alimento puro e isento de fraudes, uma vez que há monitorias anuais por meio de análise de DNA.

Segundo a assessoria de imprensa do Instituto Totum, a ampliação da certificação para todas as marcas que produzem derivados de leite de búfalas no país é, praticamente, uma meta diária para que o consumidor tenha a informação correta nas embalagens dos produtos mistos.

Associação Brasileira de Criadores de Búfalos (ABCB)
www.bufalo.com.br/abcb.html
Tapuio Agropecuária Ltda
www.tapuio.com.br
Búfalo Dourado
www.bufalodourado.com.br
Instituto Totum
www.institutototum.com.br

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