Tendência: Not alcohol

Bebida preparada com raiz kava-kava vira moda nos EUA, onde bares especializados fazem o maior sucesso entre os jovens

Um estudo baseado em pesquisas realizadas com 11 milhões de jovens americanos que nasceram após 1995 e entrevistas feitas por Jean Twenge, professora de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, nos Estados Unidos, diz que essa geração, também conhecida por ‘geração smartphone’, é menos propensa a beber álcool, faz menos sexo e não está exatamente preparada para enfrentar a vida adulta. Esse levantamento faz parte do livro “iGen: Why Today’s Super-Connected Kids are Growing up Less Rebellious, More Tolerant, Less Happy – and Completely Unprepared for Adulthood”, que, em tradução livre para o português, significa “Por que as crianças superconectadas estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes – e completamente despreparadas para a vida adulta”, de autoria da própria Twenge e lançado em 2017.

Ainda na obra, a professora de psicologia explica que tais novos comportamentos desses jovens que praticamente já nasceram com algum acesso à Internet são fruto do fato de eles terem crescido em um ambiente mais seguro. Por isso, conforme a docente, a ‘geração smartphone’ se expõe menos a situações de risco e, portanto, têm mais dificuldade para contorná-las.

Esses dados analisados e divulgados por Twenge por meio do seu livro podem explicar uma nova moda entre os americanos, em especial aos moradores de Nova York, que é o consumo de uma bebida vagamente narcótica preparada com a raiz kava-kava no lugar das tradicionais bebidas alcoólicas.

Atualmente, já existem, inclusive, bares especializados em kava em Nova York e a maioria está localizada muito próximo, a uma distância que pode ser percorrida a pé no bairro Bushwick, que fica na parte Norte do Brooklyn. Essa região de Nova York passou por um longo período de degradação nos anos 1970 e 80. No entanto, hoje em dia, é muito valorizada e espaço onde muitos armazéns e fábricas foram convertidos em lofts, lojas e restaurantes. Além disso, o Bushwick também é um refúgio de diversos artistas, sendo até eleito “um dos bairros mais legais do mundo” pela revista Vogue.

Um dos bares de Kava que fica nessa moderna área de Nova York é o Brooklyn Kava, localizado na 191 Suydam Street. No local, é possível comprar várias bebidas e até bolo preparado com a raiz. E, conforme divulgação do site do próprio estabelecimento, o Brooklyn Kava é o primeiro kava bar do Brooklyn, onde também é possível degustar café, chá e kombucha. “Nós também somos um importador e atacadista de pó de raiz de kava”, diz comunicado postado no site do bar.

Atrativos

Normalmente, os jovens americanos consomem a kava depois que a raiz é moída até virar um pó, misturada com água e, na sequência, coada. Ou seja, uma espécie de chá.

Em entrevista a vários meios de comunicação de todo o mundo, alguns consumidores da raiz afirmam que ela tem gosto de terra, caso não seja batida com uma fruta em um vasilhame chamado de “kavatail”. A maioria alega que gosta da nova bebida por ela aliviar o estresse da vida moderna e, consequentemente, melhorar o humor.

A kava também tem o poder de anestesiar, levemente, a língua e os lábios, além de relaxar e provocar confortável euforia. De acordo com Alisson Brandão Ferreira, vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia de Minas Gerais (CRF/MG), a kava pode também proporcionar uma sensação de prazer, amenizando as sensações de medo ao agir no Sistema Nervoso Central (SNC) do ser humano.

“Perifericamente, age sendo um potente anestésico local. Sua atividade farmacológica é devido às kavalactonas, estando comprovados diversos efeitos sobre o SNC, inserindo atividades ansiolíticas, sedativas, anticonvulsivantes, anestésica local, espasmolítica e analgésica. Entretanto, é desconhecido o mecanismo exato desses feitos”, explica o vice-presidente.

No Brasil, conforme Margarete Akemi Kishi, coordenadora do grupo de trabalho de Fitoterapia do Conselho Federal de Farmácia (CFF), a kava “é um medicamento fitoterápico indicado para o tratamento da ansiedade, agitação e insônia em adultos em curto prazo (1 a 8 semanas de tratamento), sendo apenas comercializado sob prescrição médica – tarja vermelha”.

kava-kavaOrigem

“A kawa kawa, pimenta embriagante, yagona, é o nome popular da espécie medicinal Piper methysticum G. Forster, a qual pertence a família Piperaceae, cuja parte utilizada é o rizoma”, resume Kishi, do CFF.

Também conhecida como awa ou yaqona, a kava costuma crescer com abundândia em Fíji , na Oceania, Vanuatu, Melanésia, Samoa, Polinésia e Havaí, nos EUA. Há milhares de anos, a raiz era usada para mastigar ou ser transformada em bebida, que costumava ser servida durante cerimônias políticas e em casas como uma norma cultural cortês e respeito social.

Durante a década de 1990, a kava também ficou conhecida no Ocidente, quando chegou a alimentar importações de baixa qualidade, o que, combinado ao pouco conhecimento da raiz, gerou propaganda negativa sobre seus eventuais efeitos à saúde humana, levando a proibições na Europa. Com isso, muitos negócios de kava até faliram. Em 2002, por exemplo, a agência governamental de alimentação e medicamentos dos EUA chegou a advertir sobre um potencial risco raro de lesão grave do fígado associada a produtos que contenham kava. Entretanto, entre 2012 e 2016, as exportações de Fiji da raiz mais que dobraram.

No Brasil, “durante os anos de 1999 a 2002, a kava-kava esteve na lista dos 10 medicamentos fitoterápicos mais vendidos no Brasil”, destaca Ferreira, vice-presidente do CRF/MG. Mas, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas do Setor Fitoterápico, Suplemento Alimentar e de Promoção da Saúde (ABIFISA) de dezembro de 2016, o medicamento não consta mais nessa lista desde o ano de 2000.

Riscos

Ainda segundo o vice-presidente do CRF/MG, no ano de 2002, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu início a um processo para incluir uma tarja vermelha com a frase ‘venda sob prescrição médica’ nos produtos à base de kava com o objetivo de restringir o uso indiscriminado desses medicamentos, que podem oferecer risco à saúde.

“Um dos fatores que influenciou a decisão da Anvisa foram os relatos de casos graves de hepatite, insuficiência hepática e cirrose hepática em 25 pacientes da Alemanha e da Suíça que usaram o produto. Sendo mais uma postura preventiva para evitar que as pessoas consumissem esses medicamentos sem avaliação médica, resguardando, assim, a saúde da população”, esclarece Ferreira.

Conforme Kishi, do CFF, vários casos de toxicidade hepática chegaram a ser relatados na Europa após uso de produtos à base de plantas contendo extratos de P. methysticum. “É contraindicado para pacientes com afecções hepáticas (hepatite, cirrose, icterícia e outros) e/ou que utilizam medicamentos que possam causar hepatotoxicidade. No Brasil, os relatos de hepatoxicidade levaram a Anvisa a incluir os medicamentos à base de kava na lista de medicamentos sob prescrição médica – RE 356/2002”, conta a coordenadora, que também é farmacêutica e Conselheira Federal do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP).

A farmacêutica alerta que o uso da kava, seja por meio de bebida como os jovens americanos andam fazendo ou medicação fisioterápica, deve ser controlado. Afinal, a raiz tem efeitos adversos. “Estudo demostram reações adversas como reações alérgicas, de queixas gastrointestinais, de cefaleia ou tonturas e de outros problemas indefinidos. A administração crônica do rizoma ou suas preparações podem causar coloração amarelada transitória da pele e unhas, mas reversível após a descontinuação da droga. Já o excesso e abuso crônico de infusões do rizoma da kava têm sido historicamente associados à dermopatia escamosa e eruptiva de etiologia desconhecida. Reações alérgicas da pele e ictiose também foram relatadas. Diminuição de reflexos motores e na habilidade de direção ou operação de equipamentos pesados”, ressalta Kishi.

Vício

Apesar de todos os sintomas que o uso descontrolado de kava pode provocar nas pessoas, a “raiz não produz vício e nem dependência química. Em estudos clínicos tem sido mostrado um perfil de ação ansiolítica sem sinais de vícios e dependência nas doses avaliadas”, complementa a farmacêutica Kishi.

Ferreira, vice-presidente do CRF/MG, diz que estudos não apresentam conclusão definitiva do aspecto viciante ou não da kava e que, por isso, a dependência não fica comprovada. Entretanto, ele ressalta que as reações nocivas e as interações medicamentosas da raiz devem ser levadas em consideração pelos seus consumidores, seja em forma de medicamento fisioterápico ou não.

“A kava-kava potencializa a ação de drogas que atuam no Sistema Nervoso Central como etanol, anti-histamínicos, hipnótico-sedativos, neurolépticos, barbitúricos, benzodiazepínicos e agentes psicoativos, pois aumenta os efeitos depressores sob a forma de sedação, cansaço e diminuição dos reflexos. Essa planta facilita a excreção da urina e, por isso, pode potencializar os efeitos dos fármacos diuréticos. Também potencializa reações nocivas no fígado quando utilizada juntamente com medicamentos que apresentam elevados níveis de toxicidade hepática. Portanto, a crença erroneamente aplicada pela população de que produtos de origem vegetal não causam reações adversas deve ser elucidada aos pacientes que fazem uso de fitoterápicos, assim como acontece com os demais medicamentos, pois devem ser avaliadas as possíveis interações medicamentosas e a relação custo versus benefício de sua utilização”, conclui.

CRF/MG
www.crfmg.org.br/site
CFF
www.cff.org.br

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