Soluções necessárias

Como a sustentabilidade se desenvolve e sustenta toda uma cadeia de medidas fundamentais

sustentabilidade

As empresas que pretendem se adequar aos novos tempos e assumirem maiores responsabilidades perante a sociedade encontram inúmeros desafios para se tornarem cada vez mais socialmente responsáveis. No entanto, são barreiras que devem ser superadas pois a realidade é que nos diversos cenários possíveis, em futuro próximo, a sustentabilidade deve envolver todo o negócio e deverá ser incorporada permanentemente na missão e nas estratégias da empresa.

A tendência pela demanda de produtos verdes é irreversível devido à degradação histórica do ambiente natural, que coloca em risco a nossa sobrevivência e ameaça os diversos ecossistemas que dão sustentação à vida. Essa situação foi causada pela geração de produtos não renováveis ou contaminantes que destroem a possibilidade de regeneração natural. Além disso, a industrialização gerou ao longo do tempo um aumento de gases efeito estufa que está provocando um enorme aquecimento planetário, gerando mudanças climáticas que afetam milhões de pessoas e que ameaça nosso modo de vida, podendo provocar o desaparecimento de muitas comunidades ao redor do mundo.

Esse quadro amplamente divulgado pela mídia provoca um aumento da consciência ambiental entre os consumidores, gerando um crescimento na procura por produtos verdes. Muitas empresas, por sua vez, entram no mercado com esses produtos porque está aumentando a demanda e também porque seus grupos de interesse (stakeholders) exigem uma atitude mais responsável das companhias.

Ocorre que há uma enorme diferença entre uma empresa que vende produtos verdes e, por outro lado, ser uma “empresa verde”. Um negócio sustentável tem a ver com produtos que comercializa, com a cultura interna da empresa, com a sua missão e estratégia, com o sentimento de identificação com a empresa que tem seus funcionários e com a transparência corporativa. Assim, a sustentabilidade deve ser entendida como um conceito holístico e sistêmico, não uma atividade eventual, que se realiza de vez em quando, ou de acordo com as conveniências.

Uma empresa verde incorpora seus valores em tudo o que faz e não somente em seus produtos, que são apenas um aspecto de seu negócio.  A questão central é qual vai ser a opção dos consumidores, na medida em que aumenta a sua compreensão dos problemas que enfrentamos como seres humanos? Tenderão a adquirir um produto no qual os valores do produto são o reflexo dos valores da empresa ou preferirão um produto verde de uma empresa que o criou porque existem interessados em adquiri-lo?

A resposta a essa pergunta direcionará a tomada de decisão das empresas em relação a como deverão se envolver com a sustentabilidade.

Uma empresa pode adotar inúmeros símbolos de sustentabilidade e, no entanto, não ser uma empresa socialmente responsável. Pode, por exemplo, reduzir o consumo de água e energia, ampliar o acesso da luz natural a seus ambientes internos, utilizar combustíveis híbridos nos veículos da empresa, entre outros. No entanto, esses símbolos não constituem uma prova de que a empresa é verdadeiramente sustentável.

Para ser sustentável é necessário que o negócio seja abordado em toda sua profundidade englobando desde as relações interpessoais até a relação da empresa com o planeta. A transparência deve ser ampla sobre os processos internos da organização, os recursos utilizados devem ser renováveis, a cadeia produtiva deve ser monitorada quanto à origem da matéria-prima utilizada e o impacto na mão de obra, a comunicação interna e externa deve ser priorizada.

Em resumo, a responsabilidade corporativa é uma perspectiva holística, baseada em sistemas. Não se trata de ter um grande produto, fazer caridade ou oferecer muitos benefícios aos empregados, mas, sim, focar seu próprio negócio a partir de uma perspectiva sistêmica para entender de que modo impacta a sociedade e o planeta, e garantir que a missão da empresa se oriente à criação de um mundo mais sustentável e justo. Tudo isso, sem descartar a obtenção dos melhores resultados nos indicadores tradicionais. Por Reinaldo Dias, professor da Universidade Mackenzie Campinas. É doutor em Ciências Sociais, mestre em Ciência Política pela Unicamp e especialista em Ciências Ambientais.

“Há uma enorme diferença entre uma empresa que vende produtos verdes e, por outro lado, ser uma ‘empresa verde’”, destaca Reinaldo Dias, professor da Universidade Mackenzie Campinas
“Há uma enorme diferença entre uma empresa que vende produtos verdes e, por outro lado, ser uma ‘empresa verde’”, destaca Reinaldo Dias, professor da Universidade Mackenzie Campinas

Futuros profissionais

A Universidade exerce um papel fundamental de formar e preparar pessoas para produção científica e atuação no mercado de trabalho. Faz parte deste papel, assegurar que os alunos sejam capazes de utilizar o conhecimento adquirido no ambiente acadêmico, conectar com as tendências e inserir práticas em seu dia a dia pessoal e profissional.

Isso não é diferente quando o tema é sustentabilidade. Este assunto tem sido discutido em todas as esferas da sociedade desde 1968, quando o Clube de Roma, uma organização sem fins lucrativos que reúne profissionais de diversas áreas (diplomacia, universidade, sociedade civil, empresas etc.) publicou o Relatório Limites do Crescimento que propõe que para manter o equilíbrio econômico e ambiental é necessário que haja um congelamento no crescimento da população global.

O tema volta ao cerne das discussões globais em 1987 quando a Comissão Mundial de Desenvolvimento e Meio Ambiente da ONU divulgou o Relatório Nosso Futuro Comum ou Relatório Brundtland, que definiu o que é desenvolvimento sustentável e, em 1992, durante a ECO 92, quando a comunidade internacional definiu uma agenda com compromissos com a mudança de padrão de desenvolvimento no século 21.

Em 1990, Elkington apresentou o conceito do Triple Botton Line (TBL – People – Pessoas, Planet – Planeta, Profit – Lucro) como uma tradução do tema ao mundo dos negócios, onde a sustentabilidade neste contexto seria o equilíbrio entre os aspectos sociais, ambientais e econômicos.

A partir de então, o ambiente empresarial tem abordado o assunto como tema estratégico e fator de diferencial competitivo, conforme proposto por Milkovich e Boudreau, “uma vantagem competitiva sustentável ocorre quando uma empresa implementa uma estratégia de criação de valor que não esteja implementada simultaneamente pelos concorrentes de forma real ou potencial, e quando outra organização é incapaz de copiar os benefícios dessa vantagem”.

Inúmeras iniciativas buscaram aprofundar tais discussões no Brasil, de forma a contribuir com as empresas na implementação estratégica do tema e na geração de competitividade, como o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que aborda as vantagens da inserção da sustentabilidade como uma forma de se fazer gestão; a Fundação Dom Cabral (FDC), que tem realizados estudos sobre o estado da sustentabilidade nas empresas brasileiras, de forma a identificar evolução da sustentabilidade corporativa no Brasil e o Observatório de Tendências em Sustentabilidade (NEXT) que tem se aprofundado em alguns temas, de forma a contribuir com desenvolvimento dos profissionais que atuam com sustentabilidade nas empresas brasileiras.

Apesar dos avanços neste contexto, sabe-se que as empresas possuem duas grandes preocupações: uma de como tornar a “sustentabilidade” mensurável e tangível e outra sobre como formar profissionais para atuar com este tema nas empresas.

O conceito de ciclo de vida é uma das formas possível de tornar o tema tangível, pois norteia a mensuração e o gerenciamento da sustentabilidade, uma vez que considera os aspectos ambientais e os impactos potenciais atrelados ao ciclo de vida de um produto, desde a extração da matéria-prima (nomeada como berço) até a disposição final, após seu uso (nomeada como túmulo).

Além disso, fornece informações importantes sob o ponto de vista ambiental, social, econômico quanto a aspectos da extração de materiais; necessidade de substitutos de menor impacto; dados quantitativos dos gastos de recursos naturais; resíduos gerados na produção, mão de obra envolvida, distribuição, destinação e impactos ambientais pós-consumo.

Quanto à formação de profissionais para atuação neste tema, sabe-se que existe um déficit de especialistas em ciclo de vida. Cada vez mais, as empresas e instituições estão em busca de pessoas com este olhar amplo e voltado para a sustentabilidade aplicada, e a universidade exerce um papel fundamental neste processo.

Desta forma, o horizonte de atuação para este profissional é extenso, pois o conceito contribui para a tomada de decisões mais criteriosas e desenvolve olhar sistêmico, de forma a orientar a mitigação de impactos, visualização dos benefícios globais de suas escolhas e identificação de oportunidades de novos negócios. Por: Taisa Cecilia de Lima Caires, consultora de Educação Socioambiental da Fundação Espaço ECO® e Camila Daniele Honório, consultora de Gestão Aplicada a PME’s da Fundação Espaço ECO®.

EDITORIASUSTENTABILIDADE
Artigo anteriorEdição 105
Próximo artigoClima de progresso
A redação da Food Service News através deste canal, pauta assuntos de cunho financeiro e informativo, nossas matérias abordam novidades do mercado, tendências, dicas e oferecem entrevistas exclusivas. Além disso, a revista está sempre inovando e antecipando tendências, trazendo um conteúdo indispensável para quem deseja investir e saber mais sobre o segmento.

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA