Mercado: Risoto brasileiro

Risoto brasileiro

País avança na produção de arroz próprio para o famoso prato

No Brasil, o arroz consolidou-se há séculos como um fundamental e insubstituível cereal no prato de praticamente todos. Dificilmente alguém o recusa. Em uma refeição tradicional, o arroz se faz presente como um dos principais ingredientes. E, assim como aqui, o produto também é bastante consumido em todo mundo.

O arroz é considerado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como um dos alimentos mais importantes para a nutrição humana. Estima-se que os grãos alimentam mais da metade da população mundial. Da família dos cereais, só perde para o milho e o trigo em quantidade de produção global.
Contudo, a rizicultura brasileira passa por uma crise. De acordo com o Balanço de 2017 da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a safra brasileira de arroz colheu a segunda maior safra desde 2009, mesmo com a redução de 1,3% na área plantada em 2016/17. As boas condições climáticas e a baixa incidência de pragas e doenças foram responsáveis por esse bom rendimento. Entretanto, esse rendimento não está garantindo rentabilidade positiva ao produtor rural. Os custos aumentaram em torno de 10%, e o valor de venda do cereal está abaixo do preço mínimo, de R$ 36,01 a saca de 50kg. O produtor brasileiro vem perdendo competitividade para o arroz produzido nos países do Mercosul. Por lá, o preço dos defensivos são, em média, 81% mais baratos do que no mercado brasileiro.

Investimentos

Existem várias espécies e tipos de arrozes. Nacionalmente, o arroz para risoto – um tipo peculiar do cereal – até algum tempo não era produzido; para venda e consumo, só importando. Hoje, isso já é uma realidade no país graças às pesquisas de duas entidades: Epagri e IAC.

A Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) foi fundada em 1991, a partir da fusão de outras organizações do estado que atuavam no meio rural. É hoje uma das poucas empresas públicas no país que reúnem pesquisa agropecuária e extensão rural, sendo esse um diferencial importante para a agricultura catarinense.

A unidade já desenvolveu 31 cultivares de arroz, 23 deles lançados especificamente para as condições de Santa Catarina. Desses, 12 seguem com recomendação de cultivo, já que os mais antigos acabam se tornando obsoletos com o desenvolvimento de novas pesquisas.
Em Santa Catarina, 80% das lavouras de arroz utilizam cultivares desenvolvidos pela empresa pública. Luiz Ademir Hessmann, presidente da Epagri, diz que a empresa, em fevereiro deste ano, lançou o Pérola, único cultivar de arroz especial para risoto desenvolvido para ser cultivado nas condições de clima e solo catarinenses.

Antes disso, em 2004, o IAC, o Instituto Agronômico de Campinas da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Governo de São Paulo, desenvolveu um cultivar de arroz especial para risotos, mas os grãos não chegaram a ser cultivados em escala comercial. Na sequência do lançamento do Pérola pela Epagri, o IAC lançou outros cultivares de arroz, também específicos para risotos.

“O SCS123 Pérola começou a ser desenvolvido em 2007 pela pesquisadora Ester Wickert, da nossa Estação Experimental de Itajaí (EEI). Na ocasião, entre os diversos cruzamentos de grãos que ela fazia para buscar um arroz convencional mais produtivo e resistente a doenças, ela identificou esse, que tinha grão mais arredondado e boa arquitetura de planta, com características desejáveis para uso em risotos”.

Ester conta que avaliou em torno de 10 mil plantas para chegar ao Pérola. Ele é especial para risotos por suas características peculiares, como o formato e a textura, que o tornam mais capaz de absorver sabores adicionados no preparo culinário. O novo cultivar da Epagri é também mais produtivo que os outros especiais para risotos. Ester conta que arrozes para risoto costumam produzir quatro toneladas por hectare. “Normalmente, os grãos especiais têm menor produtividade”, explica a pesquisadora.

Já o Pérola apresentou produtividade média de 10 toneladas por hectare nos experimentos realizados em diversas regiões produtoras de Santa Catarina. Tamanha produtividade se deve, entre outros fatores, à arquitetura moderna da planta, que é mais baixa, tem maturação uniforme e bom perfilhamento. As plantas de arquitetura convencional, mais altas e com panículas mais abertas, estão mais sujeitas à queda e ao ataque de pássaros, por exemplo. Além de ser mais produtiva, a arquitetura do cultivar SCS123 Pérola permite a automatização da colheita, relata a pesquisadora.

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Luiz Ademir Hessmann, da Epagri, diz que o novo cultivar da organização é também mais produtivo que os outros especiais para risotos

Luiz ressalta que outra vantagem para o produtor é o grande valor agregado de arrozes especiais para risotos. “Enquanto o consumidor compra 1kg de arroz branco comum pelo valor médio de R$ 2,50, a mesma quantidade do especial pode chegar a R$ 12,00. O produtor já estabelecido de arroz comum que queira plantar o SCS123 Pérola não vai precisar fazer nenhuma adaptação no seu modo de produção, já que o manejo das duas plantas é idêntico. Ele só vai precisar encontrar mercado para escoar seu produto diferenciado”.

A Epagri faz pesquisas para desenvolvimento de cultivares especiais de arroz desde 1995. Além do Pérola, já foram lançados nessa linha o SCS119 Rubi (vermelho) e o SCS120 Ônix (preto). O próximo desafio, em que os pesquisadores da EEI já trabalham, é lançar um arroz especial aromatizado, muito utilizado na culinária tailandesa.

Atuação

O diretor-geral do IAC, instituto que faz 131 anos em 2018, Sérgio Augusto Morais Carbonell, diz que a entidade foi criada justamente para começar os cultivares no Brasil. Desde então, já trabalhou com mais de 130 culturas em várias espécies como arroz, café, cana, soja, feijão e vários outras. Os trabalhos do IAC têm marcado fortemente a agricultura estadual, nacional e até mundial. A influência e a notoriedade do instituto são tão grandes que o famoso feijão carioca foi criado por eles em 1970 – e ao longo dos anos, até os dias atuais, foi melhorando sua genética até chegar ao que já é conhecido.
Sobre arroz, o IAC o nomeia como série 300. “Especificamente sobre arroz para risoto, o 301 é o lançamento atual deste ano do instituto. Esse arroz 301 é curto e grosso e dá mais rendimento que as versões anteriores já criadas. O arroz para risoto tem de ter uma consistência mais cremosa, para que faça jus ao prato italiano. O IAC é o primeiro a produzir arroz para risoto no Brasil. Antes era somente importado”, frisa Sérgio.
A produção do arroz para risoto, e de tantas outras especialidades do IAC, começa desde a criação do cereal até o prato pronto na casa do consumidor ou do restaurante. Após o cereal ser criado, recebe um nome, como o 301, por exemplo. Os grãos são vendidos para os agricultores e alastrados por todo o Brasil. Após esses processos, são revendidos para mercados, supermercados e indústrias que colocam suas marcas nas embalagens quando o produto está finalizado.

Especial

A Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), instituição voltada para a defesa dos interesses da agricultura brasileira, por meio do seu porta-voz e vice-presidente Hélio Sirimarco, considera o SCS123 Pérola desenvolvido pela Epagri desde 2007, um arroz especial, que rende mais e incorpora com mais intensidade os sabores da culinária.
“A tecnologia para a elaboração desse arroz também tem grande peso, uma vez que a planta foi concebida por uma arquitetura mais moderna e mais vantajosa que a tradicional”, complementa. Hélio acha oportuno lembrar que Santa Catarina é o segundo maior produtor de arroz no país, sendo que o sul do estado é a principal região produtora (61,9%). É uma atividade que, economicamente, movimenta no estado mais de 30 mil pessoas.

“A tecnologia para a elaboração desse arroz também tem grande peso”, destaca Hélio Sirimarco, da SNA

Perspectivas

As perspectivas de 2018 da CNA são de que a produção mundial de arroz deverá cair 3%. Para o Mercosul está sendo estimada uma redução de 4%, com destaque para o Brasil e Uruguai. A estimativa é de leve queda de área para o Brasil. Entretanto, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, que representam 80% da produção, deverão manter a área plantada. A estimativa de menor produção é devido ao menor investimento realizado pelos produtores e pelas incertezas climáticas. O excesso de chuvas tem prejudicado o andamento do plantio e a qualidade das lavouras implantadas de arroz no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

A preocupação dos produtores é quanto à perda da janela ideal de plantio e ao impacto das perdas na rentabilidade. Os custos de produção deverão subir 5% a 7%, puxados, principalmente, pela energia elétrica, combustível e mão de obra. O setor identificou a necessidade de promover o consumo de arroz e derivados, assim como buscar a abertura de novos mercados consumidores. O aumento da demanda tende a contribuir para elevação dos preços do produto e derivados.

EPAGRI (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina)
www.epagri.sc.gov.br
CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil)
www.cnabrasil.org.br
SNA (Sociedade Nacional de Agricultura)
www.sna.agr.br
IAC (Instituto Agronômico de Campinas)
www.iac.sp.gov.br

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