Quem vai pagar a conta?

Produtores, comerciantes e apreciadores de vinhos se viram envolvidos em uma discussão: afinal de contas, proteger ou não esta bebida quando ela é feita no Brasil? As opiniões foram bastantes divergentes e os debates sobre o assunto permanecem. Este é um tema que não sairá de pauta por muito tempo

Juliana Siqueira Pio

 

Degustar um bom vinho é uma prática que está presente na vida de muitos consumidores, desde as pessoas que conhecem a bebida apenas de forma amadora até aquelas que fazem deste ato uma profissão. Na hora de escolher qual é o melhor vinho dentre tantas opções, vários fatores são levados em conta e, para isso, é necessário que se tenha uma grande diversidade de tipos e marcas. Nos últimos meses, porém, a apreciação de um bom número de rótulos passou por riscos. A ameaça de se ter menos opções da bebida veio à tona a partir de um possível acesso dificultado ao vinho vindo de fora do Brasil. Isso mexeu e muito com o mercado, trazendo discussões e diversos pontos de vista sobre a situação.

O fato se iniciou quando o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), a União Brasileira de Vitivinicultura, a Federação das Cooperativas do Vinho e o Sindicato da Indústria do Vinho do RS fizeram uma petição de salvaguarda para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. A intenção, com isso, é que os vinhos brasileiros tenham mais destaque no mercado nacional, fazendo com que quem está diretamente envolvido a eles possa desfrutar do crescimento da bebida no país. O objetivo não é que os vinhos importados saiam de circulação, mas sim que haja restrição à sua quantidade. Tal realidade não compreenderia, no entanto, os países que integram o Mercosul e Israel, por causa de acordos que já foram efetuados.

A salvaguarda é uma medida para uma situação emergencial. No Brasil, elas só se tornaram uma realidade em dois casos: no dos brinquedos, que, atualmente, não mais existe, e no caso do coco ralado, que deve findar ainda neste ano de 2012. A alegação para que a salvaguarda seja aplicada ao setor de vinhos é a de que há muitos indícios de prejuízos oriundos da importação da bebida. Além disso, o crescimento deste mercado, que foi de 7% quando se compara o ano de 2011 ao de 2010, seria apenas a recuperação de perdas provenientes dos anos anteriores.

A aplicação da salvaguarda não traz apenas restrições. Tornando-se uma realidade, outras providências também serão tomadas. Um plano de ajuste pode dar conta do aumento de investimentos e também de produtividade, da qualificação dos produtos a partir de suportes tecnológicos e, por último, a redução de custos.

Quando alguns profissionais da área, como sommerlies, empresários e chefs tomaram ciência da medida, foi resolvido, então, que os vinhos brasileiros seriam boicotados, que eles não teriam vez entre as prateleiras e os jantares. Muitos itens chegaram até mesmo a ser eliminados dos cardápios. Assim, começaram as primeiras ações que denunciavam a restrição e/ou anulação do comércio da bebida produzida no Brasil.

Panorama das importações

Os produtores da Europa têm uma participação excelente no que diz respeito à exportação de seu vinho para terras brasileiras. De acordo com dados da Ibravin, a Itália, Portugal, França e Espanha, nesta ordem, correspondem da terceira a sexta posição na lista dos principais exportadores da bebida para o Brasil. A Itália, por exemplo, exportou 13,1 milhões de litros, isso no ano de 2011. Já o número de litros exportados por Portugal foi de 8,6 milhões. A França exportou 5,1 milhões de litros e a Espanha 2,8 milhões. Além disso, Portugal teve um aumento de 6,2% no volume também em 2011.

Ainda de acordo com os dados da Ibravin, o Chile é quem comanda as exportações para o Brasil. No ano passado foram 26,7 milhões de litros que foram comercializados. Contando todas as importações realizadas pelo nosso país, foram 77,6 milhões de litros. Destes, o Chile, junto à Argentina, foram responsáveis por mais da metade das exportações, com 19,5 milhões de litros e 17,7 milhões respectivamente.

Reflexos da salvaguarda

Após o pedido de salvaguarda, vários foram os reflexos ocasionados nas vinícolas e nos estabelecimentos food service. Cada uma das partes envolvidas se viu obrigada a pensar o assunto, bem como debatê-lo e tentar encontrar soluções para este cenário. Entrevistamos várias pessoas que lidam diretamente com este tema, para mostrar como estes acontecimentos foram encarados por elas.

Caio Gurgel, diretor da Vinho Sul, afirma que, na empresa, quando a notícia foi recebida, o sentimento era de indignação. De acordo com ele, já é uma burocracia muito grande para que vinhos de fora possam chegar até o Brasil e, pensando na salvaguarda, haveria sérios problemas de prazo. Ele afirma que a medida “parece ser uma última opção para ajudar nas vendas dos vinhos nacionais”. Isso seria um reflexo da comercialização inferior dos vinhos brasileiros, se comparados aos importados.

A salvaguarda pode trazer, para Gurgel, danos à imagem do vinho brasileiro. Ele acredita que isto é uma injustiça feita ao direito de escolha do consumidor e isso se reflete, inclusive, no fato de muitos chefs de grandes restaurantes estarem retirando de seus cardápios os vinhos produzidos em terras brasileiras.

Há muitos que estão lutando para que haja direito de escolha, conforme Caio Gurgel afirma. E, além disso, ele frisa que toda essa discussão em torno do tema fez com que as importadoras e a ABS se aproximassem, além dos apreciadores da bebida. Para ele está havendo, ainda, conscientização dos consumidores e também da imprensa sobre o assunto, o que, de alguma forma, pode vir a garantir a proteção aos importadores e também às opções das pessoas.

Cultura do Vinho

Guilherme Grando, diretor da Vinícola Villaggio Grando, ao ser indagado sobre a salvaguarda já responde: “Esta não é uma medida correta a nosso ver”. De acordo com ele, há vários fatores que são negativos nesta medida.

Em primeiro lugar, Grando cita o consumo inicial de vinho feito pelas pessoas. Ele afirma que, quando alguém começa a degustar a bebida, não o faz tendo como ponto de partida um produto que tenha um fator financeiro elevado, um produto “de topo”, como classifica. E, quanto a isso, os importados levariam a melhor, uma vez que têm preços mais baixos, sem que, para isso, haja queda de qualidade.

A cultura do vinho é outra questão abordada por Grando. Ele afirma que ela se faz a partir da degustação e do acesso fácil a vinhos de todas as partes do mundo. Para criar uma cultura de vinho no Brasil, então, seria preciso que as suas portas estivessem abertas para que a bebida oriunda de fora pudesse entrar. E isso não deveria ser, na opinião de Grando, motivo para que os produtores nacionais temessem, uma vez que, sabendo que os seus vinhos são de qualidade, não há medo.

Já sobre a questão dos impostos, a opinião é de que “se for para mexer em impostos, que façam com os nossos, diminuindo-os, e nos igualem aos impostos que os importados pagam em suas terras, onde, em muitos casos, entram na mesma base de cálculo tributário dos alimentos. Lá fora já se sabe que vinho é alimento, e competiremos de igual para igual. Não devemos aumentar os impostos deles e sim diminuir os nossos”, afirma Grando.

Quando o assunto surgiu, Grando disse que sentiu tristeza quando percebeu que, em sua opinião, as coisas estavam caminhando para trás. De acordo com ele, enquanto outras partes do mundo estão em busca da comprovação de que vinho é um alimento e, assim, possa ser taxado como tal, o Brasil quer taxá-lo de uma forma que ele chama de absurda, “diga-se de passagem, mais do que já é taxado”, frisa.

Ao ser questionado sobre os principais fatores que influenciam este problema, o diretor da Vinícola Villaggio Grando afirma que não tem a menor idéia a respeito, uma vez que acha esta uma questão assinalada pelo absurdo. Ele menciona ainda que é importante lembrar que uma medida que é caracterizada pelo imediatismo não constrói base para um determinado ramo, pelo contrário. Na opinião dele estas medidas imediatistas criam situações que são apenas momentâneas e que, muitas vezes, não são marcadas por algo que seja, de fato, construtivo.

A salvaguarda pode trazer danos à imagem dos vinhos brasileiros, conforme afirma Grando. Ele acredita nesta ideia porque quando há a tentativa de se barrar a concorrência, revela-se fraqueza. “Hoje, já temos produtores de qualidade no Brasil, que não precisam ter fama de vinho ruim, pelo contrário. Eles podem competir com qualquer país do mundo”, diz.

No que diz respeito às discussões sobre este assunto, Grando vê apenas uma vantagem, que é a tentativa de se aproveitar este momento para que se possa discutir a questão tributária e a diminuição dos impostos, fazendo com que haja competitividade sem que se retroceda, conforme ele avalia, aumentando os impostos dos vinhos estrangeiros. “Vejamos dois exemplos: barricas de carvalho, na França, são compradas por 300 euros. Para nacionalizar, pagamos mais de 1000 euros, isso para 225 litros. Na questão dos impostos, atualmente é levado em conta apenas o fator álcool. Tributam-nos mais do que nos demais países”. Grando se diz esperançoso em um rumo para o assunto, para que, ao menos, a questão dos impostos seja discutida.

O futuro do setor

Marcio Bonilla, gerente nacional de vendas da Vinícola Perini, explica que esta Vinícola é a favor do livre comércio. Bonilla afirma que eles gostariam que o governo fosse sensível aos apelos que já são feitos há décadas, para que pudesse haver redução da carga tributária que onera toda cadeia produtiva da indústria vinífera brasileira. ”Porém, neste momento, entendemos que o lado positivo da solicitação de salvaguarda pelo Ibravin é a discussão que está mobilizando todo o setor, obrigando a todos a se aprofundarem e discutirem com maior propriedade as dificuldades do setor”, frisa.

Sobre a sua opinião pessoal, Bonilla esclarece que vê a salvaguarda pelo mesmo prisma que a Vinícola Perini. Ele diz que não é a favor de nenhuma interferência e, também, acredita que o mercado deve se autorregular. Mas não é apenas isso. Ele ainda defende que, para que haja esta autorregulação, deve haver justiça tributária, uma vez que, caso esta justiça não esteja presente, não haverá como se competir.

Quando a Ibravin comunicou a medida para a Vinícola Perini, as pessoas ficaram reticentes. Mas toda esta discussão, no entanto, foi vista como algo positivo, como uma oportunidade para que esta situação possa sofrer modificações. “Estamos exaustos em solicitar isonomia de impostos”.

Ao ser perguntado sobre os principais fatores que levaram a este quadro, Bonilla cita: “Altos estoques inversamente proporcionais ao crescimento do mercado para vinhos nacionais”.

A respeito de um suposto dano à imagem do vinho brasileiro, o gerente da Vinícola Perini defende a ideia de que isso vai depender da capacidade que o setor terá de demonstrar a sua realidade. Ele acredita que deve haver clareza e didatismo para mostrar que não foram, não são e nunca serão contra o vinho importado. Ele afirma que as pessoas da Vinícola Perini têm a convicção de que os vinhos vindos de fora é que foram os responsáveis para que, aqui no Brasil, houvesse a qualificação do setor. “Mostraremos à sociedade que esta é uma situação momentânea para que haja uma normalização do setor”, afirma.

As discussões sobre o assunto têm sido várias. Uma rápida busca na internet mostra que muitas pessoas, direta ou indiretamente envolvidas, além de estarem engajadas na questão, estão bem informadas e, cada qual, pode conseguir informações que sejam relevantes para a compreensão integral de todo este cenário.

De acordo com Bonilla, estas discussões podem ser vistas como algo que é revigorante para o setor. Ele acredita que, em 99% das discussões relacionadas a este tema, é possível que se perceba que há boa intenção, uma vez que elas são geradas a partir da preocupação com o que será do setor daqui para frente. Ele relata que, pela primeira vez, o real motivo das dificuldades das vinícolas brasileiras vem à tona.

Além disso, é também, para Bonilla, a primeira vez em que se diz de uma maneira bastante aberta que o setor, a partir da década de 90, foi reformulado sendo alavancado por empréstimos bancários. Na época, conforme ele explica, o cenário era muito favorável. “Porém, livre mercado é isso, muda constantemente. Hoje, além de bons vinhos, restaram vinhas e dívidas”, pondera.

Bonilla acredita que as discussões sobre este assunto tornaram-se mais ponderadas. Ele ressalta, ainda, que já existem muitos fóruns paralelos que, na opinião dele, certamente resultarão em novas ideias para que o mundo do vinho possa trabalhar em conjunto sem que a nacionalidade seja, de fato, importante. Deve haver ainda, conforme ele avalia, justiça tributária e respeito ao livre comércio. Desta forma, será possível que esta bebida seja levada até as pessoas, sendo fonte de prazer e saúde, quando tomada com responsabilidade.

Ergue a taça, Brasil

Já para Júlio Kunz, diretor-executivo da Vinícola Dunamis Vinhos e Vinhedos, a cultura do vinho no Brasil está correndo um risco que é sério. Este risco, na opinião dele, seria o fim da produção nacional de uvas e também de vinhos finos. Conforme ele explica, enquanto a demanda por vinhos finos, nos últimos 20 anos, cresceu enormemente, a comercialização dos vinhos brasileiros diminuiu no que diz respeito ao volume. “Não há dúvida de que a produção brasileira precisa de proteção para enfrentar uma concorrência que tem sido desigual e, em alguns casos, desleal”, afirma.

Kunz defende que a salvaguarda é uma medida justa, legal e democrática. Além disso, ele ressalta que estas medidas de salvaguarda e também outros instrumentos de defesa que já são previstos na OMC (Organização Mundial do Comércio) são aplicados de maneira corriqueira por vários países em muitos setores da economia.

A Vinícola Dunamis Vinhos e Vinhedos ficou afastada de todos estes debates, de acordo com Kunz, “até o momento em que um grupo de formadores de opinião, liderados por alguns importadores, propuseram um boicote aos vinhos do Brasil”. Assim, eles avaliaram que atitudes como esta, contra quaisquer produtos nacionais, produtos estes que são capazes de gerar emprego e riqueza para um país, são inconcebíveis e inaceitáveis. Então, a vinícola entrou nas discussões para que se pudesse debater, assim como esclarecer, o caráter legal e democrático deste tipo de medida, conforma afirma Kunz. O objetivo é, também, poder mostrar para as pessoas que a cultura do vinho, que é muito importante, como avalia Kunz, para milhares de famílias brasileiras, não pode desaparecer.

Para Kunz, todo este assunto surgiu e o pedido de proteção para a cultura brasileira de vinho foi pedido porque o nível de competitividade do vinho brasileiro, atualmente, é baixo. “Os principais fatores que influenciam isso são a sobrevalorização do Real e uma falta de isonomia que privilegia os produtos estrangeiros”.

Sobre o boicote, Kunz acredita que ele se deu por má informação da maior parte das pessoas que estiveram envolvidas nisso. De acordo com ele, pessoas que já são experientes no que tange o comércio internacional sabem que essas medidas lá fora são comuns, assim como muito aplicadas ao redor do mundo sem que, no entanto, aconteçam tantas polêmicas. Ele ainda acredita que uma parte das pessoas está movida por interesses econômicos e até mesmo por má fé, e, desta forma, acaba por exagerar quando menciona as possíveis consequências deste fato. Além disso, elas estariam, ainda, alimentando a polêmica tendo como foco a autopromoção. “Trate-se, portanto, de esclarecer o público com informações verdadeiras a fim de acabar com os boatos, polêmicas e reações exageradas”, frisa.

Já quando o assunto é a imagem do vinho brasileiro, Kunz lembra das medidas adotadas pelo Brasil, há pouco tempo, para que a indústria automotiva nacional fosse protegida. E isso, como ele avalia, não foi capaz de fazer com que a imagem dos automóveis produzidos em terras brasileiras fosse prejudicada. Por isso, ele acredita que não há razões para que a imagem do vinho brasileiro possa vir a ficar pior diante destes últimos acontecimentos. “Não somos ingênuos e sabemos que pessoas com fortes interesses econômicos tentam aproveitar essa situação para desprestigiar os vinhos brasileiros. Mas isso já acontece há muito tempo”, pondera.

Para Kunz, este grande debate que está sendo feito atualmente sobre o tema mostra, antes de qualquer coisa, a importância que o vinho fino possui na cultura do Brasil. O fato de as discussões serem calorosas e, muitas vezes, até emocionais, demonstrariam isso, deixando com que tais informações fossem vistas de forma evidente. Além disso, conforme ele avalia, antigamente muitas pessoas apenas consumiam os vinhos sem se darem conta de maiores detalhes. Quando o assunto surgiu e foi amplamente divulgado e debatido, estas mesmas pessoas passaram a se envolver nos debates e, atualmente, percebem a cultura e história que estão envolvidas neste tema. Porém, Kunz pondera que os ânimos ainda estão muito exaltados e mais para frente é que será possível que os debates tenham mais qualidade, havendo, ainda, posições que sejam, de alguma forma, mais racionais.

O diretor-executivo finaliza a entrevista afirmando que, quando o movimento dos boicotes aos vinhos nacionais surgiu no Brasil, eles perceberam que havia um problema de baixa autoestima do brasileiro, problema este que, ele pondera, já é algo antigo. Isso aconteceria porque as pessoas do nosso país teriam uma cultura que faz com que elas tendam a pensar que o que vem de fora é melhor. ”Mais do que isso: acredita-se que não se possa ser altivo para proteger aquilo que for melhor para o Brasil”, frisa.

Kunz avalia que estamos em um momento econômico bom quando há a comparação com outros lugares ao redor do globo. Isso teria feito com que o mundo nos observasse com mais respeito. A Vinícola Dunamis Vinhos e Vinhedos lançou, então, a campanha intitulada “Ergue a taça, Brasil”. O objetivo desta campanha é fazer com que sejam despertos, nos brasileiros, os sentimentos de autoestima e de respeito próprio em relação aos vinhos que são feitos no Brasil •

Service

Ibravin
Tel.:
www.ibravin.org.br

Vinho Sul
Tel.:
www.vinhosul.com.br

Villaggio Grando
Tel.:
www.villaggiogrando.com.br

Vinícola Perini
Tel.:
www.vinicolaperini.com.br

Dunamis
Tel.:
www.dunamisvinhos.com.br

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