Entre um prato e uma partida
Similaridades da comida sul-africana e brasileira certamente vão agradar os torcedores na África do Sul. E isto pode ser uma influência na temática dos cardápios por aqui
Lissandra Mayoral
Em clima de Copa do Mundo, o interesse pela cultura da África do Sul em geral cresceu em todo o mundo, principalmente no Brasil, país dos amantes do futebol. E aumentou também a curiosidade pela cozinha sul-africana, que desde o início do ano passou a ser alvo de investimento de alguns restaurantes já visando o evento esportivo. Influenciado pela cozinha árabe e asiática, além de apresentar traços europeus, o cardápio sul-africano traduz as tradições nativas do continente.
Pratos bem condimentados (dos indianos), braai (dos holandeses), vinhos (franceses) e tortas e pudins (dos ingleses) representam bem a diversidade de tal cozinha. Alguns dos ingredientes mais usados pela cozinha sul-africana e responsáveis por sua identidade são: leite, grãos, vegetais, frutas e carne.
No Brasil, a tradição africana exerceu grande influência na formação da cozinha regional, principalmente na região Nordeste com a culinária afro-brasileira. Os pratos que encantam os paladares de todo o mundo, como o acarajé, trazem o tempero forte e a cor da culinária africana. Por consequência, as tradições gastronômicas africanas têm ótima aceitação em terras brasileiras.
A blogueira e cirurgiã dentista Cláudia Nishinaka, que esteve na África do Sul, comenta sobre as semelhanças entre as cozinhas: “Estive na África do Sul em região totalmente turística e onde procurei o prato típico, ele muito assemelhava a origem do nosso prato, mas com temperos totalmente diferentes”, conta. Cláudia explica, ainda, que, por conta da presença de muitos indianos na África do Sul, os temperos se disseminaram.
Apesar de a carne ser um elemento comum nesta cozinha e estar presente na grande maioria dos pratos sul-africanos, o exótico não deixa de ser uma das marcas desta culinária. Comer grilos fritos e tubarãozinho defumado são alguns exemplos do que podemos chamar de culinária africana típica. Além disso, o tipo da carne utilizada não é nem um pouco usual: na receita do prato “biltong”, por exemplo, carnes de avestruz e antílope são os principais ingredientes.
Menu Principal
Para entrar no clima da Copa é interessante saber as especialidades da cozinha sul-africana: em um restaurante típico não pode faltar o bobotie (bolo de carne), o braai (churrasco), o bunnychow (pão sem o miolo, recheado com carne, frango ou legumes picantes), o boerewoers (linguiça picante) e o oxtail (similar à rabada brasileira). Entretanto, outras opções para o torcedor se familiarizar são mais próximas da cozinha brasileira, como a dobradinha e o arroz com milho cozido.
No campo das bebidas, são servidos muitos sucos de frutas locais, como masala ou as nossas velhas conhecidas maçã e laranja e, principalmente, de marula – fruta que dá origem ao licor Amarula, conhecido e muito apreciado no Brasil.
As raízes da cozinha afro-brasileira
Desde o século XVIII, a cozinha africana foi se enraizando na culinária brasileira e um dos ingredientes inseridos e amplamente adotados pelo povo brasileiro foi a pimenta. O uso do condimento passou a fazer parte da mesa das classes dominantes e, com o passar do tempo, se integrou às mais diversas receitas brasileiras, mesmo aquelas que não tem nenhuma ligação com a África.
Em Minas Gerais, o Centro de Estudos da Cultura Afro-Brasileira, desenvolvido a partir de um projeto de Educação Popular financiado por uma ONG Holandesa chamada Cebemo, trata do assunto. A professora do Ensino Fundamental na Escola Estadual Capitão Egídio Lima, membro-fundadora do Centro há 33 anos e coordenadora do projeto “Sim às diferenças”, Maria Luiza Flor Pereira, demonstra que a culinária africana ainda marca presença no território brasileiro: “Como estamos no Vale do Aço-MG (região instituída em 1998 e composta pelos municípios de Ipatinga, Timóteo, Coronel Fabriciano e Santana do Paraíso), na qual a miscigenação é nítida, decidimos desenvolver um centro que pudesse falar da marcante cultura presente aqui: a africana”, explica Maria.
Só na escola em que Maria Luiza leciona, 74% dos alunos são afro-descendentes. Para que os alunos tivessem ainda mais contato com a cultura de origem africana, as cantineiras desta escola ensinam e servem receitas afro-brasileiras. A professora também ressalta as receitas de fubá-suado (sobremesa), inhame com peixe, aluá (suco feito com a casca de abacaxi), todas elas de característica africana e amplamente consumidas na região.
O maior exemplo da comida brasileira de influência africana é a feijoada. Tendo sua origem nas senzalas, a feijoada era feita das sobras das melhores carnes servidas aos senhores. Orelhas de porco, pés, linguiça, carne seca, entre outros, eram os ingredientes do prato que, atualmente, continuam fazendo parte da receita. E a adesão brasileira a este prato foi tanta que passou a ser um prato típico da nossa culinária, representando nossa tradição em todo o mundo. Os famosos caruru e o cuscuz são outros dois pratos, nitidamente, afro-brasileiros.
A proprietária do restaurante de comidas típicas marroquinas, Ariela Doctors, explica que todos os seus pratos vêm acompanhados do “couscous” original. “O mais típico é o couscous royal, servido com sêmola de trigo, cordeiro, legumes e frutas secas”, acrescenta.
Para fazer o “couscous marroquino”, é necessária a cuscuzeira – panela típica para o feitio do prato no estilo africano. “Após ser cozido no vapor de um caldo de legumes e carne, ele é temperado com várias especiarias”, explica Ariela. E a panela, que tem uma tampa especial, serve para apurar os aromas. Os ingredientes mais usados nas receitas são: açafrão, cominho, canela e páprica. Alguns fornecedores brasileiros já importam estes e outros condimentos, além do próprio couscous.
A influência africana na cozinha brasileira não trouxe apenas a incorporação de ingredientes ou formas de preparo. Seu contato com a cultura brasileira a transformou também. Muito do que é nosso ainda faz muito sucesso por lá, bem como traços típicos africanos ainda estão presentes por aqui. Uma cozinha concomitantemente cheia de especificidades e familiaridades que, certamente, vai fazer o torcedor brasileiro que for aos estádios sul-africanos se sentir à vontade. •
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