Lá vem eles

O hot dog do Félix pode ter feito sucesso na novela Amor à Vida, mas nas ruas de São Paulo a moda agora é outra. Em vez das famosas carrocinhas de cachorro-quente, circulam pela cidade os food trucks, veículos com novas opções de refeições. Toda essa diversificação e qualidade chega às ruas com pratos que antes só eram servidos em restaurantes de alto padrão.

No final do ano passado, o prefeito Fernando Haddad sancionou uma lei que muda as regras para venda de comida de rua. O que poderia beneficiar vans de cachorro-quente e pipoqueiros virou oportunidade de negócio gastronômico. A lei municipal 15.947/2013 vai regulamentar como poderá ser essa venda e abre espaço para negócios como os food trucks. “O propósito da lei é flexibilizar algumas relações de ambulantes”, afirma Reinaldo Messias, consultor do Sebrae/SP.

No projeto dos vereadores Andrea Matarazzo (PSDB), Arselino Tatto (PT), Floriano Pesaro (PSDB), Marco Aurélio Cunha (PSD) e Ricardo Nunes (PMDB), carros com até 6,3 metros de comprimento poderão operar, desde que deixem ao menos 1,2 metros de espaço para pedestres na calçada.

Os “Food Trucks” são muitos comuns nos Estados Unidos e Europa, e vendem de tudo: de hot dog à comida mexicana, de sorvete a doces diversos. Na capital paulista, essa tendência ganhou mais força na esteira do sucesso das recentes feiras gastronômicas realizadas no bairro de Vila Madalena nos fins de semana, e também durante a Virada Cultural, evento que reúne 24 horas de atrações artísticas gratuitas. Para empresários do ramo de alimentação, o caminhão também ajuda a diminuir custos como impostos e aluguel.

Em uma entrevista cedida à Folha de S. Paulo, o chef de cozinha Márcio Silva, dono da Buzina Food Truck, afirmou que “São Paulo tem preços impraticáveis, aluguéis obscenos e uma crise emocional. Se hoje é impossível abrir um bom restaurante sem gastar R$ 1,5 milhão, em um excelente ‘food truck’ o investimento é menor do que R$ 150 mil”. Para ele, os chefs perceberam que é uma maneira de ganhar dinheiro. Além disso, o contato direto com as pessoas oferece um estímulo diferente do da cozinha.
Rolando Massinha
Depois de trabalhar como fotógrafo, pintor, animador de trio elétrico e office boy, além de enfrentar uma época difícil em que não tinha onde morar, não conseguia se sustentar e passou por inúmeros “problemas técnicos”, o pernambucano Rolando Vanucci, neto de italianos, depositou todas as suas fichas em uma Kombi 1997 e nela criou a Rolando Massinha. “Resolvi parar, não para comer, mas para olhar a Kombi. Não tenho explicação de porquê fiz isso. Olhei por fora, por dentro e achei maravilhoso, tudo limpo, organizado, bem montado. Fiz tudo no impulso. Em questão de minutos, eu estava falando ao telefone com a proprietária e propondo comprar a Kombi dela, mesmo sem olhar. Quando cheguei, estacionei a Kombi em frente ao prédio, sentei no meio-fio e me perguntei: o que vou fazer agora?”, relembra Vanucci.

A primeira ideia do chef foi vender hot dog, de forma diferente. Mas depois de trinta segundos ele mudou de ideia e se lembrou do fettuccine e do espaguete de um bistrô que conheceu em Belo Horizonte. Dessa lembrança veio a certeza: vender macarrão!
Vanucci investiu R$ 18 mil para deixar a Kombi pronta para ir para as ruas. “Quando o (vereador) Andrea Matarazzo foi defender o projeto, ele disse que o carrinho do Rolando seria a referência para as normas de higiene e condicionamento”, conta orgulhoso o empresário.

No cardápio é possível encontrar mezzaluna de muçarela com tomate seco e rúcula, raviolli quatro queijos, fiori de muçarela com manjericão, nhoque recheado de quatro queijos (o mais pedido), nhoque de mandioquinha, tortelli de carne, espaguete, fetuccini de espinafre e nhoque de batata. Cada prato custa entre R$ 16 e R$ 22. Para encontrar estas massinhas, vá à Avenida Sumaré a partir das sete horas da noite. Até sábado ela fica estacionada por ali até às duas horas da madrugada. No domingo o expediente é até as onze horas da noite.

Quando perguntado pelo motivo de investir em food truck ele responde que queria vender uma comida boa com um preço justo. E a dica que ele deixa é: “venha para rua se houver a necessidade de trabalhar e sobreviver, pois se vier de acordo com a moda, não irá sobreviver”, finaliza Vanucci.

Temaki Navan

O próprio nome já diz. O produto é o temaki e ele é vendido em uma Renault Master. O dono dessa ideia foi o empresário Alan Liao. “Sou DJ há mais de 15 anos e toco ao mesmo tempo que cuido do meu negócio. A ideia do Temaki Navan surgiu quando fui morar em Nova York e vi que por lá existe toda uma cultura de food trucks espalhados pelas cidades. No Brasil não temos isso e, ao voltar, senti falta de lugares para comer durante a madrugada, logo surgiu a ideia de abrir um restaurante que atendesse esse público, e por que não um restaurante móvel? Escolhi uma temakeria por ser uma opção saudável à noite e por ser um segmento que está crescendo todos os dias. As pessoas cada vez mais se importam com a saúde e bem-estar”, conta.

Liao investiu cerca de R$ 300 mil para montar o negócio e isso inclui trâmites burocráticos, obtenção de licenças e adaptação do veículo para receber os produtos. O cardápio conta com mais de 30 sabores, derivados de salmão, atum, camarão entre outros. O valor varia entre R$ 13 e R$ 20 e, com as vendas, eles faturam uma média de R$ 40 mil por mês. “A maior vantagem até hoje são as rodas. Não sabemos ainda com propriedade como vai ser com essa nova legislação mas, até então, as rodas nos possibilitam a locomoção de um ponto fraco para um ponto forte, por exemplo”, explica.

Ao criar a Temaki Navan, Liao quis quebrar o preconceito que existe em se comer na rua. A ideia era provar que, mesmo em uma van, é possível ter qualidade e cuidados de um restaurante fixo de alto padrão.

Além da preocupação com a qualidade dos produtos servidos, Liao se preocupou também com o meio ambiente e instalou itens focados à sustentabilidade. No Renault Master é possível encontrar placas solares carregando as baterias estacionárias; hastes de energia eólica, sistema de iluminação com LED, coleta seletiva, manta antibactericida feita de material PET, revestimentos internos feitos a partir de material reciclado e caixa com 100 litros de água limpa e outra de 100 litros para armazenamento de água já utilizada que posteriormente será descartada em esgoto apropriado.

Ao ser perguntado sobre que dicas ele daria para quem quer investir nesse tipo de negócio, o proprietário da Temaki Navan é categórico. “É necessário ter a consciência que sendo um food truck, algumas questões não são mais simples, e sim mais complicadas. Como armazenamento, higiene, mão de obra e até mesmo a dificuldade de cativar clientes fiéis sem oferecer uma mesa e garçom para atendê-los. Conhecer seu produto e seu público alvo é primordial”, finaliza.

A temakeria foi inaugurada em dezembro de 2011, na Riviera de São Lourenço e foi sucesso absoluto. Agora, o restaurante está operando diariamente na hora do almoço de segunda a sexta na região da Av. Berrini, na Zona Sul de São Paulo e na porta das mais conceituadas baladas da cidade. Além de eventos fechados como de faculdades, formaturas e corporativos. Apesar de não ter nenhuma parceria firmada, o bom relacionamento dos proprietários com os empreendedores facilita a aceitação a clientela e o próprio desenvolvimento da temakeria: “Não estacionamos na porta de qualquer lugar, precisamos ter a autorização dos responsáveis pela balada. Dessa forma, todos saem ganhando”, afirmou.

O restaurante chega a montar mais de 450 temakis por dia, a mesma média de uma temakeria fixa, convencional.

La Buena Station

Diferentemente dos dois empreendimentos acima, a La Buena Station nasceu para ser um “complemento” do restaurante La Buena Onda. A unidade móvel serve as opções de comida mexicana e tex-mex como os clássicos burritos, tacos, quesadillas e nachos com o mesmo padrão de unidade no Tatuapé.

O veículo escolhido foi uma van Fiat Ducati equipado e adaptado para atender às normas de boas práticas na alimentação. As operações pelas ruas de São Paulo começaram em maio de 2013. O mexicano Arturo Herrera foi o idealizador e desembarcou no Brasil há mais de dez anos trazendo consigo considerável bagagem em gastronomia mexicana. Foi chef executivo, consultor e criador das receitas de novos cardápios da Rede de Franquias do Café Cancun. Durante quase cinco anos, conheceu várias cidades do Brasil onde se desenvolveu também nas culinárias brasileiras. Inaugurou unidades La Buena Onda em Cuiabá, Ribeirão Preto, Goiânia e Manaus, e fez de todo um trabalho de consultoria de cardápio, treinamento das brigadas da cozinha e manutenção dos padrões junto aos franqueados. “Pretendemos levar o La Buena Station até os grandes centros empresariais onde as pessoas não abrem mão da qualidade, preço e rapidez”, conta Herrera

“Quando começamos a circular com a van as pessoas estranhavam. Achavam que vendíamos pinga, café ou hot dog. Era algo diferente para eles, pois as ruas de São Paulo são muito carentes de boa comida”, relembra Herrera.

O La Buena Station ficou conhecida nos principais eventos de música de São Paulo, como o Lollapalooza. Herrera entra em contato com a organização do evento e aluga um espaço para estacionar sua van lá dentro perto da praça de alimentação. E assim eles têm segurança garantida.

King Döner Kebaberia

Famoso na Europa, o döner kebab já pode ser apreciado nas ruas de São Paulo. O King Döner é uma van adaptada em lanchonete que roda pelos bairros e locais mais badalados da cidade de São Paulo, ABC e litoral, vendendo o delicioso lanche. A comida turca ganhou uma adaptação alemã que, há décadas, conquistou diversos países da Europa. Há opções de carne ou frango assados em um grande espeto vertical, servidos com salada, molhos especiais e um pão turco sem igual.

A ideia dos proprietários, Rafael Martins e Vladimir Bin, foi trazer ao Brasil um tipo de comida que viram que fazia muito sucesso na Alemanha e ao mesmo tempo estrear seu conceito de food truck. “Tanto eu como meu sócio moramos na Alemanha e adorávamos o kebab de lá. Quando voltamos, decidimos inaugurar o negócio por aqui”, diz Martins, que conta ter adaptado a receita para se adequar melhor ao paladar do brasileiro (ele usa carne bovina em vez de cordeiro).

A van trabalha dois dias na semana durante o horário do almoço na Vila Olímpia e consegue vender até 100 kebabs diariamente. Já os outros dias são dedicados a eventos. “Enquanto não temos o amparo da lei, decidimos investir mais em eventos. No entanto, assim que ela sair, iremos aumentar nosso tempo nas ruas”, afirma.

Martins, o proprietário da Renault Master, a equipou com um gerador vindo dos Estados Unidos e com itens adequados para a comercialização dos produtos previamente feitos em uma base cozinha. A van é super moderna, estilizada, possui sistema de som e televisão, controle de vendas e câmeras de segurança. “Quando voltei vi que não havia esse tipo de lanche aqui no Brasil. Estava aí a oportunidade de um novo negócio”, explica.

Rolando Massinha
www.rolandomassinha.com.br

Temaki Navan
www.navan.com.br

La Buena Station
www.labuenastation.com.br

King Döner Kebaberia
www.facebook.com/kingdonerbrasil

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