Home office: uma tendência mundial

Mais produtividade e redução de custos são alguns dos benefícios gerados

EDITORIASERVIÇOS

É possível conciliar produtividade profissional e qualidade de vida? O home office sugere que sim. No entanto, no Brasil, a prática ainda não ganhou muito espaço. Ao analisar a questão do ponto de vista econômico, o modelo de trabalho pode oferecer muitos benefícios para os empregadores, que terão os custos reduzidos referentes ao espaço físico, à manutenção de equipamentos e à garantia de benefícios como vale-transporte. Para os colaboradores, além da flexibilidade na rotina, também é possível poupar recursos como estacionamento e combustível.

Realizada pela SAP Consultoria RH, entre setembro de 2015 e março de 2016, uma pesquisa ouviu mais de 300 companhias de diferentes segmentos e constatou que 37% das corporações do país já aderiram ao trabalho remoto.

Nas empresas em que o home office está instituído, 7% dos trabalhadores praticam a modalidade. De acordo com o estudo, as organizações de pequeno porte têm uma visão mais positiva do trabalho remoto. Entre as que têm um quadro de funcionários entre 101 e 1.000 pessoas, 45% adotam a medida, enquanto só 6% das que empregam mais de 10.000 pessoas fazem o mesmo.

A atração de talentos foi um fator citado por 89% dos empregadores, enquanto 87% pontuaram a otimização de processos internos e 85% consideraram a retenção de colaboradores. Quase 75% enxergam na modalidade uma maneira de viabilizar ou manter planos e estratégias de negócios e 66% afirmam que é uma alternativa eficiente para enfrentar períodos de crise econômica.

O conservadorismo por parte da direção é um fator que limita cerca de 40% das instituições entrevistadas, e questões de segurança da informação interferem em 38%. A dificuldade em gerenciar as atividades em ambiente externo foi considerada por 36%, e as barreiras de infraestrutura por quase 30%.
O estudo foi realizado com o apoio da SOBRATT (Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades), da ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos), da BRASSCOM (Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação) e do GCONTT (Grupo de Consultoria em Teletrabalho).

Questões jurídicas

Muitas empresas, quando questionadas, alegam que as questões trabalhistas são um empecilho para adotar essa prática. Outras reportam que a cultura corporativa também tem um peso relevante para adiar ou excluir essa possibilidade. Porém, a modalidade foi regulamentada em 2011 e, com as regras estabelecidas, foram assegurados aos trabalhadores remotos os mesmos direitos trabalhistas da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Com a recém-aprovada reforma trabalhista, aconteceram alterações em alguns aspectos específicos, como o controle de jornada, por exemplo. O empregado em home office não está mais sujeito a essa regra, o que exclui o recebimento de horas extras.
Outra mudança é referente aos gastos com infraestrutura, equipamentos e despesas em geral – que deveriam ser de responsabilidade do empregador. Agora, de acordo com a CLT, essas despesas devem ser negociadas e previstas no contrato. As normas de segurança do trabalho também foram revistas: ao empregador cabe instruir os colaboradores quanto a possíveis acidentes de trabalho e doença. Já o colaborador deve se comprometer a seguir tais instruções assinando um termo de responsabilidade.

Feitas essas ressalvas, as demais regras destinadas aos prestadores de serviço em teletrabalho e home office são as mesmas aplicadas aos trabalhadores da CLT, tendo remuneração, 13º salário, férias e verbas rescisórias garantidas.

Uma necessidade que se tornou negócio

O Remote.co funciona como uma consultoria tanto para empresas quanto para profissionais que acreditam no trabalho remoto como oportunidade. Fundada por Sara Sutton Fell, a plataforma fornece suporte e dicas de melhores práticas para as organizações que já adotaram ou estão implementando uma equipe remota.

Sara atua desde 2007 como CEO e fundadora da FlexJobs e, desde então, tem executado equipes de trabalho virtuais com sucesso. A carreira como trabalhadora remota começou quando foi demitida no oitavo mês de gestação do seu primeiro filho e precisou buscar oportunidades no terceiro trimestre da gravidez. Embora preenchesse todos os pré-requisitos e tivesse as qualificações necessárias, parecia não haver espaço para ela no mercado de trabalho. Além disso, a procura ficava ainda mais complexa, uma vez que devido às suas condições, ela buscava uma oportunidade com mais flexibilidade de horários.

Como não conseguia encontrar uma plataforma que pudesse ajudar nessa busca de forma efetiva, Sara decidiu criar o próprio negócio, que também serviria de auxílio para outras pessoas que estavam em uma situação parecida. Com o apoio e financiamento de um ex-chefe, ela construiu e lançou a FlexJobs – um serviço de assinatura mensal que reúne apenas vagas flexíveis em empresas renomadas.

Atualmente, toda a equipe da empresa é formada por trabalhadores remotos que, muitas vezes, sequer se conhecem. Mesmo não tendo um escritório fixo, a FlexJobs conta com quase 70 colaboradores, e a taxa de rotatividade é baixa – o que comprova a teoria de Sara de que, com seriedade e determinação, é possível construir uma empresa saudável, flexível e produtiva.

O panorama do home office no mundo

Muitos estudos têm sido desenvolvidos para avaliar os benefícios e o atual panorama do home office no mundo. A própria FlexJobs fez um levantamento, em 2014, que vem sendo atualizado anualmente, na tentativa de compreender as motivações e o perfil dos profissionais que buscam por mais flexibilidade no trabalho. Cerca de 1500 pessoas responderam ao questionário e, tanto para os empregadores quanto para os empregados, é uma boa oportunidade para conciliar as demandas com as procuras.
Dos entrevistados, 74% já trabalharam remotamente e 79% têm formação superior completa e buscam flexibilidade por tempo integral. Os que querem um cronograma alternativo ou flexível somam 47%. As razões que levam os profissionais a buscarem esse tipo de trabalho são qualidade de vida (74%), por razões familiares e saúde (52%), economia de tempo e redução do estresse (47%) e economia de custos (43%).

Mais de 75% faziam uma viagem diária de ida e volta do trabalho de mais de uma hora – desses, 21% tiveram um trajeto diário de mais de três horas. Para 61%, a principal razão que torna o home office mais produtivo é a redução da política de escritório. O estresse reduzido de deslocamentos e a diminuição das interrupções de colegas também foram fatores significativos.

Dos entrevistados, 20% receberiam um corte salarial de até 10% para opções de trabalho flexíveis e 18% estariam dispostos a trabalhar mais horas. Mais de 80% dos entrevistados disseram que eles seriam mais leais com seus empregadores se houvesse mais flexibilidade e quase 40% desistiram de uma promoção ou abandonaram um emprego devido à falta de flexibilização.

Há quatro anos, a arquiteta Luciana Torrentino, 36, entrou para o grupo de profissionais que aderiram ao home office depois de trabalhar cinco anos no mesmo escritório como CLT. “A equipe de trabalho é pequena, mas a diretoria decidiu tentar esse novo modelo. No início, fiquei receosa principalmente pela disciplina que esse sistema exige, mas os ganhos no quesito qualidade de tempo, de fato, são inquestionáveis”, diz.

Atualmente, Luciana vai à sede da empresa duas vezes por semana apenas para participar de reuniões de alinhamento de atividades com a equipe e, quando necessário, para atender alguma demanda de um cliente específico. “Com o tempo, conseguimos encontrar as melhores ferramentas para interação da equipe e, no ano passado, quando meu primeiro filho nasceu, tive certeza de que esse é o modelo ideal de trabalho para mim”, pontua.

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