Capa: Food service nas urnas: confirma ou corrige?

Diversas polêmicas envolveram profissionais e empresas que se posicionaram politicamente. Especialistas destacam como é melhor agir nesses momentos

Recentemente, no dia do primeiro turno das eleições deste ano, a chef Helena Rizzo, considerada uma das melhores do país, se envolveu em uma polêmica. Ela postou uma foto no Instagram (@helenarizzo) com os funcionários dela, mostrando o dedo do meio. Na legenda, havia hashtags como #elenão e #elenunca, um não apoio ao então presidenciável Jair Bolsonaro, do PSL.

Chef e sócia de três restaurantes, incluindo o Maní, eleito em 2014 como o segundo melhor da América do Sul e presente na lista dos 40 melhores do mundo, ela viu a rede social dela lotar de comentários contra e a favor do gesto. Muitos criticaram a postura da profissional e afirmaram, inclusive, que não mais frequentarão o estabelecimento. Outros propuseram um boicote.

A Food Service News procurou a assessoria da chef para que ela comentasse a respeito do fato. A assessoria de imprensa da profissional afirmou que ela não vai se manifestar acerca do assunto e que tudo o que ela gostaria de dizer já foi dito na conta dela no Instagram, na postagem intitulada “esclarecimento”.

Na postagem, Helena Rizzo diz: “Meu gesto é uma manifestação contra o preconceito, o machismo, o racismo, a homofobia e a misoginia. Reforço também que ele foi pessoal e expressa tão somente a minha convicção, e não a do Grupo Maní”, destaca. “Assistir a um movimento crescente de intolerância que atinge boa parte dos meus colegas de cozinha me deixa extremamente consternada. Em nenhum momento manifestei posição partidária, não sou comunista nem socialista. Sou uma pessoa que vê o futuro dos meus pares ameaçado. E isso, espero que entendam, é difícil demais aceitar”, afirma, ainda, o texto, que pode ser lido na íntegra no Instagram da chef.

Mais polêmica

Após a postagem da chef Helena Rizzo, mensagens no Facebook passaram a afirmar que o renomado chef Alex Atala, proprietário do restaurante DOM, e a equipe dele, apoiaram a profissional, fazendo uma postagem semelhante à dela, com os mesmos gestos. Os textos propunham um boicote à Atala, por, supostamente, ter ofendido os eleitores de Bolsonaro.
Após o conteúdo ter viralizado, o chef explicou nas redes sociais dele que as fotos não faziam alusão à campanha contra o então presidenciável. A imagem foi tirada durante uma viagem que Atala fez à Tasmânia.

“Fotos feitas nos restaurantes de amigos na Tasmânia nos últimos 10 dias. … Ta difícil esse momento no país… infelizmente alguns brasileiros estão tentando dar outros sentidos as fotos publicadas no instagram”, disse ele na postagem.

A Food Service News também procurou a assessoria de imprensa de Atala, para que ele comentasse acerca do assunto. A resposta dada foi: “não faremos nenhum posicionamento”.

Promoção

Não é de hoje, no entanto, que polêmicas relacionadas a posicionamentos políticos por parte de marcas e profissionais têm surgido e viralizado. Antes mesmo das eleições, foram registrados fatos relacionados ao tema. No começo deste ano, por exemplo, um franqueado da rede Detroit Steakhouse, em Manaus, no Amazonas, criou uma promoção para celebrar, na época, a possível prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O estabelecimento afirmou que daria 1% de desconto para cada ano de condenação do político. A marca precisou ir a público para explicar que a ação não havia sido autorizada.

“Descobrimos o caso da promoção, feita pelo nosso franqueado de Manaus, a partir do momento que alguns órgãos de comunicação entraram em contato conosco solicitando posicionamento da marca. Vale ressaltar que em nenhum momento fomos consultados ou autorizamos a promoção, mas enfatizamos que, apesar de discordarmos da promoção feita e não termos dado a autorização a ele, a favor da democracia e a favor do direito de expressão do franqueado, reafirmamos que o franqueado teria de honrar com o compromisso assumido com os clientes, e ele a honrou”, afirma o sócio-diretor da Detroit Steakhouse, Fábio Marques Jr.

O profissional relata que a marca se posicionou durante todas as entrevistas, nas mídias sociais e também em mensagens inbox a centenas de clientes que defenderam ou atacaram a empresa, explicando que a promoção não havia sido autorizada.

“Somos a favor da democracia e de um país melhor, onde todos tenham os mesmos direitos e deveres, mas não nos posicionamos politicamente como marca porque não torcemos nem contra e nem a favor de quaisquer políticos e partidos que sejam”, afirma Marques.

O profissional destaca que a marca é a favor do Brasil e não de partidos políticos. “Não acreditamos que misturar política, religião e opiniões/posições pessoais com os negócios seja o mais adequado, porque infelizmente o país ainda se encontra muito polarizado e, assim, podem gerar transtornos completamente desnecessários ao negócio como boicote ou mesmo quebra-quebra, que, infelizmente, temos visto com certa frequência nos últimos tempos”, frisa.

O profissional ressalta que, enquanto a democracia e as instituições estiverem funcionando, eles não acreditam que devem envolver o lado profissional diretamente na política. “Todavia, devemos e podemos torcer e trabalharmos pessoalmente para termos um país melhor para todos brasileiros”, pondera.

Campanha

Nem um lado, nem outro. Essa foi a posição da rede de fast food Burger King, que se declara apartidária. A marca, porém, não ficou calada na época das eleições. Uma semana antes de os brasileiros irem às urnas no primeiro turno, fez uma ação em que provocava os eleitores a respeito do voto em branco.

“A campanha Whopper em Branco foi desenvolvida com o objeto de incentivar o exercício democrático e garantir que seja praticado com consciência e responsabilidade”, destaca o diretor de marketing e vendas do Burger King Brasil, Ariel Grunkraut

“A campanha Whopper em Branco foi desenvolvida com o objeto de incentivar o exercício democrático e garantir que seja praticado com consciência e responsabilidade. Para isso, foi realizada uma ação em frente a um restaurante do Burger King entrevistando o público que passava por lá referente ao voto branco. Aqueles que responderam dizendo que votariam em branco receberam um sanduíche com apenas alguns ingredientes como, por exemplo, pão, cebola e maionese, para simbolizar que o produto é feito com ingredientes escolhidos por outra pessoa e que é o mesmo que acontece quando vota-se em branco: alguém escolhe o resultado por você e, desta forma, não tem como reclamar do resultado depois”, relata o diretor de marketing e vendas do Burger King Brasil, Ariel Grunkraut.

A respeito da importância dessa ação, o profissional afirma que a marca acredita que a política é o guarda-chuva que contempla todas as questões de relevância da sociedade. “Como empresa inserida profundamente nos países onde atua, o Burger King está atento ao seu papel na promoção de suas responsabilidades. Recebemos em nossos restaurantes aproximadamente 150MM de pessoas todos os anos — isso nos possibilita ser uma antena da sociedade, antecipar tendências e fazer parte de mudanças importantes. O propósito do BK com essa campanha foi de provocar uma reflexão sobre a importância do voto consciente e não deixar essa decisão na mão dos outros, caso optem por votar em branco, reforçando que a decisão individual pode afetar o coletivo”, frisa.

O alcance da campanha foi grande: somente nas primeiras 24 horas que estava no ar, já haviam sido registradas mais de 10 milhões de visualizações, 96 mil menções e 300 mil compartilhamentos, sendo 90% positivos, segundo Grunkraut.

“O Burger King® acredita na importância da conscientização da população. Estamos presentes em diversos momentos dos nossos consumidores e nada mais justo do que contribuirmos de alguma forma com momentos como este. Reforçamos que BK é uma empresa apartidária e que o voto é uma escolha individual e um direito de cada cidadão exercer da maneira que achar mais adequada”, ressalta o profissional.

Posicionamentos

Diante desse cenário, ficam alguns questionamentos. Quais os cuidados que uma empresa deve ter ao se posicionar politicamente? Quais os resultados positivos e negativos que essa postura pode gerar? Como a organização deve agir em relação aos colaboradores nesse aspecto? Deve criar um código de conduta? Em algumas circunstâncias, não se posicionar também pode ser considerado prejudicial? Como a empresa deve agir caso algum posicionamento repercuta de maneira bastante negativa? E diante de boicotes?

“Para se posicionar politicamente, é importante que a empresa tenha de forma muito clara quais são seus valores, que, além de serem claros, que eles sejam de fatos praticados para não correr o risco de eventual hipocrisia por parte dos líderes e/ou dos empresários. Quanto ao posicionamento político, é importante, além de manter a coerência, conhecer com profundidade os políticos que defendem o mesmo posicionamento. Aqui, acho que é um risco enorme, pois futuramente pode haver uma contradição”, destaca Marcelo Scharra, consultor da Inside Business Design.

De acordo com o profissional, o posicionamento político, quando é coerente, reforça a identidade de uma empresa ou marca. Para ele, é importante quando são defendidas causas universais como meio ambiente, entre outras, “mas quando o posicionamento é partidário político existe um risco muito grande pela fragilidade dos valores políticos brasileiros”, diz ele.

Já em relação aos colaboradores, o profissional afirma que eles devem ser livres para que expressem a opinião deles, sempre em caráter individual, e que o código de conduta deve conter apenas que eles se expressem em seu próprio nome.

E se já tiver um posicionamento por parte da empresa, que gerou uma repercussão negativa? “Nesse caso, a empresa deve reforçar o seu posicionamento e, por isso, tem de ser coerente, pois, se for coerente, os que compartilham desse sentimento ou desses valores se aproximarão”, diz ele.

Escolhas 

Andrea Deis, professora, gestora empresarial pela FGV, master coach e palestrante, ressalta, em relação ao posicionamento político por parte das empresas, que, ao escolher por um, a organização perde a oportunidade pelo outro. “A empresa deverá existir, persistir, independentemente da sua escolha política. O risco da escolha é isolamento. A imparcialidade neutraliza a opinião política e potencializa o foco no todo, o que, independentemente do partido político, é importante para a organização”, diz. “Se escolher por um, poderá ter a hostilidade do outro e sofrerá os impactos da decisão”, pondera.

Além disso, um posicionamento para um lado pode gerar, segundo ela, ruídos de comunicação, desperdício de tempo gerado pelo posicionamento, insegurança para os que discordam do posicionamento, sejam clientes internos ou externos, queda na produtividade e faturamento por causa dos que não concordam, entre outros.

Em relação aos colaboradores, a profissional pontua que a empresa deve criar um código de conduta que ela também siga. Ressaltando a importância de que “objetivos comuns potencializam o resultado; a organização deve ser soberana independentemente do partido político, e, uma vez tomada a decisão, terá que conviver o período estabelecido independentemente da sua escolha; definir claramente posições individuais da coletiva e até se uma pode ou deve interferir ou não na outra; criar estratégias de recomposição para opção A ou B, de comunicação e negociação quando necessário”, diz.

Por fim, a profissional dá dicas aos empresários em relação ao assunto. “Pense em médio e longo prazo. Ouça os dois lados, pontuando suas ideais. Demonstre interesse pelo propósito maior. Discordâncias podem ser expressas sem prejudicar a organização. Conflito não controlado se amplia. Omissão faz o conflito agravar-se. Num conflito ampliado, aumenta o número de partes envolvidas. As divergências reais passam a ser emocionais”.

Cautela

Jéssica Costa, sócia e head de entrega de projetos de eficiência operacional da AGR Consultores, frisa que, especialmente no cenário polarizado em que nos encontramos, de extremos e dividido, os posicionamentos políticos públicos devem ser cautelosos e se limitar a fatos de domínio público, prezando pela maior imparcialidade possível e sem expressar opiniões pessoais.

“A mensagem sobre a consciência do voto é sempre mais positiva e relevante do que a tentativa de convencimento”, afirma Jéssica Costa, sócia e head de entrega de projetos de eficiência operacional da AGR Consultores

“Deve-se evitar argumentos polêmicos e não comprovados, assim como mencionar nomes de empresas, mesmo que envolvidas em escândalos. Isso muda um pouco se o contexto for onde uma empresa que está sendo usada ou até mesmo atacada por um candidato ou partido; neste caso, o posicionamento deve ser rápido, institucional, ilustrado com fatos e contundente. As notícias e fake news estão por todos os lados, para que polemizar mais?” destaca ela.

Conforme a profissional pondera, o impacto positivo ou negativo está diretamente ligado ao posicionamento que se tem. “Se você expõe opiniões fortes, seguramente terá maiores chances de impactos negativos em boa parte do mercado, considerando as extremas rejeições que se tem para os dois lados. Novamente, no caso de um ataque, quanto mais rápido e contundente for a resposta, maiores as chances de que os efeitos sejam contingenciados mais rapidamente”, destaca.

Para ela, o código de conduta deve existir e deve também ser lido, entendido e assinado por todos os colaboradores. “Isso evita muitos problemas e mantém o alinhamento dos colaboradores com temas sensíveis à companhia. Os temas políticos devem se limitar ao contexto social de cada indivíduo e evitados no ambiente corporativo (interno ou externo). Boa parte das pessoas perderam o limite na defesa de opiniões e estão extrapolando, ferindo a ética e o bom senso. Isso pode custar o rompimento de contratos com a empresa, e desavenças desnecessárias entre a equipe, além da rejeição dos consumidores a determinados produtos ou serviços”.

Não posicionamento

Para Jéssica, não se posicionar também pode ser considerado algo prejudicial, pois pode demonstrar falta de conhecimento ou interesse pelas questões do país. “Por isso entendo que a exposição da opinião, com fatos e cautela. É importante ler o ambiente e os interlocutores, assim como respeitar e debater com prudência e limites. No caso de uma utilização indevida de imagem da empresa, o pior que pode acontecer é a omissão e a não respostas. Situações desse tipo pedem respostas rápidas, contundentes e definitivas para que o risco seja mitigado. Sempre lembrando que vivemos em uma democracia, em que as opiniões devem ser, antes de tudo, respeitadas”, afirma.

Por fim, a profissional também deixou as dicas dela para os empresários. “Colocar sempre as opiniões sem declarar defesa a qualquer um dos lados. Recomendar informações sem induzir ou tentar convencer as pessoas. A mensagem sobre a consciência do voto é sempre mais positiva e relevante do que a tentativa de convencimento. A orientação e o estímulo à informação são os melhores caminhos”, diz.

Detroit Steakhouse
detroitsteakhouse.com.br
Burger King
www.burgerking.com.br
Inside Business Design
insidebd.com.br
Andrea Deis
https://pt-br.facebook.com/andreadeis.coach/
AGR Consultores
www.agrconsultores.com.br

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