Economia: Crescendo na crise

Caminho do sucesso mesmo em tempos difíceis pode estar na aposta em inovação e valorização do cliente

Diante do difícil cenário econômico e político que o Brasil vive desde 2013, muitos empresários já se perguntaram se vale a pena investir no país e se há espaço para crescimento. Afinal, nesses últimos anos, a economia brasileira passou por uma brusca virada, saindo de um ‘boom’ econômico para uma profunda recessão. Em 2010, por exemplo, o Brasil teve o maior crescimento do seu Produto Interno Bruto (PIB) em 20 anos, de 7,5%. Mas, em 2016, registrou a segunda retração anual consecutiva, de 3,6%.
Na prática, para muitos especialistas, a recessão acabou no fim de 2016. E, em 2017, o PIB, que é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país e serve para medir a evolução da economia, cresceu 1%. No entanto, todos os transtornos causados pela crise ainda são sentidos pela população. Até porque, quase dois anos depois, a economia ainda é 6% menor do que era em 2014. E, considerando que a população cresceu nesse período, o país tem mais gente dividindo a ‘mesma fatia do bolo’. Ou seja, uma queda ainda maior do PIB per capita. Com isso, o esperado é que o alívio para o mal-estar econômico só deva vir com a retomada do crescimento, com mais crédito e geração de empregos.
Segundo o relatório de mercado “Focus”, divulgado no começo de julho deste ano pelo Banco Central do Brasil (BC), a previsão é que o crescimento do PIB volte a reduzir em 2018. Também conforme o mesmo documento, os economistas preveem que a economia brasileira vai crescer 1,53% neste ano.

Efeitos

Todas essas expressivas oscilações atingiram, em cheio, o bolso da população, e forçaram muitos brasileiros a mudarem o seu estilo de vida, inclusive em relação ao consumo dos produtos de primeira necessidade, como os alimentos. Entretanto, de acordo com Felipe Lacerda Diniz Leroy, professor de economia do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais de Minas Gerais (Ibmec/MG), o setor de food service tem um futuro promissor, mesmo diante dessa forte crise econômica.

“Principalmente pela dificuldade de mobilidade das pessoas nos grandes centros urbanos. Grande maioria das pessoas trabalha o dia todo e não consegue retornar em tempo hábil para almoçar em casa. A projeção é de crescimento do setor para o ano de 2019, diferentemente da maioria dos segmentos da nossa economia”, explica o economista.
Para Leroy, o mercado de alimentação fora do lar foi um dos menos atingidos pela crise por ser um setor que comercializa bens de primeira necessidade. “A elasticidade-preço da demanda é baixa. O termo elasticidade-preço significa que elevações dos preços mais do que compensam a redução da quantidade demandada dos produtos. Neste caso, alimentação. Difícil substituir comida. Produtos essenciais possuem baixa elasticidade-preço e baixa elasticidade- renda. O último setor a sofrer com crises econômicas é o alimentício”, ressalta.

Na prática

Apesar de o setor de food service ser considerado menos propício aos malefícios oriundos da instabilidade econômica e política do Brasil, segundo esclareceu o economista Leroy, empresários do ramo afirmam que, na prática, a realidade é um pouco diferente.
Jonas Lucio Maia, diretor de planejamento e joint ventures da Coca-Cola Femsa Brasil, afirma que a empresa foi, sim, atingida pela crise iniciada em 2013. Além disso, ele ressalta que são raros os setores econômicos não impactados.

“O importante é não cair na armadilha das soluções fáceis, nem tampouco adotar a postura de simplesmente esperar que as coisas melhorem um dia”, diz Jonas Lucio Maia, diretor de planejamento e joint ventures da Coca-Cola Femsa Brasil

“Dependendo da forma como analisamos, essa foi uma das crises mais longas e mais profundas da nossa história econômica. Agora que estamos saindo da recessão, temos a tendência e até o desejo de esquecer o que passou. Mas, olhando para trás, vemos a real dimensão da crise. Durante oito trimestres consecutivos, o PIB do país foi contraindo, trimestre após trimestre, sem contar que os demais tampouco foram de crescimento significativo. Imaginem o que significa estar vinte e quatro meses seguidos com a economia do país andando para trás. Isso comparando contra trimestre anterior, pois, se compararmos contra ano anterior, os resultados são ainda piores”, analisa o diretor.

Maia ressalta que a Coca-Cola Femsa Brasil é uma empresa de bens de consumo, o que a faz ser bastante impactada por temas como a confiança dos consumidores e o poder de compra deles. “A confiança do consumidor, que começou 2014 muito próximo da linha neutra entre o otimismo e o pessimismo, mergulhou para o lado pessimista e chegou a números piores que os que tínhamos visto após a crise mundial de 2008. Apenas para dar alguns números, foram oito trimestres consecutivos com o consumo das famílias em queda, desemprego passou de 8,5% em 2015 para 12,7% em 2017, dois anos consecutivos com o salário médio do trabalhador não conseguindo acompanhar nem a inflação. Isso sem falar em pressões/volatilidade do dólar, cuja cotação de R$/US$ 2,66, em 2014, disparou para R$/US$ 3,90, em 2015, e recuou para R$/US$ 3,26, em 2016”, pontua.

Clovis Tramontina, presidente do Conselho de Administração da Tramontina
“A Tramontina segue lançando produtos, fazendo promoções, conversando com os clientes para que eles também ofereçam preços especiais, para que todos possam ganhar”, diz Clovis Tramontina, presidente do conselho de administração da empresa

Clovis Tramontina, presidente do conselho de administração da Tramontina, também alega que a companhia foi, sim, afetada pela crise. Ele enfatiza que os efeitos do desequilíbrio econômico e político do Brasil só foram possíveis de serem driblados devido à ampla experiência adquirida em anteriores momentos de crise do Brasil.

“Como qualquer empresa centenária, a Tramontina já viveu marcos históricos e superou muitas instabilidades financeiras. Enquanto construía sua história, passou por duas guerras mundiais, viu o primeiro homem pisar na lua, a primeira transmissão televisiva, a primeira troca de moeda do país, a mudança da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília. Foram muitos acontecimentos no Brasil e no mundo, além de incontáveis crises. Em tempo de crise, conseguimos manter todos os empregos e nossa infraestrutura”, diz.

Como crescer?

Apesar dos reais prejuízos que uma crise traz para um país como um todo, ela também tem outro lado. “A crise traz consigo inúmeras janelas de oportunidades”, afirma o economista Leroy, que acredita que inovar e atender aos desejos e necessidades das pessoas é a forma mais estratégica de uma empresa crescer em períodos instáveis como o atual.

“As empresas precisam vender solução para os clientes, ao contrário do que se vê, empresas vendendo problemas para os clientes. O segredo está na inovação contínua e capacidade de readaptação rápida às novas condições do mercado. É preciso focar na satisfação do cliente e reinventar continuamente atendendo aos desejos e necessidades dos consumidores que mudam radicalmente em momentos de crise econômica”, indica o economista.

Segundo Maia, da Coca-Cola Femsa Brasil, os insights e ações mais adequados para a conquista de resultados positivos mesmo em momentos de crise estão relacionados ao foco no cliente, inovação e valorização dos colaboradores.

“A primeira coisa é de fato se voltar para um dos aspectos mais importantes do negócio: mais do que o antigo clichê do ‘foco no cliente’, precisamos ter uma verdadeira obsessão pelos nossos consumidores. Entender de fato o que eles necessitam e trabalhar para ajudá-los a atender plenamente essas necessidades. Buscar formas de trabalhar em conjunto, para benefícios de todos. Introduzir inovações. Focar muito na nossa execução no ponto de venda. E muitas outras iniciativas. A inovação também é fundamental. Trazer o novo, sejam produtos, processos, modelos de negócio, de forma que atendam às necessidades dos clientes e dos parceiros. Entender as necessidades e dar-nos o desafio de atendê-las de novas formas. Questionar as formas e os padrões estabelecidos, buscando tanto desenvolver inovações a partir das nossas competências e talentos internos quanto trazer as melhores experiências de outros países, outros mercados e mesmo de outras empresas.

Além disso, as pessoas são peça-chave de qualquer estratégia. Seja em tempos prósperos, seja em tempos de crise. É necessário investir nos talentos, buscar o desenvolvimento, reconhecer, dar-lhes condições e suporte para que mostrem todo seu valor e, fundamentalmente, dar-lhes desafios, pois são nessas horas que o talento e o bom trabalho em equipe sempre vão aflorar e fazer a diferença”, ressalta.

Ainda de acordo com o diretor de planejamento e joint ventures da Coca-Cola Femsa Brasil, as ações adotadas pela empresa para a conquista de crescimento mesmo com as inúmeras instabilidades do país e, consequentemente, de consumo do brasileiro, foram diversas. Porém, ele assegura que todas foram e são alinhadas aos propósitos de inovar, atender bem e valorizar a mão de obra.

“Adotamos uma nova plataforma digital para nossas vendas, o KDP, muito mais moderna, rápida e orientada aos negócios. Dentre muitas outras coisas, por exemplo, ela permite trazer on-line diversas atividades dirigidas às necessidades de cada cliente, completamente customizadas ao perfil de cada um. Também avançamos muito em soluções baseadas em Analytics, permitindo agregar muito mais inteligência e análise com o objetivo de identificar melhores propostas de valor a nossos clientes e consumidores. Inovamos muito também em nossos produtos. Lançamos produtos como Crystal Sparkling, uma água com gás e aromas naturais, conforme pedidos dos nossos consumidores e tendências mundiais. Trouxemos também o Del Valle Origens, um suco premium 100%, de qualidade excelente e que já se tornou sucesso de vendas. Seguindo também a tradição de inovação de Fanta, lançamos a nova Fanta Guaraná com um novo e delicioso sabor, usando 100% Guaraná da Amazônia. Isso sem falar em Del Valle Fresh, Monster, os novos sabores Caseiros de Del Valle, entre muitos outros. Também não podemos nos esquecer dos talentos. Em momentos de crise, o investimento nas pessoas é tipicamente a primeira coisa que as empresas acabam cortando. Nós, ao contrário, mantivemos e ampliamos nossos programas de desenvolvimento dos talentos em todos os níveis, do operacional ao de liderança. Várias iniciativas foram realizadas junto às melhores universidades do país, com resultados muito positivos”, detalha.

Outro exemplo de que crescer na crise é possível partilhado por Maia é que, em 2016, a empresa adquiriu a Vonpar, engarrafadora que atendia o estado de Santa Catarina e grande parte do Rio Grande do Sul, em um investimento de R$ 3,5 bilhões. Além disso, a companhia está reconstruindo inteiramente um de seus centros de distribuição na região de Belo Horizonte, Minas Gerais, para suportar a expansão nesse território.

Inovar e agir sempre

Conforme o presidente do conselho de administração da Tramontina, inovação também é a estratégia-chave adotada pela empresa para superar a crise e adquirir bons números gerais. “A base é a inovação e a criação de novos produtos. Lideramos a diversificação do mix, que conta hoje com mais de 18 mil itens nos segmentos de utilidades domésticas, ferramentas de agricultura, jardinagem e profissionais, materiais elétricos, móveis de madeira e plástico e equipamentos de cozinha como fornos, coifas e cooktops. Os nossos produtos são quase de primeira necessidade, porque as pessoas precisam se vestir, se alimentar e morar. Tudo sempre é feito para assegurar a constante melhoria dos processos e atender à dinâmica de um mercado sempre em transformação. É dessa forma, buscando renovação permanente, que garantimos e ampliamos nossa credibilidade nos mercados em que atuamos. Apostamos na distribuição qualificada do volume de produtos, investimos em tecnologia de produção, logística e marketing”, diz.

Para a Tramontina, além de inovar, só é possível crescer na crise por meio de mais algumas estratégias empresariais, como “rever processos, enxergar oportunidades de diminuir custos, acertar nos investimentos, seguir com lançamentos e novidades, sem desequilibrar o negócio, nem perder qualidade. Essas são as estratégias adotadas pela Tramontina para crescer na crise”, revela.

O presidente do conselho de administração da companhia reforça que, acima de tudo, o melhor conselho para os empresários que não conseguiram crescer na crise é agir. “A primeira coisa é não fazer como avestruz, se esconder e não ver que tem uma crise. Importante é ser otimista e tentar driblá-la com as ferramentas possíveis. A Tramontina segue lançando produtos, fazendo promoções, conversando com os clientes para que eles também ofereçam preços especiais, para que todos possam ganhar. Afinal, a crise atual é sempre a pior porque é a que estamos vivendo agora”, aconselha.

Já Maia, da Coca-Cola Femsa Brasil, indica que também é necessário que os empresários fiquem atentos em relação às ‘arapucas ‘ derivadas dos momentos de crise. “O importante é não cair na armadilha das soluções fáceis, nem tampouco adotar a postura de simplesmente esperar que as coisas melhorem um dia. É preciso ter obsessão pelos clientes e consumidores, buscar inovar, se apoiar sempre no talento humano e nunca deixar de crescer”, conclui.

IBMEC
www.ibmec.br/mg
Coca-Cola
www.cocacolabrasil.com.br
Tramontina
www.tramontina.com.br

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