Capa: Vender ou não?

Dar esse passo pode ser essencial para manter ou aumentar a saúde financeira do empreendimento

“O que percebemos hoje na desfeita de negócios são algumas motivações que geram isso, principalmente em empresas familiares. Há situações como separação conjugal, outras como o empresário não ter um sucessor – familiar ou não – cansaço de continuar tocando seu negócio, divergências pessoais, não ter capacidade de fazer gestão, entre outras. Essas são as principais motivações. A vantagem de ter um patrimônio e não ter o sucesso devido nele, e é sabido que vai perdê-lo, que terá perda de ativos – sim, é melhor vendê-lo”, inicia orientando Arnou dos Santos, analista do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) Minas.

Com tantas empresas existentes no país, de micros a grandes portes, o temor de dias difíceis ronda os empresários quase que diariamente. Gerenciar uma organização é um desafio e tanto, principalmente em uma economia cambaleante e instável como a brasileira se apresenta nos últimos anos e continua se mostrando atualmente mesmo com avanços. Porém, não é só pessimismo que existe nesse mundo corporativo. Existe, sim, a possibilidade de se desfazer de um negócio, mas, também, há muitos motivos para continuar com ele e ter grande sucesso. O analista do Sebrae norteia como ser um empreendedor novato e como continuar sendo e mantendo uma empresa forte num mercado tão competitivo e avassalador.

“Se a empresa está tendo lucratividade, se não perde espaço no mercado, vale a pena manter o seu negócio funcionando. O importante é ter a ciência de que existem mecanismos para abrir e manter uma empresa. Ter capital de giro, ter sócio, se vale a pena uma empresa ser fundida com outra para não perdê-la também é uma boa opção”. Falando do food service, Arnou conta que em restaurantes, por exemplo, se o empresário investir em novidades de tempos em tempos, ele certamente tem altos faturamentos. Nesses estabelecimentos do ramo, têm de ser avaliado se possui volume alto de venda e se há inovação para a clientela, senão ela se perde e não é fidelizada.

Características como inovação do cardápio e atratividades do local são fundamentais. “No ramo de alimentos, infelizmente tem surgido muitas vendas/desfeitas de negócios porque o faturamento cai, mas os custos/despesas continuam os mesmos”, diz. O Sebrae Minas trabalha para promover a competitividade e o desenvolvimento sustentável dos pequenos negócios. Facilita o acesso de Micro e Pequenas Empresas (MPE) e Microempreendedores Individuais (MEI) à capacitação gerencial e técnica, à inovação tecnológica e a novos mercados.

Experiências
Procurados pela Food Service News, diversos empresários deram sua opinião e contaram suas experiências sobre se realmente vale a pena se desfazer de seu negócio ou continuar tentando. Há vários casos de sucesso na manutenção e expansão de empreendimentos. A 10 Pastéis, por exemplo, é uma rede de franquias de alimentos, com sede em Curitiba (PR), e que possui mais de 40 unidades, do Norte ao Sul do Brasil.

O diretor da 10 Pastéis, Marcos Nagano, explica que os benefícios em comercializar o seu negócio apresentam relação direta com o momento de mercado e o potencial do empreendimento em questão

A franquia é case de sucesso em serviços, desenvolvimento de produtos e possui know-how no atendimento regionalizado em diferentes praças. A rede de franquias da marca movimenta, anualmente, cerca de R$ 22 milhões. Nesses mais de 50 anos de atuação, a 10 Pastéis recebeu vários prêmios e o reconhecimento do mercado e dos consumidores.
O diretor da rede, Marcos Nagano, explica que os benefícios em comercializar o seu negócio apresentam relação direta com o momento de mercado e o potencial do empreendimento em questão. “Se o momento é bom, ele pode ter uma capitalização imediata e recorrer a outro investimento, que não envolva tanta ‘mão na massa’. Também terá uma boa parcela de mérito por decidir alavancar a marca com a entrada de um novo investidor, que trará uma carga alta de energia e capital para uma grande reforma no negócio”.

Luiz Paulo Silveira, vice-presidente técnico da Apsis Consultoria, avalia que, se este é o caso, e não há mais volta, vender seu próprio negócio é sempre uma decisão difícil. “Acredito que o mais importante seja não vender cedo demais ou tarde demais, mas, sim, no tempo certo. É importante que a governança e a gestão estejam funcionando bem, pois um eventual comprador levará em conta esses critérios para valorar o negócio. Também é determinante que o estabelecimento tenha uma boa reputação, uma boa base de clientes. Dessa maneira, será mais fácil chegar a um bom preço”.

Luiz Paulo conta que a Apsis assessorou recentemente a venda da rede “Fábrica de Bolo da Vovó Alzira” e foram muito bem-sucedidos. A Apsis é uma empresa especializada em avaliação de bens com 40 anos de atuação no mercado. Ao longo de sua trajetória, participou de grandes transações de compra e venda, como as que originaram a Ambev, a Totvs, a BRF e a B2W, entre outras empresas que são destaques da economia brasileira.

Expansão
A Champion Empada & Café da Champion Fried Chicken, rede de fast food brasileira inaugurada em 2016, no Rio de Janeiro, e que registra faturamento de R$ 3,4 milhões no período de curta existência, é outro grupo empresarial de sucesso. Maria Selma Mata, CEO da empresa, diz que a organização é nova, mas já está se expandindo muito. Desfazer-se de alguma empresa do grupo não está em seus planos, pelo contrário, a proposta é franquear mais ainda.

“Até hoje, eu não vendi nenhuma empresa minha e não tenho interesse, por ora, em vender. Estou faturando e muito feliz”, afirma Maria Selma Mata, CEO da empresa

“Até hoje, eu não vendi nenhuma empresa minha e não tenho interesse, por ora, em vender. Estou faturando e muito feliz”. A CEO continua: “uma empresa, normalmente, cresce 15% a 20% por ano, nós crescemos 55%. Em três anos, conseguimos dobrar o número de lojas, apesar dos altos preços de mercado para se levantar uma loja, sobretudo no Rio de Janeiro”, orgulha-se. Hoje, o grupo conta com 14 cafeterias, 3 restaurantes e 16 franqueados, entre outros negócios.

Marcus Cordeiro, da ba}Stockler, diz que vender parte do negócio pode ser interessante se o novo sócio aportar capital financeiro e/ou intelectual para alavancar o resultado da empresa

Consultoria
Continuando no campo das empresas de consultoria, importantes auxiliadoras de empresários, a ba}Stockler é uma empresa especializada em gestão de negócios em rede, sendo esses empreendimentos no segmento de varejo, serviços, franquias e demais áreas. “Nossa missão é ajudar empresas que já atuam em rede, ou seja, com mais de uma unidade em operação, a estruturar e a melhorar o negócio”, conta Marcus Cordeiro, sócio-diretor da companhia.

Outra área de atuação da ba}Stockler é a consultoria ao empresário quanto à preparação do negócio para a venda total ou parcial, sendo que atuam no intermédio de todo o processo. Para Marcus, vender a totalidade da empresa pode ser interessante caso o empresário, por qualquer razão, não tenha perspectiva de dar continuidade em sua gestão à frente do negócio (exemplos: dificuldades financeiras, falta de sucessores, surgimento de outra oportunidade, entre outros fatores que colaboram para a desistência da permanência com a operação). Já vender parte do negócio pode ser interessante se o novo sócio aportar capital financeiro e/ou intelectual para alavancar o resultado da empresa. Prejuízos podem ocorrer se o processo não for bem conduzido, o que pode levar à venda da participação por valor inferior ao valor justo de mercado.

Oferta
“Acredito que vender a empresa seja em situações de uma excepcional oportunidade, se para os sócios ou o dono do negócio for realmente benéfico, ok. Nos casos em que a venda é parcial, precisa deixar muito alinhado sobre expectativas e metas de entrega e crescimento. O risco ou prejuízo que pode acontecer é perder a identidade da empresa”, opina Leandro Souza, presidente e fundador da rede Espetto Carioca.

O fundador não tinha pensado em vender a rede até receber a primeira oferta. No caso, o pensamento não foi vender a empresa e sair, mas juntar forças, ou seja, vender parte da organização com foco em multiplicar o seu negócio, já que a maioria dos grupos econômicos, ou modelos de investimentos, visam investimento no crescimento do empreendimento.

“Somos uma rede que cresceu rapidamente em pouco espaço de tempo, apresentando números interessantes, mesmo com um volume teoricamente pequeno de lojas. Nossa rede conta com cerca de 30 lojas em um volume de vendas anual bruta maior que muita rede de alimentação com 100 a 120 lojas”. O Espetto Carioca é uma rede de bares e restaurantes especializada em espetos.

Avaliação
No mercado desde 2014, a rede de franquias Fórmula Pizzaria é uma empresa genuinamente mineira que nasceu em Belo Horizonte e hoje conta com 12 unidades no estado. Henrique Mol, fundador da rede, diz que a partir do momento que o franqueado ou o empreendedor recebe uma proposta que seja financeiramente vantajosa e alinhada ao objetivo, pode ser considerada e avaliada.

“Por exemplo, nós, como Fórmula Pizzaria, montamos as operações próprias e fazemos o repasse dessas operações/venda porque a nossa essência é dar suporte para a rede de franqueados e não operar uma loja. Então, isso pode estar alinhado às estratégias tanto do empreendedor quanto do grupo da empresa que está vendendo aquele negócio. Quando a gente fala de um negócio que não está indo bem, financeiramente falando, pode ser uma forma de tentar minimizar os prejuízos e o outro empreender, ter um fôlego a mais, agregar em ideias e ações que façam com que ele consiga reverter aquela situação”.

No caso da rede de franquias mineira, no que tange à alguma proposta de venda ou dissolução, o que tiveram foi o repasse de lojas. “Com relação à venda como franqueadora, a gente já teve proposta, mas faz bastante tempo. Ela não foi financeiramente atrativa, mas acredito que todo negócio precisa estar aberto a receber propostas se for interessante e estiver alinhado com o seu planejamento. A gente vai sempre analisar e entendendo que é positivo, sem sombra de dúvidas, pode ser uma alternativa, mas no momento nós não temos isso como objetivo”, pondera Henrique.

Empreender
Fundada em 2014, a Ice Creamy Sorvetes é a maior rede de sorvetes na pedra do Brasil. Pouco depois, em novembro de 2016, foi fundada a marca Santo Fogo Steakhouse, presente em três cidades do estado de São Paulo. Ambas são geridas por Émmerson Serandin, e no Santo Fogo, com a parceria de Raphael Ferraresi, também fundador do restaurante. Émmerson, presidente das duas marcas, acredita que esse delicado momento de reflexão do empresário está ligado ao propósito da marca e com o propósito de vida do empreendedor.

“Empreender não é fácil, por alguns momentos podemos pensar em desistir ou desanimar. Mas o empreendedor não pode confundir esse ‘desânimo’ com o seu sonho de empreender. Para mim, identificar se é o momento certo ou não de vender seu negócio é você avaliar como está sua empresa. Se você enxergar que sua empresa tem potencial para crescimento e tem perspectiva para realizar um IPO (Oferta Pública Inicial, em português, é o nome dado ao processo no qual uma empresa vende suas ações ao público pela primeira vez) ou outra empresa grande comprá-la, vale a pena ficar. Agora se os resultados não estão bons, se você entende que está faltando capital intelectual e financeiro para a empresa poder crescer, acredito que vale a pena vender ou arrumar um investidor”.
O presidente sempre gosta de falar que o empreendedor precisa sair de casa de manhã com prazer no trabalho e dinheiro. “Se puder agregar os dois, melhor ainda”. Terá o momento em que o trabalho vai dar prazer e não dará resultado ou vice-versa. Sobre o interesse em vender seu negócio, Émmerson diz não pensar nisso agora. “Já tivemos conversas, porém nada que me motivasse a vender. Tenho um planejamento estratégico traçado para minha rede até o ano de 2030. Pensaria em vender se aparecesse uma proposta realmente irrecusável ou um grande grupo querendo se associar ou fazer parte da rede”. A marca do grupo cresceu 900% em dois anos. Essas duas marcas fazem parte do Grupo Ice Creamy, de mesmo nome de uma delas.

Propostas
Eduardo Moraes, diretor da Latinex, opina que o grande benefício em vender, de fato, é perpetuar e/ou expandir o negócio. “Sob a minha ótica, é isso que deve nortear uma decisão nesse sentido”. O diretor fala que o mercado está sempre de olho em empresas saudáveis e em constante expansão como a Latinex. “Já recebemos, sim, propostas de sócios capitalistas interessados em expandir o negócio mais rapidamente, mas por enquanto não nos encantaram”, afirma.

Eduardo Moraes, da Latinex, frisa que o grande benefício em vender um empreendimento, de fato, é perpetuar e/ou expandir o negócio

Este ano a empresa deu mais um importante passo para impulsionar seu crescimento. “Estamos investindo inicialmente R$ 5 milhões para dar início à produção nacional de parte do nosso portfólio. A produção local começa com os temperos com moedor, BBQ, zero sódio, especiarias, sal rosa e sal cinza. Até o fim de 2018, devemos ampliar os investimentos e chegar a 90 produtos fabricados no Brasil”. Uma empresa de alimentos 100% nacional, a Latinex traz tendências globais de alimentação para o consumidor brasileiro, inovando nas tradicionais categorias de alimentos.

Compreensão
“Devemos compreender quais são os motivos ou objetivos do empresário que vende sua empresa. Se estiver com problemas que acredita não conseguir resolver, desinteresse ou mudança de segmento, problemas familiares ou de saúde, enfim, o empresário deve fazer uma reflexão se realmente a alternativa é a venda. Se tiver certeza, deve planejar a forma como será a venda para que obtenha o melhor valor possível na negociação”, orienta Haroldo Matsumoto, sócio-diretor da Prosphera Educação Corporativa, consultoria multidisciplinar especializada em gestão de negócios.

Nesse quesito, valores tangíveis como infraestrutura, equipamentos, dívidas, receita, base de clientes ativos, somados aos valores intangíveis, como valor da marca, potencial de crescimento, cultura organizacional, serão decisivos para obter maior ou menor valor da empresa em questão. A forma de negociação e o contrato de compra e venda serão cruciais para determinar se haverá prejuízo ou não na transação para o vendedor da empresa. Por exemplo, se o comprador adquirir a marca, base de clientes e estrutura, mas não aceitar o passivo trabalhista, há grande chance, nos dois anos seguintes, de o vendedor ser surpreendido por um processo de ex-funcionário da ex-empresa.

“Para quem investe em novas oportunidades, nunca o mercado esteve tão favorável, pois equipamentos de fast food seminovos podem ser adquiridos por valores simbólicos no mercado”, diz Haroldo Matsumoto, da Prosphera

Para Haroldo, o empresariado do ramo da alimentação costuma ter a prática de vender/se desfazer de seu negócio. “Como havia comentado, desde a dissolução de uma sociedade que não deu certo até a venda para adquirir/investir em outro negócio. Principalmente com a crise que assolou a maioria das empresas nos últimos três anos, muitos empresários não conseguiram se adaptar ao ambiente de baixa demanda, entrando em prejuízo e preferindo vender a empresa para se livrar do problema. Para quem investe em novas oportunidades, nunca o mercado esteve tão favorável, pois equipamentos de fast food seminovos podem ser adquiridos por valores simbólicos no mercado”.

Atenção
O sócio-diretor da Saladenha, rede de franquias de restaurantes especializados em alimentação saudável, Pedro Almeida, opina que é comum empresários ao atingirem a famosa “crista da onda” venderem suas operações.
“Particularmente, acredito que o sucesso da operação chama atenção para os grandes players do mercado e é nesse momento que o empresário precisa ficar atento, pois oportunidades vão surgir, mas eu não acredito que alguém inicie um negócio pensando em vender. Se esse for o objetivo inicial, a operação dificilmente decola. Acredito que a venda pode ser resultado de um excelente trabalho e muito sucesso”.

Pedro Almeida, da Saladenha, acredita que a venda pode ser resultado de um excelente trabalho e muito sucesso

Sobre sua experiência, Pedro conta que até hoje surgiu uma pessoa interessada em comprar tudo, mas “nós ainda acreditamos que somos pequenos – temos apenas sete lojas e mais cinco em fase de instalação”.
Ele acredita que ainda tem muito mercado para conquistar. Ampliar a rede é o principal desafio. Fazer as lojas ‘performarem’ cada vez mais é um desafio constante, e sabe que o perfil do franqueado faz toda diferença.

“Hoje estamos vendendo franquias e não sendo mais comprados. Essa foi uma quebra de paradigma muito grande. Hoje entendemos a diferença e que precisamos, sim, escolher o perfil mais comercial para o negócio, mais proativo e mais envolvido com o segmento”, destaca ele.

10 PASTÉIS
www.10pasteis.com.br
APSIS
www.apsis.com.br
BA}STOCKLER
www.bastockler.com.br
CHAMPION EMPADA & CAFÉ
www.championfc.com.br
ESPETTO CARIOCA
www.espettocarioca.com.br
FÓRMULA PIZZARIA
www.formulapizzaria.com.br
GRUPO ICE CREAMY
www.icecreamy.com.br
LATINEX
www.latinex.com.br
PROSPHERA
www.prosphera.com.br
SALADENHA
www.saladenha.com.br
SEBRAE-MG
www.sebraemg.com.br

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